Brasília 50 anos - parte 3 de 5: Série especial

O público e o privado

Escola fazendária (1973) - Pedro Paulo de Melo Saraiva

O público e o privado
Escola fazendária (1973) - Pedro Paulo de Melo Saraiva
"Quando me formei, tive a oportunidade de estagiar com Pedro Paulo, que estava participando da concorrência fechada do prédio da escola fazendária. Ele foi corajoso e chamou um bando de meninos não formados para trabalhar. Na equipe estávamos Henrique Cambiaghi, Sidney Meleiros Rodrigues, Sérgio Ficher e eu. Fiquei muito orgulhoso com a incumbência de desenhar as perspectivas. Logo depois fui fazer mestrado em Harvard, e os outros continuaram com o professor. Era a época do milagre econômico. E eu perdi justamente essa fase em que os arquitetos recusavam trabalho porque não davam conta da demanda. Quando voltei ao Brasil já era início dos anos 1980, a chamada década perdida."
Bruno Padovano, arquiteto
Praça dos Cristais (1970) - Roberto Burle Marx
"Em uma viagem a Cristalina, região próxima de Brasília, Roberto se impressionou com a forma dos enormes cristais. Estávamos iniciando o projeto da praça e ele decidiu usar a ideia desses elementos, me incumbindo de fazer a maquete a partir de um croqui. Os cristais foram executados em concreto aparente. Também é interessante na praça o uso de espécies da região de Brasília e o fato de ela ter um local para manifestações cívicas, por ficar diante do quartel. No ano passado, a praça foi restaurada pelo Exército, com muito empenho de um coronel, que nos procurou para tirar algumas dúvidas. Os cristais também foram recuperados, porque o concreto estava comprometido. Só que eles não deveriam ter sido pintados, deveriam ter ficado na cor natural do concreto. Mas é só esperar um pouco que a tinta se desgasta novamente e fica como Roberto gostaria." Haruyoshi Onu, paisagista
Reitoria da UnB (1972) - Paulo Zimbres
"Quando fui reitor da UnB, entre 1985 e 1989, os alunos me proporcionaram momentos divertidos. Certa vez, durante uma reunião do conselho universitário, no prédio da reitoria, um estudante apareceu de camiseta regata. Eu o chamei para dizer que aquela não era uma roupa adequada e ele me respondeu: ‘Pô, Cristovam, tá ficando careta?’. Em outra ocasião, percebi que alguns estudantes estavam se aproximando, fazendo um panelaço para reclamar da comida do bandejão. Antes que eles chegassem até minha sala, chamei o garçom e pedi que ele me trouxesse umas panelas também. O grupo chegou pensando que ia me surpreender, mas eu é que os surpreendi e os recebi também batendo panela."
Cristovam Buarque, senador
SQS 203 (1972) - Milton Ramos
"Quando estávamos pesquisando para o livro A invenção da superquadra, em coautoria com Marcílio Mendes Ferreira, fiz uma entrevista com Milton Ramos. Ele falou sobre os projetos das quadras 400 e sobre pré-fabricação. Comentou também sobre o bloco C da SQS 203, no qual usou viga T para formar a laje. A solução permitia vencer o vão de fachada a fachada e estava associada ao isolamento entre pavimentos, a fim de promover ventilação cruzada. O projeto original tinha até um elemento de ventilação no teto para a saída da fumaça de cigarro, detalhe abandonado pela construtora. Depois é que Milton foi desenvolver os prédios de dois andares, feitos para os funcionários de baixo poder aquisitivo dos ministérios."
Matheus Gorovitz, arquiteto
Ginásio Nilson Nelson (1973) - Ícaro de Castro Mello e Cláudio Cianciarullo
"Nosso desenho do ginásio utiliza no partido estrutural um símbolo esportivo: uma cesta de basquete. O vão da cobertura, feita de alumínio, era um dos maiores do país, com 50 metros, se não me engano. O projeto foi desenvolvido por Hans Eger, o mesmo que calculou o Anhembi. Uma das características do ginásio é um fosso entre o público e os atletas, que utilizávamos nos estádios mas não era comum em ginásios, dividindo o uso sem ser muito acintoso. A inauguração foi bem representativa do Brasil de então: na quadra, uma apresentação de Garibaldo, Ana, Gugu, toda a turma de Vila Sésamo, que estava no auge; na plateia, num camarote, estava o presidente Medici." Cláudio Cianciarullo, arquiteto
Sede do DNER (1974) - Rodrigo Lefèvre e equipe
"O projeto do prédio do DNER [atual DNIT] foi elaborado na Hidroservice, uma empresa de porte, que venceu a concorrência para desenvolver esse trabalho. Naquela situação não se falava em um autor, mas em equipes de criação compostas por arquitetos e engenheiros que trabalhavam juntos, um respeitando o ponto de vista do outro. Rodrigo Lefèvre era o líder da equipe de arquitetos. Uma marca fundamental de sua participação no projeto está nos quebra-sóis, que dão o ritmo de luz e sombra e conferem a característica formal mais importante do edifício. Lefèvre tinha convicções políticas contrárias ao regime e havia sido preso pelos militares. Quando saiu da prisão, em 1973, recebeu convite de João Rodolfo Stroeter para trabalhar na Hidroservice, onde foi calorosamente acolhido. A Hidroservice tinha grandes contratos com o governo militar e um cliente estatal começou a criar obstáculos à entrada de Lefèvre. Henry Maksoud, o dono da construtora, teve um gesto de coragem e rejeitou as pressões: ‘Na minha empresa mando eu’, respondeu. Foi assim que Lefèvre entrou para a Hidroservice, onde trabalhou até sua morte, em 1984." Nelson Andrade, arquiteto
Residência Bettiol (1976) - Zanine Caldas
"É uma casa hospitaleira, lugar do bom convívio. Uma embaixada informal mesmo, como costumava dizer a Betty. Há 20 anos ou mais, sempre que havia uma exposição em Brasília era lá que nos reuníamos, aproveitando a generosidade do projeto de Zanine. Eu me lembro das conversas agradáveis com Tomie Ohtake e Aldemir Martins, por exemplo, na época de uma mostra sobre os artistas paulistas, ainda durante o governo Sarney. Zanine fez uma casa aberta, com conceito agregador e uma relação muito adequada com o meio ambiente. Tinha até um tucano que convivia livremente com a família e os amigos. Marcante ver, naquele contexto, o voo livre do pássaro ícone da brasilidade." Gilberto Salvador, artista plástico
Escola Francesa (1978) - Oscar Niemeyer
"A maior parte das reuniões de que participei para encaminhar o desenvolvimento do projeto do Liceu Francês François Mitterrand (leia PROJETO DESIGN 356, outubro de 2009), que será implantado em Brasília, foi realizada na atual sede da escola. Nela há um painel de Athos Bulcão, que vamos remontar nas futuras instalações. E mesmo assim nunca me ocorreu que a Escola Francesa pudesse ter sido projetada por Niemeyer, ainda mais quase na década de 1980. São formas que pouco ou quase nada têm a ver com seus outros trabalhos na cidade. O desenho do edifício tem um quê de escola paulista." José Tabith, arquiteto
Hospital Sarah Kubitschek (1976) - João Filgueiras Lima (Lelé)
"Lelé me cumprimentou por ter escrito o livro sobre Athos, disse estar emocionado porque finalmente o amigo recebia o crédito devido. Ele também me falou sobre as dificuldades que teve na primeira unidade do Sarah em Brasília; ele pediu ajuda para resolver a volumetria de uma escada sem graça e, em resposta, Athos transformou o espaço com o uso da cor. Daí em diante ele fez mais e mais nos hospitais, criou até elementos arquitetônicos. Athos é o desconhecido íntimo de Brasília, as pessoas nem têm ideia de tudo o que fez na cidade. A nouvelle vague foi uma de suas influências: grafismos, como o da parede atrás dos enormes pilares do Congresso, por vezes simulavam o tremido da câmara na mão ou a visão dinâmica, em movimento." Agnaldo Farias, crítico de arte
Embaixada da Itália (1977) - Pier Luigi Nervi
"Eu acho que a Embaixada da Itália é uma resposta de Nervi ao Itamaraty: os dois têm plantas quadradas, ênfase estrutural e escala monumental. Em relação a este último aspecto, o embaixador italiano na época da construção, que era casado com uma brasileira, foi contra, achava o prédio grandioso demais. Mas creio que o projeto, diferentemente da maioria das outras embaixadas em Brasília, é um grande acerto. A minha preferida é a do México, mas é a Embaixada da Itália a que melhor aproveita a vista, com a casa do embaixador no último andar e os escritórios no penúltimo. Mas reconheço que os salões de recepção são um pouco acanhados." André Corrêa do Lago, diplomata e crítico de arquitetura
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 362 Abril de 2010

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 362

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