FINESTRA: L35 ACIA Arquitetura, Shopping Jardim Pamplona, São Paulo

Desenhado para o bairro

Localizado entre a rua Pamplona e a avenida Nove de Julho, na região paulistana dos Jardins, o edifício que abrigou na década de 1970 o supermercado Eldorado e, a partir de 1997, o Supermercado Carrefour, tornou-se o shopping center Jardim Pamplona após passar por um amplo retrofit. Um estudo de mercado realizado para entender o perfil do cliente que o shopping iria atender norteou a concepção arquitetônica assinada pelo escritório L35 ACIA Arquitetura

 A proposta do Carrefour Property Division, braço imobiliário do grupo francês, era reformar todo o edifício, mas sem aumentar área construída e sem interferir nas atividades do supermercado.O programa consistia na criação de um centro comercial de vizinhança, desenhado para o bairro, composto por supermercado no térreo e no primeiro andar, estacionamento no subsolo, dois andares de lojas e uma cobertura com terraço destinada a um restaurante.

“A intenção era desmistificar aquela caixa fechada que traz problemas para o bairro – característica peculiar de shopping centers - e retomar a época das galerias em que o comércio de rua entrava nos centros comerciais. Como solução optou-se por conectar o edifício com o bairro através do desenho das fachadas e das peles de vidro que conduzem o cliente até o interior do shopping, criando uma extensão do comércio da rua Pamplona. É muito importante criar essa relação entre público e privado conquistada pela escolha dos materiais e do desenho”, detalha o arquiteto Fabio Aurichio, autor do projeto.

Na antiga edificação, a fachada frontal, voltada para rua Pamplona, era escura e a posterior, na avenida Nove de Julho, uma parede cega. Com o retrofit a proposta foi abrir o edifício para a cidade. Com isso, parte das lajes superiores foram quebradas para criar um grande vazio interno de modo a permitir a penetração da luz natural através de cinco claraboias quadradas de 5 x 5 metros distribuídas no telhado. Como o edifício era muito antigo, a abertura do vazio no seu interior exigiu a adoção de reforço estrutural no prédio inteiro.

“A otimização do uso do ar condicionado foi uma preocupação do projeto arquitetônico e a inércia térmica é de extrema importância para otimizar a climatização. Uma das soluções foi a especificação de uma cobertura leve com grande nível de inércia térmica, incluindo as claraboias vedadas com vidros insulados de 32 milímetros de espessura, com profundidade calculada na sombra para que a luz entrasse rebatida e não diretamente. Na área de alimentação, foi inserida uma grande parede verde para equilibrar a umidade do ar interno. A parede também tem uma função acústica, porque recebeu substrato com grande poder de absorção de barulho”, explica Aurichio.

A solução arquitetônica do retrofit do shopping Jardim Pamplona foi indicada e vencedora do Prêmio Prix Versailles, categoria centro comercial 2017. Promovido em parceria com a Unesco, a premiação busca destacar projetos comerciais, com o intuito de mudar a visão do edifício comercial tratado como secundário. “A Unesco vem fomentando esse prêmio para que esse subproduto do arquiteto tenha um patamar elevado. Por isso a premiação é regional e o nosso projeto foi o vencedor entre os indicados do continente americano”, destaca Fabio Aurichio.

Composição de fachadas

O edifício possui quatro fachadas: a frontal sul, instalada na rua Pamplona, com 32 metros de largura; a posterior norte, voltada para a avenida Nove de Julho, com 15 metros de altura e 32 metros de largura; e duas laterais – uma voltada para o prédio vizinho (face leste) e outra voltada para a viela Ouro Branco (face oeste). Esta última recebeu a fachada ventilada revestida com painéis de polímero, enquanto que na oposta, leste, o sistema ventilado recebeu placas cimentícias Viroc, em tom escuro, porém o acabamento dos cantos é branco para marcar as arestas vivas.

As faces frontal e posterior receberam vidro combinado com painéis de polímero. De acordo com o arquiteto, “a escolha do vidro começou a partir da possibilidade de usar vidros extraclaros produzidos no Brasil. Toda a modulação, paginação de fachada e conceito das esquadrias foram feitos a partir da escolha do vidro e do sistema que melhor atendia o custo. O outro ponto foi a definição da fachada ventilada, idealizada com painéis opacos e arestas vivas para criar uma caixa limpa e leve - o sistema escolhido tem ¼ do peso de um painel de granito convencional. A envoltória se completa com varandas verdes ligadas ao plano da escada rolante. Sem acesso ao público, as varandas fazem parte da fachada e são constituídas de uma estrutura metálica anexa às lajes”.

Segundo Rodrigo Seixas Guerrero, diretor de operações da Cyberglass, responsável pelo beneficiamento e fornecimento dos vidros, “a proposta arquitetônica era usar vidros extraclaros laminados com vidros incolores, ambos termoendurecidos. Essa combinação, porém, não ofereceria o resultado desejado, pois a intenção era que os vidros apresentassem o mínimo de tom verde possível, deixando a fachada transparente. O custo de um vidro extraclaro só valeria a pena se a laminação fosse feita apenas com vidros extraclaros, caso contrário, a aparência continuaria a de um vidro incolor. Com base em normas técnicas, localização da obra, entorno, tamanho de peças e espessura, a indicação era ter vidros apenas laminados e não termoendurecidos, reduzindo assim custos com processos e PVB. Dessa forma, o custo final da obra foi otimizado, o que viabilizou a utilização de dois vidros extraclaros, em vez de um extraclaro e outro incolor.”

O arquiteto explica que para criar a ideia de profundidade da fachada e garantir o aspecto térmico e estético, a vedação da pele de vidro recebeu três tipos de vidro: um transparente e outros dois com opacidade diferentes. “A dinâmica se deu a partir dos estudos de insolação; por isso, na fachada da rua Pamplona, no canto da direita para esquerda, o vidro é mais opaco porque a incidência solar é maior. Os vidros menores foram usados por uma questão estética e a intensidade de luz compõe um jogo aleatório de cheios e vazios, quebrando a monotonia”.

“A diferente opacidade nos tons dos vidros se dá em função do uso de diferentes PVBs. A maioria dos vidros recebeu PVB incolor e o restante da laminação foi dividida entre película white porcelain (branco) e milky white (opaco). A transmissão luminosa é de 87% para PVB incolor, 52%para PVB opaco e 8% para PVB branco. Os vidros da fachada possuem 12,38 milímetros de espessura e fator de proteção solar (UV) de 99,9%”, detalha Guerrero.

Foram muitos os desafios para execução das fachadas. Segundo Raul Ferreira da Costa Junior, diretor da Cosbiem, responsável pela execução, por se tratar de um retrofit com significativa transformação civil de um estabelecimento de varejo, o prazo de execução foi um das grandes dificuldades.

“A logística foi primordial para o sucesso do empreendimento, considerando ainda todas as interferências de etapas simultâneas na obra. Um outro grande desafio foi fazer todos os projetos executivos baseados unicamente nos projetos existentes de estrutura metálica, sem medidas físicas totais, necessitando de muitos e contínuos ajustes, e o sistema Grid de 110 milímetros foi o que melhor atendeu as características das fachadas. O trabalho foi monitorado o tempo todo por topografia.”

Os vidros foram aplicados com gaxetas de EPDM nos perfis de alumínio, com reforço de aço revestido com protetor anticorrosivo. Os perfis receberam acabamento de pintura eletrostática na cor branca RAL 9003 fosca.

“A instalação da caixilharia exigiu uma estrutura auxiliar em aço prevista pela arquitetura, definindo eixos com medida de 3.800 milímetros diferenciada do padrão nacional devido às medidas de chapas padrão que desenharam um mosaico nas fachadas. Em função do grande porte da estrutura metálica, foi necessária a implantação de blocos de fundação até o terceiro piso e, a partir desse ponto, começaram as colunas até o quarto piso (cobertura).Para garantir a estanqueidade da caixilharia, nas juntas horizontal e vertical, com espessuras de 10 milímetros e 12 milímetros, foi aplicado silicone monocomponente de cura neutra”, explica Costa Junior.

Fachada ventilada

A fachada ventilada era um ponto comum pela necessidade de resolver questões construtivas de um edifício antigo com uma grande diversificação no tamanho dos blocos, que deveria ser ajustada mas aumentaria muito o tempo obra.

“A escolha da fachada ventilada garantiu velocidade à obra, leveza e estética. O sistema construtivo oferecia a possibilidade de placas grandes, mas para atender a modulação arquitetônica, as placas foram cortadas nas dimensões de 90 x 90 centímetros. Tal modulação se deu em função estética. As relações diagonais da fachada levavam a uma distorção do cubo, que já não era perfeito, e para obter essa perfeição a paginação quadrada leva o olho humano a ver o edifício como um cubo perfeito”, detalha o arquiteto.

A fachada ventilada é composta por painéis de concreto polímero produzido com agregados de sílica, quartzo e uma resina polimérica, que substitui a água e o concreto. Trata-se de um painel mais rígido e resistente mecanicamente, que pesa 32 kl/ m2, tem 14 milímetros de espessura e é fabricado na Espanha pela Ulma.

De acordo com Rodrigo Gamero, gerente comercial, a empresa espanhola fez o projeto de paginação com tamanho exclusivo dos painéis, desenvolveu as subestruturas customizadas para atender as câmaras e detalhou os arremates, viradas e ancoragens do sistema ventilado. Para cada pano de fachada criou-se uma subestrutura devido aos diferentes volumes que cada trecho apresentava.

Para atender a estética arquitetônica foram adotadas texturas de modo a proporcionar identidade ao projeto. No mesmo módulo há duas texturas: lisa e rugosa. Além das placas brancas, existem placas na cor cinza nos anexos. No total são 4.800 metros quadrados de painéis, distribuídos nas fachadas Nove de Julho, Pamplona e Ouro Branco. Originalmente, os painéis possuem 1,80 metro de altura por 90 centímetros de largura, mas, para atender o partido arquitetônico da obra, eles foram cortados ao meio resultando em painéis quadrados de 90 x 90 centímetros.

As cerca de 6.000 placas foram fixadas na subestrutura de alumínio anodizado equidistante cerca de 15 centímetros da parede do edifício (largura de câmara). Produzida sob medida, a subestrutura teve um importante papel no projeto. Ela serviu para regularizar e reaprumar a fachada através das ancoragens fixadas na estrutura do edifício e dos montantes verticais. Os painéis fixados no sentido horizontal possuem juntas secas de 3 milímetros de espessura.



Ficha Técnica

Shopping Jardim Pamplona
Local São Paulo (SP)
Cliente Carrefour Property Division
Área 43.500m2 (20.000m2 de ABL)

Arquitetura L35 ACIA Arquitetura - Fabio Aurichio (autor); Fernanda Cinquetti, Ramon Castillo (coordenadores); Luciana Maki, Mariana Soares, Felipe Lopes, Fernanda Sarno, Pedro Lacalle, Flavia Costa, Ana Carolina Vecchia e Stella Nieto (colaboradores)
Concreto Quadrante Engenharia e Pasqua & Graziano Associados
Metálica Quadrante Engenharia e Grupo Dois
Instalações Abelv/ Sistavac
Consultoria de incêndio Engepoint Engenharia
Acústica Alexandre Sresnewsky Consultoria
Luminotécnica Neide Senzi
Paisagismo Sérgio Santana
Comunicação visual Dea Design
Mobiliário interno FutureBrand
Construção Consplan Engenharia
Gerenciamento de obra Engexpor Brasil
Fotos Daniel Ducci

Fornecedores

Ulma Architectural Solutions / Viroc Investwood (revestimento de fachada);
Cosbiem (caixilhos);
Casa Francesa (ladrilho hidráulico);
MMCité Mobiliário Urbano / Z´Figueiredo (mobiliário externo);
Concresteel (piso externo);
Pavigres Cerâmicas (piso interno);
ID Móveis / Teakstore (marcenaria);
Sulmetais (brises e revestimentos metálicos)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 444
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