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Uma conceituação
atual e abrangente de arquitetura sustentável
é dada pela arquiteta Roberta Kronka Mülfarth,
do Labaut-Laboratório do Departamento de Tecnologia
da FAU-USP e professora da disciplina conforto ambiental
na Faculdade de Arquitetura da Uniban:
“É uma forma de promover a busca pela igualdade
social, valorização dos aspectos culturais,
maior eficiência econômica e menor impacto
ambiental nas soluções adotadas nas fases
de projeto, construção, utilização,
reutilização e reciclagem da edificação,
visando a distribuição eqüitativa
da matéria-prima e garantindo a competitividade
do homem e das cidades”, diz Roberta, que defendeu tese
de doutorado sobre arquitetura sustentável.
Segundo o arquiteto e professor Ualfrido Del Carlo,
pesquisador do Nutau-Núcleo de Pesquisa em Tecnologia
da Arquitetura e Urbanismo da USP e
ex-diretor (hoje aposentado) da FAU-USP, os conceitos
de sustentabilidade podem ser aplicados tanto em edificações
novas como em retrofits.
“É apenas uma questão de consciência,
pois é perfeitamente possível substituir
sistemas construtivos e materiais de acabamento não
recicláveis ou causadores de grande impacto ambiental
por outros, que não comprometam o meio ambiente
nem a saúde do ser humano que trabalhará
na obra ou usará a edificação”,
afirma.
De acordo com o professor, a lista de materiais substituíveis
é bastante extensa e inclui produtos como
cimento, concreto, derivados de petróleo, tintas
e vernizes insolúveis em água ou com grande
concentração de metal, para citar apenas
alguns exemplos. Dependendo do porte da obra, ele sugere
o uso de adobe e madeira de reflorestamento ou de áreas
manejadas.
“Aço e vidro, embora tenham muita energia
incorporada [energia usada na fabricação
do material], têm seu uso justificado pela
possibilidade de reciclagem”, complementa a arquiteta
Joana Gonçalves, professora do Departamento
de Tecnologia da Arquitetura da FAU-USP. Sua
colega, a arquiteta Daniela Corcuera, que prepara
o livro Edifícios de escritórios - O conceito
de sustentabilidade nos sistemas de vedação
externa, concorda. “A produção de alumínio,
por exemplo, requer 126 vezes mais energia que a de
madeira. Porém, quando se trata de um produto
100% de alumínio, a reciclagem é possível,
o que diminui o impacto causado.
O problema maior é quando ela não
acontece, como no caso dos painéis compostos
de alumínio (ACM), que agregam chapas do
material a outros elementos. A separação
consome tanta energia e tem custo tão elevado
que a reciclagem se torna financeiramente inviável”,
detalha. Para Daniela, uma das atribuições
do arquiteto é cobrar dos fornecedores informações
sobre cada material, para saber quanta energia ele requer
para sua produção, se é reciclável,
quanto gasta de energia para reciclar e qual é
o comportamento em termos de conforto ambiental. “A
UIA
- União Internacional de Arquitetos e o AIA
- American Institute of Architects (EUA) adotaram no
início da década de 1990 a Declaração
de Interdependência para um Futuro Sustentável,
documento que coloca a sustentabilidade social e ambiental
como ponto central da responsabilidade profissional
dos arquitetos”, ela afirma.
De acordo com Joana e Roberta, boa parte dos conceitos
da arquitetura sustentável está presente
nas aulas básicas de conforto ambiental,
que ensinam a considerar aspectos como insolação,
ventos dominantes, características do entorno
e uso dado à edificação antes de
definir posicionamento no lote, espessura das paredes,
dimensão das aberturas ou materiais que serão
empregados.
“O objetivo é explorar as formas passivas
de energia até a exaustão antes de
partir para as soluções de energia ativa”,
completa Daniela.
Um dos pontos destacados por Joana é a necessidade
de dar mais atenção ao desenvolvimento
das fachadas. “É comum prédios com
grandes superfícies de vidro onde as luzes permanecem
acesas durante o dia inteiro”, exemplifica.
O ideal, segundo ela, é procurar reduzir as
áreas de transparência para diminuir
a entrada de calor. Ao mesmo tempo, o aproveitamento
da iluminação natural deve ser maximizado.
As janelas altas, junto ao teto, ajudam a distribuir
melhor a luz - o resultado é ainda melhor quando
as superfícies internas apresentam cores claras
para difundir a luminosidade no ambiente. Há
outros recursos simples e eficientes para isso, como
brises ou bandejas de luz - espécie de
brise horizontal fixado no caixilho que se prolonga
para o interior dos espaços, direcionando a luz
para os pontos mais afastados das janelas.
Um erro comum é considerar apenas o sistema
de ar condicionado para o conforto térmico
no interior das edificações, opção
responsável por grandes demandas de energia
elétrica, e que ainda tem o inconveniente
de não promover a renovação do
ar, condição prejudicial à saúde
humana. Segundo Roberta, depende do arquiteto buscar
caminhos que eliminem ou pelo menos reduzam a necessidade
de usar recursos artificiais para o condicionamento
do ar. “A ventilação cruzada é
a solução natural e eficiente”, diz ela.
Para isso, é necessário prever aberturas
em paredes opostas ou justapostas, ou mesmo no teto,
forçando o fluxo de ar.
O dimensionamento da ventilação deve
considerar o volume do ambiente, a quantidade de pessoas
e a existência de equipamentos que geram calor,
como computadores e lâmpadas. Ainda com referência
às fachadas, as arquitetas alertam para a necessidade
de grande cuidado na especificação do
produto. “O vidro errado pode transformar o prédio
em uma caixa concentradora de calor”, avisa Joana.
A legislação interfere diretamente
na sustentabilidade da arquitetura. Segundo Roberta
e Joana, não há no Brasil a regulamentação
do desempenho que deve ter determinada edificação.
“Se houvesse limite de consumo de água
ou de energia por tipologia, teríamos projetos
mais bem resolvidos”, acredita Joana. “Não temos
sequer uma lei que preveja o K - coeficiente de transmissão
global, fator que indica quanto calor por metro quadrado
uma parede opaca pode deixar passar”, complementa Roberta.
A questão também é apontada por
Daniela. “Na Holanda e no Reino Unido já funciona
um código de obras que exige o estudo de viabilidade
ambiental de uma edificação, o qual,
por sua vez, determina quanta energia ela poderá
demandar. Além disso, a legislação
no Brasil permite falhas como lotes muito reduzidos,
o que implica menores recuos, maiores áreas impermeabilizadas,
grandes adensamentos ou edificações que
barram a passagem do vento, entre muitas outras situações”,
critica. Apesar da pouca ajuda encontrada nos códigos
de obras, o arquiteto que deseja projetar e construir
dentro dos princípios da arquitetura sustentável
pode buscar parâmetros nas normas ISO
14000 ou na Agenda Hábitat, documentos que
fornecem diretrizes para o desenvolvimento sustentável,
explica Daniela.
Atualmente existem diversos produtos e materiais
desenvolvidos de modo a preservar recursos naturais.
Os já conhecidos sensores de presença,
que apagam as luzes na ausência de pessoas, torneiras
com fechamento automático, lâmpadas e reatores
de baixo consumo são alguns deles.
Entre as novidades estão as surgidas em
decorrência das novas metas estabelecidas pelo
governo federal a partir do PBPQ-H-Programa Brasileiro
da Qualidade e Produtividade do Hábitat, que,
desde o início de 2003, limita a 6 litros
o consumo de água por descargas em bacias
sanitárias. Além da redução
obrigatória, algumas empresas já se adiantaram
e passaram a oferecer sistemas de descarga com dois
tipos de acionamento: um para dejetos líquidos,
que consome apenas três litros, e outro para dejetos
sólidos, que utiliza o limite de seis litros.
Há também uma nova válvula de
descarga com fechamento automático que impede
fluxos superiores a 6 litros, mesmo que o usuário
fique pressionando o botão.
Há também empresas que fornecem sistemas
construtivos com madeira proveniente do manejo de baixo
impacto ambiental. Eles são compostos por
peças de madeiras nobres, conectadas por elementos
metálicos e que admitem qualquer tipo de fechamento
e acabamento.
A construção civil também pode
contar com painéis estruturais do tipo OSB,
feitos com tiras de madeira cruzadas, que podem ser
usados para os mais diversos fins, exceto a confecção
de fôrmas para concreto. Eles foram desenvolvidos
para travar estruturas com perfis de madeira ou de aço
e são produzidos exclusivamente com pinus
de reflorestamento. Admitem acabamento com verniz,
lâminas de outras madeiras, laminado melamínico
e até mesmo cerâmicas, desde que fixadas
com argamassa colante (cimentcola).
Além dos materiais tradicionais, há uma
alternativa para a utilização de plásticos.
A novidade, chamada madeira sintética, foi desenvolvida
como sistema estrutural para casas populares ou cabines,
por exemplo. O plástico é moído
e moldado na forma de tijolos, que posteriormente
são encaixados como um brinquedo de armar. Suas
paredes duplas, intercaladas por um colchão de
ar, ajudam a controlar o aquecimento do interior. A
cobertura é feita com embalagens do tipo tetrapack.
Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 277 Março 2003.
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