Instalações esportivas
Para jogar, malhar e fazer amigos
O modo de vida da geração saúde passou a se difundir no Brasil ainda nos anos 1970, quando a prática do cooper tornou-se moda no país, a exemplo do que já acontecia nos Estados Unidos.

No início da década seguinte começaram a surgir as primeiras academias de ginástica e na mesma época as palavras light e diet passaram a fazer parte do vocabulário dos brasileiros. De lá para cá, o culto aos esportes, ao físico modelado e a preocupação com a saúde e a qualidade de vida vêm conquistando cada vez mais adeptos.
 

Nesse contexto, não é de estranhar a rápida multiplicação das edificações destinadas a atividades físicas. Porém, apesar do crescimento significativo, as instalações existentes ainda não dão conta da demanda. “Faltam quadras poliesportivas, espaços recreativos e centros de treinamento para atletas profissionais em todas as regiões do país, principalmente nas áreas mais carentes. Também falta a definição de políticas para o esporte, mas essa situação parece estar evoluindo”, entende o arquiteto Eduardo de Castro Mello, representante do Brasil na Associação Internacional de Instalações Esportivas e Recreativas (entidade que reúne profissionais especializados em instalações esportivas), vice-presidente do Panathlon Club São Paulo (órgão de defesa do esporte e da ética) e sócio do escritório Castro Mello Arquitetos, sucessor de Ícaro de Castro Mello Arquitetos Associados.

Um fator que pode incentivar o surgimento de novas instalações para a prática de esportes é a pretensão de os estados de São Paulo e Rio de Janeiro sediarem a Olimpíada de 2012, o que já motivou o concurso de idéias para a modernização do conjunto desportivo do Ibirapuera, afirma Mello. “Ainda serão necessárias outras instalações, capazes de atender às exigências de cada modalidade esportiva. Por exemplo, as federações de vôlei exigem, em jogos olímpicos, ginásios com ar condicionado e capacidade para 15 mil pessoas, e mesmo depois da reformulação, o Ibirapuera não terá condições de atender a essa demanda”, afirma ele.

Segundo a arquiteta Patrícia Totaro, responsável por diversos projetos no segmento esportivo, a principal dificuldade está na ausência de normas específicas, que considerem o tipo de uso da edificação. “As normas de ventilação não consideram o pé-direito do espaço e também não há orientação quanto às instalações de apoio, como quantidade de banheiros, por exemplo. Para trabalhar nessa área precisei buscar informações e exemplos fora do país. A pesquisa é a base da boa arquitetura”, completa.

Outra lacuna apontada pelos profissionais diz respeito a pesquisas que orientem sobre a demanda existente para cada prática esportiva. Isso envolve desde academias de ginástica até estádios de futebol. “A falta de dados faz com que esse seja um mercado difícil de trabalhar”, explica o arquiteto Sérgio Coelho, diretor do escritório G, CP Arquitetos. Apesar disso, diversos empreendimentos de perfil bastante diferenciado entre si foram inaugurados nos últimos meses em São Paulo.

Um deles é o Unysis Arena (leia mais), clube de tênis projetado pela G, CP Arquitetos. De porte e recursos inéditos no Brasil, ele soma 9 mil m2 de área construída e ocupa uma gleba de 32 mil m2 na marginal do rio Pinheiros, em São Paulo. Já estão em funcionamento 12 quadras de tênis, duas de paddle, restaurante e loja de artigos esportivos. Além de uma loja fast food, também está sendo construída uma compacta academia de ginástica, com sauna e hidromassagem, que funcionará no mesmo prédio das quadras fechadas. As quadras de tênis têm dimensões oficiais (18 m x 36 m, com 9 m livres acima da rede). Dentre as cobertas, cinco são de saibro e uma tem revestimento emborrachado no piso. Entre as descobertas essa relação é inversa.
A principal quadra, descoberta e com arquibancada para 2 500 pessoas, tem alto nível de iluminamento para permitir a transmissão das partidas por emissoras de TV: jogos recreativos exigem 300 lux na rede; competições pedem 500 lux; para transmissão televisiva, o mínimo é 700 lux.

Horizontal, o conjunto foi construído com estrutura treliçada formando vãos de 18 m. A cobertura instalada sobre a treliça é feita com telhas trapezoidais, uma camada de EPS e painel de aglomerado, onde foi colada uma manta de polímero flexível. Esse tipo de fechamento oferece conforto térmico, sem a necessidade de equipamentos para ventilação ou exaustão, e ainda possibilitou a criação da cobertura curva que dá impacto ao conjunto.

Outro empreendimento de perfil bastante diferenciado é a Academia Bio Ritmo, no centro velho de São Paulo. Ela ocupa um edifício geminado de nove andares cujas fachadas foram projetadas por Ramos de Azevedo no início do século 20.
Com 4.200 m2 de área total, o prédio foi reformado e adaptado ao novo uso mediante projeto de arquitetura de Patrícia Totaro, interiores de João Armentano, luminotécnica de Neide Senzi e paisagismo de Gilberto Elkis. As fachadas, tombadas pelo patrimônio histórico, foram restauradas pela Companhia de Restauro.

Instalado em região comercial onde o tráfego de automóveis é restrito, o edifício-academia também oferece cabeleireiros, lojas e alimentos naturais, concentrando diversos serviços no mesmo espaço.
O principal desafio para assegurar o sucesso do empreendimento estava em evitar nos usuários a sensação de confinamento, explica Armentano. Daí surgiu a proposta de criar o átrio central com jardim vertical e queda d’água que une os pavimentos do quarto andar para cima. Para assegurar luz natural, todas as janelas permanecem livres, exceto as dos vestiários, que são protegidas por persianas.

A distribuição leva o usuário diretamente ao 2º piso, onde ficam os vestiários. A escada de incêndio ganhou proporções mais generosas e sinalização bem elaborada para induzir o fluxo de pessoas. Para atrair novos clientes, uma das salas com bicicletas foi instalada no mezanino aberto para o lobby e dotada de recursos luminotécnicos e sonoros que estimulam o transeunte a entrar no prédio. Segundo Patrícia, o público de academia busca mais a convivência e o bem-estar do que os equipamentos oferecidos.
“É a academia substituindo o clube”, avalia. Por isso, ela defende a criação de espaços diferenciados para as mesmas atividades dentro de um único empreendimento.

“É importante prever áreas especiais para quem está começando ou para quem não consegue acompanhar as aulas no mesmo ritmo que os demais”, diz a arquiteta, também autora do projeto da Vertical Tennis, a primeira academia vertical de tênis do Brasil, inaugurada no final de 2002. Esse projeto reúne seis quadras em um edifício com cerca de 7 mil m2 de área construída. “Por causa das medidas oficiais das quadras, cada andar da academia corresponde a três de um prédio convencional. Mas o cálculo da estrutura prevê mais um andar ou a mudança de uso, permitindo a construção de três pavimentos onde hoje funciona o térreo”, explica Patrícia.

O projeto verticalizado surgiu porque as dimensões do terreno permitiriam a implantação de apenas três quadras, enquanto o objetivo do empreendedor era ter nove para tênis e duas para squash - cinco quadras serão construídas na segunda etapa de obras. O prédio tem estrutura metálica e fechamento com brises de PVC, o que proporciona ventilação constante e luminosidade difusa a fim de evitar sombras. Três quadras são de saibro e as outras têm piso com revestimento de borracha. Para jogos ou aulas noturnas, a iluminação utiliza lâmpadas de vapor metálico com 450 lux na rede.

Outra instalação esportiva de perfil diferenciado inaugurada em 2002 é o ginásio de ginástica olímpica do clube A Hebraica (leia mais), projetado pelos arquitetos Marcelo Barbosa e Jupira Corbucci. Com 800 m2 de área, o ginásio é provavelmente o único construído no Brasil especificamente para aquela modalidade esportiva. Ele foi planejado para treinos, mas como dispõe de todos os equipamentos e possui medidas oficiais, pode sediar competições. O prédio tem estrutura metálica, sheds que permitem a entrada de luz natural e fechamento lateral com venezianas de PVC que asseguram ventilação permanente.

Além das instalações abertas ao público, há as de uso restrito, que funcionam, por exemplo, em empresas e escolas, como a academia de ginástica da Faap-Fundação Armando Álvares Penteado, destinada apenas a alunos, professores e funcionários da instituição. Com reforma planejada pelo arquiteto Antônio Gomes Jr., ela foi reinaugurada em 2002 e ocupa um espaço predefinido pela direção da escola. Apesar da área reduzida (550 m2), oferece todos os equipamentos encontrados nas academias abertas. De acordo com Gomes, o projeto de uma academia de uso restrito se diferencia por permitir o pleno conhecimento dos usuários e da quantidade de equipamentos necessários.

O mercado também tem espaço para centros de treinamento, como o projetado pelo escritório Ícaro de Castro Mello para a Associação Atlética Bontenesco, em São Carlos-SP. Destinado ao treino de futebol, o centro terá campos com medidas oficiais, arquibancadas, alojamentos, hotel, piscina e centro de lazer, em 7.200 m2 de área construída.

Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 276 Fevereiro 2003

 
Vistas interna e externa do Unysis Arena,
complexo com 12 quadras de tênis
 
Montagem em perspectiva apresenta
vista área do conjunto Unysis Arena
 
 
Bio Ritmo, no centro de São Paulo: detalhe da fachada e sala
de spinning dotada de recursos luminotécnicos e sonoros
para incentivar os usuários e atrair novos clientes
 
 
A academia da Faap comporta todos os equipamentos
em área de 550 metros quadrados. Divisórias de vidro
ampliam visualmente o espaço
 
Perspectiva do Centro de Treinamento da Associação
Atlética Bontenesco, projeto de Ícaro de Castro Mello Arquitetos Associados
 
Ginásio da Hebraica, em SP:
instalações exclusivas para ginástica olímpica
 
 
Vistas externa e interna da Vertical Tennis,
primeira academia de tênis vertical do país
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