Ricardo Julião Arquitetura e Urbanismo
Centro de Desenvolvimento Esportivo da ADC Bradesco Esportes e Educação, Osasco, SP
- Detalhes
- 18 de Julho de 2011. Visitas: 7.043
O Centro de Desenvolvimento Esportivo da ADC Bradesco Esportes e Educação é um projeto social destinado a jovens atletas do sexo feminino. Ele concentra as modalidades vôlei e basquete e tem capacidade para atender diariamente até 500 meninas, com idades entre oito e 18 anos, selecionadas em escolas públicas da Grande São Paulo ou por olheiros que visitam clubes de todas as partes do país.
Aquelas que não são da região metropolitana passam a residir no próprio centro e a frequentar escolas da vizinhança. Moradoras ou não, todas recebem alimentação, assistência médica e odontológica, treinamento esportivo e formação profissional no esporte, além da orientação de especialistas como nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, médicos, professores de educação física e técnicos, entre outros.
Essa estrutura de apoio às atletas funciona em um edifício inaugurado em meados de 2010 e que em abril último tornou-se o primeiro empreendimento brasileiro da área esportiva a obter uma certificação Leed. Projetado por Ricardo Julião e construído em parceria entre Bradesco e prefeitura de Osasco, o centro custou 24 milhões de reais.
São quase 9 mil metros quadrados de área construída, num terreno em aclive com cerca de 10 mil metros quadrados. O prédio de três pavimentos abriga cinco quadras oficiais cobertas - uma delas com arquibancada para 250 pessoas -, vestiários, auditório, cozinha, restaurante, alojamentos com suítes para as residentes, salas de informática, de TV e de estudos e escritórios da administração.
Na área externa há ainda uma quadra de areia, piscina para lazer e tratamento fisioterápico das atletas e pista de cooper com 260 metros de extensão em meio a uma área verde de 2,2 mil metros quadrados.
A certificação obtida é a Leed New Construction (Leed NC) em nível Gold - no sistema de pontuação do Leed isso significa que o edifício alcançou entre 39 e 51 pontos no atendimento a requisitos que visam o consumo eficiente de energia elétrica e água, sustentabilidade na escolha de materiais e processos de obra e na garantia da qualidade ambiental no interior da edificação.
De acordo com Julião, uma construção sustentável só pode ser feita por uma equipe em que todos os envolvidos tenham essa meta em comum.
(foto: Ricardo Julião)
(foto: Egberto Nogueira)
“O arquiteto consciente já projeta de modo sustentável, o que depende mais de sua boa formação para lidar com essas questões. Mas, além disso, é necessário que o cliente ou o investidor esteja disposto a construir em acordo com tais aspectos. Também é essencial que o construtor tenha esse o objetivo, pois sempre que ele intervier na obra deverá considerar os elementos que o arquiteto levou em conta na hora de projetar”, ele avalia.
Consumo racional
Uma das questões fundamentais do projeto estava relacionada ao respeito à escala do entorno, uma região onde predominam residências e construções que abrigam pequeno comércio.
“Na área das quadras são 12 metros de pé-direito livre, conforme regras da federação de vôlei, e isso sem contar a cobertura e sua estrutura. Tínhamos o desafio de encontrar soluções que não criassem um monstro no meio do bairro”, explica o arquiteto.
O caminho escolhido foi enterrar parcialmente o edifício. “O terreno alto, firme e sem lençol freático era 100% compatível com essa ideia”, detalha Julião. Para evitar que a umidade da terra chegasse às áreas internas foram erguidas paredes duplas de concreto, a primeira delas impermeável, separadas por um colchão de ar.
As quadras cobertas estão enterradas em profundidades que variam de dois a quatro metros, conforme a inclinação do lote. Com essa formatação, foi possível diminuir significativamente o gabarito da edificação e eliminar a incidência solar nas paredes do nível de piso mais baixo.
Isso implicou redução da temperatura interna e contribuiu para eliminar a necessidade de sistema de ventilação artificial ou de condicionamento de ar. Ao mesmo tempo em que a construção é resguardada do excesso de calor, ela tem proteção contra o frio, decorrente do alinhamento norte-sul das quadras.
Embora esse tenha sido o único posicionamento possível, ele resultou em frentes nordeste e noroeste, o que evita a entrada direta de frio e umidade nos meses de inverno.
Ainda abaixo da cota da rua estão as amplas aberturas protegidas por venezianas industriais, que proporcionam ventilação cruzada constante. A grande cobertura defasada, feita com telhas metálicas termoacústicas, apresenta abertura zenital na faixa central, saída de ar quente e lanternim voltado para o norte, o que garante entrada de luz natural ao longo do dia, reduzindo os períodos em que a iluminação artificial é necessária.
Na área da administração, a densidade de potência é de 8 watts por metro quadrado, valor inferior à faixa de 15 a 20 watts por metro quadrado geralmente observada nos escritórios. O sistema de medição de energia é informatizado e faz o gerenciamento integrado do edifício como um todo.
Outra medida que ajudou a reduzir o consumo de energia elétrica foi a instalação de placas solares na cobertura a fim de aquecer a água da piscina, chuveiros, cozinha e alojamentos. “A maior dificuldade do aquecimento solar é manter a temperatura da água ao longo do dia e da noite. Na prática, sua vantagem é oferecer um diferencial, com água menos fria e que precisa de menos energia para aquecer até o ponto desejado”, esclarece Julião. Todos os sistemas foram testados antes de entrar em operação e o consumo de energia elétrica é gerenciado por software.
O consumo de água potável também teve redução significativa, de 44,7%, em comparação com o padrão norte-americano, devido ao uso de equipamentos economizadores certificados, como torneiras de fechamento automático, válvulas de descarga com duplo acionamento ou chuveiros de baixa vazão (mas que nem por isso dão a sensação de banho com pouca água).
A cobertura com quase 6 mil metros quadrados de área foi projetada para coletar 100% das águas pluviais. Estas são tratadas e armazenadas em uma caixa com capacidade para 120 mil litros e posteriormente reutilizadas no sistema de irrigação, na lavagem geral e nas descargas sanitárias, o que dispensa o emprego de água potável para essas finalidades. Outra caixa com capacidade para 120 mil litros armazena o excesso da água de chuva e contribui para evitar alagamentos na região. A medida manteve a vazão e o volume de águas lançadas na rede pública durante as chuvas em comparação com os volumes medidos no terreno antes da construção.
O projeto de arquitetura reservou 44,3% do lote para o paisagismo, o que corresponde a um acréscimo de 55,4% à área verde original. A opção pelo replantio de espécies nativas reduziu a necessidade de irrigação e colabora diretamente para o menor consumo de água.
Projeto certificado
A sustentabilidade do projeto passa também pela especificação de materiais. O arquiteto deu preferência a produtos com conteúdo reciclado (22%). “Eu gostaria de ter usado mais materiais desse tipo, mas na época o mercado não oferecia mais opções além das que foram empregadas”, destaca o arquiteto. Também foram privilegiados os materiais regionais, extraídos, manufaturados e beneficiados dentro de um raio de 800 quilômetros (44%) do canteiro de obras. “Tínhamos a intenção de usar telhas cerâmicas, o que teria elevado esse percentual, mas no fim acabou prevalecendo a opção pelas telhas metálicas termoacústicas”, detalha.
A escolha de itens como carpetes, tintas, selantes e vernizes tomou por critério o menor índice de emisão de compostos orgânicos voláteis (COVs). Mais de 96% da madeira utilizada na obra tem o selo Forest Stewardship Council (FSC) e 95% dos resíduos que normalmente seriam encaminhados para descarte foram usados em aterros de outras obras. O projeto também previu bicicletário com 27 vagas e infraestrutura para coleta seletiva de lixo. A consultoria de certificação ficou a cargo da CTE.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 376 Junho de 2011


