A história
dos escritórios de arquitetura começou
a mudar no final da década de 1980, quando os microcomputadores
passaram a tomar o lugar da confortável prancheta.
Claro, as máquinas dos primeiros tempos tinham
capacidade infinitamente menor e seu alto custo as tornava
quase um objeto de luxo, impensável para a maioria,
principalmente os autônomos e os pequenos escritórios.
No livro "Desenho
digital - Técnica e arte",
os arquitetos José Luís Menegotto e Tereza
Cristina Malveira de Araújo, sócios da Arquitetura
Digital
& Consultoria em Cadd, afirmam que, nessa época,
a falta de conhecimentos sobre a nova ferramenta foi outra
das principais dificuldades para a transposição
do desenho manual para o digital.
Assim surgiu a figura do “operador de máquina”,
profissional que domina perfeitamente determinado programa,
mas não é arquiteto. Embora sua presença
nos escritórios já não seja tão
comum, o operador deixou um legado negativo, contribuindo
para o esquecimento das convenções do desenho
técnico. |
|
A tecnologia evoluiu e, logo nos início
dos anos 90, o computador e uma grande variedade de
softwares para arquitetura já estavam em ritmo
frenético de atualização, com interfaces
mais amigáveis e preços mais acessíveis.
Esse conjunto de fatores consolidou a informática
como ferramenta de trabalho para a maioria dos arquitetos.
Hoje é difícil imaginar um projeto que
não tenha sido elaborado em computador.
Os arquitetos já dominam a ferramenta com
muito mais naturalidade, mas ainda há dificuldades
operacionais, decorrentes do conhecimento restrito sobre
as possibilidades que cada software oferece. “É
difícil tirar o profissional do escritório
para fazer um curso a cada vez que um programa é
atualizado”, diz Miriam Castanho, membro da Comissão
de Otimização e Padronização
de Informações em Cadd da Asbea
- Associação Brasileira dos Escritórios
de Arquitetura, professora de projeto do curso de arquitetura
da Universidade São Judas e arquiteta do escritório
Contier.
“O software é apenas uma ferramenta. A
maior preocupação do arquiteto deve ser
o projeto.
Por isso, os fabricantes deveriam concentrar seus esforços
não na venda no produto, mas no suporte, e oferecer,
por exemplo, curso no próprio escritório
e para todos os usuários a cada venda que realizam”,
diz o arquiteto Marcelo Westermann, integrante da mesma
comissão da Asbea, professor da FAU-USP, titular
das disciplinas de Autocad, Vector Works e 3D Max na
Fupam, e coordenador de qualidade do EGC Arquitetura.
As dificuldades operacionais revelam-se problema
maior quando um escritório interage com outros.
“Muitos profissionais não sabem aproveitar
as possibilidades dos layers ou da inserção
de dados na forma de arquivos referenciados - ou referências
externas, dependendo do programa. Bem utilizados, esses
recursos garantem que todos os profissionais envolvidos
tenham acesso sempre à versão mais atualizada
do projeto”, explica Miriam.
Westermann ressalta outra vantagem: evitar surpresas
nos canteiros de obras, depois de algum projetista
ter interferido na arquitetura sem o conhecimento do
arquiteto. “Quem quiser fazer alteração
terá de solicitá-la ao responsável,
exigência importante para definir a responsabilidade
civil de cada um no projeto”, ele diz. A forma correta
de trabalho é utilizar layers específicos
para cada item do projeto: arquitetura, estrutura,
elétrica e assim por diante. Dessa forma, todos
terão acesso à informação,
mas sem nenhuma interferência.
Quando se trabalha com um único layer de projetos
sobrepostos, é fácil modificar o original
e essas alterações passam despercebidas
até causarem problemas.
Outra dificuldade: a variedade
de denominações usadas para definir
cada elemento do projeto.
Se o mesmo item recebe diferentes nomes em cada escritório,
a comunicação entre os muitos profissionais
envolvidos fica prejudicada. Somam-se ainda os diversos
critérios de apresentação utilizados
por escritório e a variedade de programas em
uso, o que dificulta a compatibilização
e a integração dos trabalhos.
Em 2000, a Asbea iniciou um trabalho que visa
a padronizaçãode layers, diretórios,
arquivos e nomenclatura, além da definição
das responsabilidades em todas as atividades de projeto,
com base em modelos de normas norte-americanas, canadenses
e européias. O objetivo é, em médio
prazo, criar normas da ABNT.
Diversas entidades do setor e fabricantes de softwares
colaboram com a iniciativa, visando implantar as melhorias
entre seus associados e em seus produtos.
As primeiras definições para os diversos
projetistas já podem ser conhecidas no site
da Asbea: www.asbea.org.br.
“Basta entrar no site e pegar a informação.
A recomendação é que os associados
da Asbea já passem a trabalhar com esses novos
parâmetros”, diz Miriam.
Texto resumido de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 263 Janeiro 2002
|