AÇO PARA ARQUITETURA
Uma residência de 200 metros quadrados com estrutura de aço pode gerar apenas um metro cúbico de resíduos recicláveis
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- 09 de Dezembro de 2008. Visitas: 24.410
melhor fase
O mercado nunca esteve tão favorávelao desenvolvimento da construção em aço. A indústria da construção civil se manteve como principal consumidora de produtos siderúrgicos em 2007, respondendo por 30%, segundo a engenheira Cátia Mac Cord, gerente executiva do Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA). Estudos do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) informam que a média anual de crescimento da participação das estruturas de aço no país tem sido de 6,5% desde 1999. O cenário econômico é promissor para o setor e a tendência é que o aumento verificado no último ano, impulsionado em grande parte pelo desempenho positivo da indústria global, tenha continuidade.
O próprio CBCA é um reflexo desses novos tempos. O órgão foi criado em 2002, a partir do interesse da siderurgia brasileira em apoiar o desenvolvimento do consumo do aço na construção civil. Em forma de consórcio, tendo o IBS como gestor, o centro congrega representantes da indústria, entidades e profissionais, com o objetivo de difundir informações técnicas, identificar as necessidades da cadeia produtiva e ampliar a participação da construção metálica no mercado nacional.
“O principal resultado obtido é a excelente receptividade à informação por parte do mercado, que mostra interesse em conhecer e utilizar a tecnologia”, observa Cátia. O trabalho desenvolvido pelo CBCA envolve todos os elos da cadeia produtiva da construção em aço: fabricantes de estruturas metálicas e demais produtos para a construção civil; beneficiadores; fabricantes de máquinas, equipamentos e materiais complementares; prestadores de serviços; construtoras e escritórios de arquitetura e engenharia; universidades e associações.
VIRADA TECNOLÓGICA
“Estima-se que a metade dos aços para a arquitetura usados atualmente não existia até o início dos anos 1990”, revela Cátia. Além disso, novas tecnologias e sistemas construtivos nos canteiros de obras se multiplicaram, principalmente a partir de 1995. E não se trata apenas de estruturas metálicas, como os componentes com pilar misto, pilar pré-moldado e light steel framing, mas de uma gama de produtos industrializados, como painéis pré-fabricados para fechamento, drywall, shafts, tubulações flexíveis de polietileno e de CPVC. Trata-se de um momento de passagem da construção convencional para a industrialização no país.
A indústria do aço embarca nessa virada tecnológica da construção civil. Assim, o mercado desfruta atualmente de grande variedade de produtos, entre chapas, barras, perfis laminados, soldados ou eletrossoldados, perfis formados a frio, tubos de seção circular, quadrada e retangular. Essa diversidade, segundo Cátia, decorre da necessidade permanente de adequação do produto às exigências de aplicações específicas, que vão sendo criadas pelo próprio mercado. Graças aos contínuos avanços tecnológicos apresentados pela indústria siderúrgica, expande-se o consumo do material tanto em estruturas quanto em coberturas e fechamentos.
Se de um lado a indústria se movimenta, criando produtos, na outra ponta as construtoras também começam a mudar procedimentos. Muitas criaram departamentos para desenvolver opções construtivas, em busca de tecnologia para reduzir o uso de mão-de-obra, otimizar o trabalho e ganhar qualidade. E a resposta quase sempre vem pelo caminho da industrialização.
| CONSTRUMETAL |
Sinal dos bons ventos que sopram sobre o setor da construção metálica, o congresso latino-americano Construmetal foi criado por entidades do setor para ser o ponto de encontro de negócios e troca de informação tecnológica. Realizado a cada dois anos em São Paulo desde 2004, é evento pioneiro no setor. E deu tão certo que, em sua terceira edição, entre os dias 9 e 11 de setembro de 2008, teve a presença dos principais profissionais que trabalham com estrutura metálica no país e de arquitetos que desenvolvem projetos com aço, além de especialistas dos Estados Unidos e Europa. Do outro lado da mesa, ouvindo as palestras que foram realizadas no Frei Caneca Convention Center, estavam engenheiros, arquitetos, projetistas e outros interessados no tema. “Arquitetos e engenheiros têm muito a contribuir, pois é deles que sairá a otimização da tecnologia do uso intensivo e qualitativo do aço na construção. Mas ainda falta ampliar o conhecimento técnico desses profissionais neste segmento”, afirma a engenheira Cátia Mac Cord, do CBCA. Para ela, o congresso é o espaço adequado para essa atualização tecnológica. Segundo Cátia, o crescimento do evento vem sendo impulsionado pela boa fase da construção civil. Em 2007, a venda de produtos para estruturas de aço cresceu 30% no Brasil, enquanto o consumo de todos os produtos siderúrgicos cresceu 19%. Para 2008, está previsto aumento de 15% a 20% em estruturas de aço e de 14% no consumo de produtos siderúrgicos. |
NOVOS PROJETOS
Apesar de a cultura do concreto ser mais forte no país, a tecnologia do aço mudou e o próprio consumidor também, na opinião de Christiane Haddad, engenheira civil com pós-graduação em estrutura metálica. Sua trajetória profissional é um exemplo dessas alterações. Christiane já passou por empresas que fizeram história no setor da construção metálica, como Pierre Saby, Confab, Intarco e Aço Minas, e este ano foi convidada para participar de um projeto da Frefer, produtora de chapas para a indústria automobilística que decidiu atuar na área da construção civil, associada à Souto Engenharia, fabricante de estruturas metálicas no Paraná. O investimento das duas empresas resultou na joint venture Structural System, que lançará seu primeiro produto no Congresso Latino-Americano da Construção Metálica (Construmetal). Trata-se de um sistema composto por terças treliçadas com encaixes para vencer vãos de até 40 metros, com peso muito baixo por metro quadrado. Outras empresas já comercializam sistemas semelhantes, mas a demanda do mercado atraiu a Frefer e a Souto para a fabricação desse produto destinado a coberturas leves. Para isso, estão sendo criadas duas linhas de produção - uma na fábrica reestruturada da Souto, em Ponta Grossa, e outra em uma segunda unidade, totalmente automatizada, em construção em Piracicaba, SP.
“O mercado mudou e a indústria também”, observa Christiane. Com a industrialização, a estrutura metálica ganha espaço e produtos, como os perfis laminados, que oferecem novas possibilidades construtivas. Hoje não é raro ver um prédio subindo com aço, assim como a construção de moradias populares com sistemas industrializados, entre eles as estruturas metálicas. “O que já acontecia em outros países começa a ocorrer aqui. É o caminho da industrialização e do avanço tecnológico da própria composição do aço, bem como de tintas e acabamentos”, observa a engenheira.
Cátia Mac Cord afirma que o maior crescimento do consumo de aço no país vem sendo registrado pela construção de indústrias. Mas há também certo otimismo na área habitacional, devido às medidas de incentivo adotadas pelo governo federal e à queda das taxas de juros, que tornou o financiamento imobiliário um produto mais atraente para os bancos. Também as ações previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) deverão compensar a ausência de grandes investimentos em infra-estrutura, setor responsável pelo grande consumo de aço.
SEM COMPETIÇÃO
Assim como outros materiais, o aço tem seus atributos: oferece excelente relação peso/resistência e desempenho mecânico, reduzindo a massa total da construção, de modo a torná-la quase 50% mais leve que aquela que utiliza materiais convencionais. A diminuição de massa tem impacto técnico e econômico sobre fundações, guindastes, manuseio e portabilidade, e também significa menos operações de transporte de materiais, causando menores perturbações no canteiro de obras (ruído, poeira, poluição por combustíveis etc.). Nesse sentido, vale destacar que o material permite, ainda, a reabilitação e a construção em áreas anteriormente consideradas ruins ou inadequadas para receber edificações convencionais.
Sob o aspecto da sustentabilidade ambiental também há vantagens na construção em aço. O material é 100% reciclável. Casas que optam pela construção metálica têm menor impacto negativo sobre o meio ambiente em termos de uso de energia, consumo de matérias-primas e geração de detritos. Além disso, observa Cátia, 200 metros quadrados de uma residência com estrutura de aço podem gerar apenas um metro cúbico de resíduos recicláveis durante a obra.
Mas a escolha do sistema construtivo não deve ser encarada como uma competição entre os diferentes tipos de estrutura, na opinião de Cátia. A decisão deve ser tomada de forma racional, com base nas características de cada obra, que, por sua vez, deve ser submetida à análise do maior número possível de aspectos representativos.
de Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 54 Setembro de 2008

