Aquecimento global

A indústria da construção civil está no topo da lista das atividades que causam maior impacto ao ambiente

Clima preocupa construção civil
Reunidos na sede do Sinduscon/SP, empresários da indústria da construção civil discutiram geração de resíduos, eliminação de desperdícios, uso de materiais com baixa pegada de carbono e eficiência energética das edificações. E decidiram entrar na luta para reduzir o impacto de suas atividades sobre o meio ambiente.

As severas alterações ambientais que ocorrem na Terra e acenam para um desastre ecológico nos próximos anos já não são mais assunto apenas de ativistas e da mídia. Há alguns anos, setores da política, da economia e da ciência mundial vêm se debruçando sobre a questão. “As mudanças climáticas geradas pela emissão de gás carbônico na atmosfera deixaram de ficar restritas aos debates acadêmicos. Já não se pode discutir se elas vão ou não acontecer, mas sim as providências que teremos de tomar para reduzir os efeitos do aquecimento global sobre o nosso planeta.” O alerta, que poderia ser de um ambientalista convicto, partiu do presidente do Sinduscon/SP, Sérgio Watanabe, e foi ouvido por cerca de 170 profissionais do setor, que participavam de seminário promovido pela entidade.

Nesse encontro não se tratou apenas da eficiência energética das edificações, mas de algo mais abrangente: o impacto que a implantação de um edifício causa desde a escolha do terreno até o seu uso, passando pela construção, especificação de materiais e geração de resíduos. “A construção civil terá que colocar em sua agenda as mudanças tanto no processo de concepção e implementação de edifícios, como no de operação. A era do desperdício se encerrou. Não podemos mais exercer práticas que não levem em conta a boa gestão dos recursos ambientais”, afirmou o ambientalista Fábio Feldmann, secretário executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e Biodiversidade. Para Feldmann acontecerão duas mudanças muito claras: uma é a tecnológica e a outra refere-se a repensar as atividades, até as mais usuais. A lista de transformações que a construção civil terá que enfrentar é, portanto, extensa. Sérgio Watanabe defende que as empresas do setor criem mecanismos que minimizem as emissões de gás de efeito estufa em toda a sua cadeia produtiva. “Entendemos que o uso racional da água, a eficiência energética das edificações, a utilização de madeira legal e de energia solar, a eliminação dos desperdícios, o correto gerenciamento dos resíduos e o emprego de materiais com baixa pegada de carbono são meios para enfrentar a ameaça das mudanças climáticas”, disse.

Inventário
Feldmann observou que o evento realizado no Sinduscon/SP tem grande relevância, porque a situação se agrava a cada dia. Ele afirmou que o último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (leia o quadro) - IPCC, na sigla em inglês - está sendo superado pela realidade, porque praticamente não previu a velocidade do degelo do Ártico e de parte da Antártida. “Isso significa que, de fato, o aquecimento global surge com mais intensidade do que se antevia há dois anos e coloca desafios muito grandes. É necessário, portanto, agir. Um dos campos de ação para quem trabalha com clima é a mitigação - temos que diminuir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera”, ele ponderou.

Por que fazer um inventário de emissões de gás de efeito estufa? “Pelo cenário traçado neste encontro não há dúvidas de que a ação é mais do que urgente”, afirmou Rachel Biderman, coordenadora adjunta do Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVCes), que, em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), organizou o evento. “A lição de casa número um das empresas é conhecer a pegada carbônica”, observou Rachel, que adiantou o lançamento do projeto Empresas pelo Clima pela FGV.

Watanabe concordou. “Precisamos ampliar nossa visão a respeito da questão ambiental, não a restringindo à busca de certificações ou ao plantio de árvores, para diminuir a pegada de carbono de nossa atividade produtiva. É necessário ir além e criar estímulos ao surgimento de uma nova cultura de sustentabilidade no setor da construção civil, mudando a forma de elaborar os projetos de edificações, o planejamento urbano, a habitação popular e a ampliação da infraestrutura em todo o nosso país”, disse. Durante o encontro, o presidente do Sinduscon/SP foi convidado pelo secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge, para integrar o Conselho Municipal de Mudanças Climáticas, que está passando por mudanças em sua estrutura - atualmente ele é composto apenas por membros do governo, mas passará a ser paritário, reunindo também representantes do empresariado.

Perfumaria ambiental
Para Eduardo Jorge, a crise socioambiental é estrutural e não será superada em menos de 50 anos porque acena para uma nova forma de viver. Mas, ainda que lentas, as mudanças começam a acontecer. “São Paulo tem dois aterros sanitários que fazem a captação de gás metano e já tem duas usinas termoelétricas que fornecem energia para cerca de 700 mil habitantes”, ele destacou. Concordou com ele o secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo, Francisco Graziano Neto. “As coisas estão acontecendo, mas é preciso separar aquilo que é perfumaria ambiental do que é investimento efetivo em produção mais limpa. Tivemos uma fase em que apenas os idealistas defendiam o meio ambiente. Hoje todos o fazem, incluindo os empresários. O conceito de baixa pegada de carbono começa a tomar corpo e a agenda ambiental vai ficar cada vez mais rigorosa”, observou Graziano.

A defesa do meio ambiente, de fato, já não está mais apenas no âmbito idealista. “Há 20 anos, quando eu falava em eficiência energética das edificações, era considerado louco; há uns dez anos, era um chato; e agora as coisas estão acontecendo. A questão da urgência é cada vez mais patente”, afirmou Roberto Lamberts, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisador do programa Procel- Edifica da Eletrobrás e um dos pioneiros no Brasil na pesquisa da eficiência energética dos edifícios - área que, segundo ele, experimentou grande impulso a partir de 2001, com a crise de energia no país. Foi assinada uma lei, que tramitava havia cerca de dez anos no Senado, dando um arcabouço que confere poder ao Estado para estabelecer índices mínimos de eficiência ou máximo de consumo, desde uma geladeira até as edificações.

No caso das construções, segundo Lamberts, a visão de futuro são prédios de energia zero - alta eficiência energética, geração local de energia e usuário altamente consciente. “A Europa já sinaliza prédios de energia zero como obrigatoriedade em 2018 e os Estados Unidos em 2030. Todo mundo está correndo, enquanto no Brasil ainda não vimos nada disso. Eventos como este são importantes para movimentar o setor e percebemos que há um grau de sintonia grande. É no Sinduscon que precisamos atuar”, concluiu o pesquisador.


Texto de Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 58 Setembro de 2009
A proposta do sinduscon/sp é buscar eficiência energética, eliminar desperdícios e gerenciar corretamente os resíduos
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Sérgio Watanabe: trabalhar em toda a cadeia produtiva
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Lamberts: crise de energia impulsionou legislação
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Em busca das pegadas de carbono
O mercado de carbono negociou no ano passado algo em torno de 100 milhões de dólares. E, se não fosse a crise econômica mundial, a expectativa para este ano era de cerca de 160 milhões de dólares. Esses dados foram apresentados aos empresários da construção civil por Shigueo Watanabe Jr., coordenador do Comitê de Ética e Normas da Associação das Empresas de Mercado de Carbono (Abemc). “Desses números vêm as primeiras tentativas de intensificação dessa coisa mágica chamada carbono”, ele observou. Como funciona esse mercado? “O carbono é a coisa mais virtual que eu já tive de negociar”, reconheceu Watanabe Jr. A síntese do mercado de carbono é que ele engloba uma nova gama de atividades orientadas para a estabilização e a redução da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. O termo pegada de carbono refere-se, exatamente, à medida do impacto das atividades humanas sobre as emissões desses gases. Está relacionado à quantidade de dióxido de carbono equivalente liberada na realização de cada atividade. O mercado de carbono permite que sejam procurados os mecanismos de menor custo para reduzir o efeito estufa. Na nova ordem mundial, que alia eficiência econômica à proteção ambiental, essa redução é chamada de mitigação. Criada no final de 2008 com a missão de promover e desenvolver o mercado de carbono no Brasil, a Abemc direciona seu foco para a legislação que vai regular esse mercado - há um espectro de 80 projetos de lei em Brasília. “Queremos interferir não apenas nas questões das mudanças climáticas, como da regulação de mercado. Há uma série de detalhes que não estão normatizados porque tudo é muito recente. A idéia é normatizar para que, quando falarmos de pegada de carbono, possamos, efetivamente, transmitir ao consumidor, ao mercado e às autoridades o que isso significa”, concluiu Watanabe Jr.


A indústria da construção civil está no topo da lista das atividades que causam maior impacto ao ambiente
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O que é o ipcc?
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) foi estabelecido pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (Unep), no final da década de 1980. As mudanças climáticas começavam a dar sinais de que algo muito sério estava ocorrendo no planeta e era necessário avaliar cuidadosamente a questão. O órgão não produz pesquisa científica, mas acompanha os mais importantes estudos que os cientistas vêm fazendo sobre as mudanças climáticas e organiza relatórios de avaliação, posteriormente publicados. Os relatórios do IPCC tornaram-se referência para os governos, os tomadores de decisões e a comunidade científica quando o assunto são as mudanças climáticas. O primeiro relatório da entidade foi divulgado em 1990. Sua base científica gerou o Protocolo de Kyoto, que, por sua vez, lançou as bases para a primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente - a Eco 92, realizada no Rio de Janeiro.