Museu da Cruz Vermelha, Genebra, Suíça: Gringo Cardia, Diébédo Kéré e Shigeru Ban

Tríplice aliança humanitária

Dez anos de desenvolvimento do briefing e quase quatro para a implantação foram despendidos na reformulação do Museu da Cruz Vermelha, em Genebra, Suíça

Inaugurada no final de maio, a nova exposição permanente do museu teve projeto concebido por um trio multinacional: Gringo Cardia (Brasil), Diébédo Kéré (Burkina Faso) e Shigeru Ban (Japão). Os valores, personagens e desafios da ação humanitária contemporânea são os motes da intervenção de cada arquiteto.

O concurso para a concepção da nova expografia permanente do museu, uma entidade à instituição Cruz Vermelha, ocorreu em 2009, no sistema de convite fechado. A ideia era selecionar três dos nove concorrentes (participaram ainda Pedro Mendes da Rocha e Isay Weinfeld, do Brasil; David Adjaye, da Tanzânia/Reino Unido; Siddhartha Das, da Índia; Shael Al Hiayri, da Jordânia; e Lv Yongzhong, da China) para conceberem setorialmente a museografia, baseada em documentos sobre direitos humanos (leis que remontam à Idade Antiga), fotografias e objetos de (e sobre) situações em que esses direitos foram violados ao longo da história.

Antes de apresentar as particularidades e os aspectos comuns aos projetos - cuja coordenação esteve a cargo do estúdio suíço Oï -, vale elucidar o caráter geral de visitação do espaço, que anualmente recebe cerca de 1 milhão de pessoas, a maior parte jovens de até 20 anos e reunidos em grupos. A presença de famílias também é recorrente no museu, que ficou fechado um ano e meio, durante a realização das obras cenográficas.

Maior intensidade emocional expositiva foi uma das diretrizes centrais do briefing, que, já plenamente consolidado na chamada de trabalhos para o concurso - elogia Gringo Cardia -, detalhava os grupos de informações e objetos a serem vinculados a cada sala, de cada setor. Interessante notar, nesse sentido, as distintas linguagens adotadas por cada arquiteto.

Cardia, autor da ala chamada Defending Dignity, mantém a veia teatral e a ênfase na decupação do conteúdo presentes em trabalhos anteriores de sua autoria, como os museus das Telecomunicações, no Rio de Janeiro, e de Minas e Metal, em Minas Gerais.

Diferentemente dos outros dois criadores, ele setorizou seu projeto em cinco salas interconectadas, porque “queria que o visitante mergulhasse na narrativa”. A escultura de um pé gigante e bonecos de vodu são alguns dos artefatos figurativos elencados pelo gaúcho de veia carioca, assim como projeções em superfícies verticais e horizontais que configuram o aspecto interativo e mais tecnológico da sua intervenção. “O espaço imersivo procura despertar nossos sentimentos instintivos de solidariedade através do uso de uma mistura de design gráfico, cinema, som, luz e encenação”, ele declara no memorial do seu projeto.

Já Diébédo Kéré, importante arquiteto africano contemporâneo, assina o espaço Restoring Family Links. A nada palatável história de familiares em busca de informações sobre entes desaparecidos e a ação de voluntários que procuram reconectar essas pessoas são o programa do seu projeto, que, desenvolvido em espaço único, tem a marca da arquitetura de adobe característica de sua produção.

“É vital simbolizar o retorno das pessoas às suas raízes e à natureza em tempos de tragédia. A simplicidade dos materiais e o modo com que eles são dispostos simbolizam a dura materialidade da busca pelos desaparecidos”, atesta o Kéré.

Abordando a sustentabilidade, Shigeru Ban é o autor da grande sala denominada Reducing Natural Risks, que trata da ação da Cruz Vermelha em situações de desastres naturais. Componentes de papelão reciclável são a base da sua cenografia: “Utilizamos o mesmo tipo de material que temos empregado na construção de casas temporárias, escolas e igrejas em campos de refugiados da África e em áreas devastadas por intempéries”, comenta Shigeru Ban, referindo-se à sala de visual orgânico que recebe os visitantes na sua área de projeto.

As três intervenções totalizam cerca de 2,5 mil metros quadrados, complementados pela sala de recepção concebida pelo estúdio Oï. A madeira foi o elemento escolhido pelos suíços para configurar a ambiência do seu projeto, complementado ainda pela coordenação das propostas dos três outros arquitetos. O que equaciona a dicotomia entre neutralidade e impacto visual, demandados pelo briefing, é em boa parte a iluminação multicolorida e dinâmica utilizada pelo amplo time de projetistas.

No próximo ano deverão ser inauguradas, ainda, duas novas alas complementares: o restaurante, na cobertura da mostra permanente; e o edifício adjacente, expositivo, corporativo e centro de convenções. Ambos projetados, também por concurso, pelos arquitetos suíços do grupo8.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 401
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