|
O segredo da boa aplicação
está em um conjunto de fatores que envolvem a
correta especificação de todos
os componentes do sistema (cerâmica, argamassa
de assentamento e rejuntamento), base adequadamente
executada, bom projeto de assentamento, mão-de-obra
qualificada para o trabalho, supervisão
técnica permanente durante a fase de execução
e o atendimento às normas técnicas
referentes a todas as etapas do processo.
Segundo o engenheiro José Antônio Armani
Paschoal, gerente de projeto do CCB, as cerâmicas
para fachadas têm características especiais.
O ideal é dar preferência aos produtos
certificados, ensaiados conforme as normas ISO 10
545 e
13 006, que abrangem as metodologias de ensaio e
especificação, a fim de garantir que as
propriedades de fato correspondam às exigências
normativas. “Cerca de 60% do total produzido
no Brasil é certificado atualmente. Além
disso, diversas empresas estão em processo de
certificação”, completa o engenheiro.
Dois pontos que se referem à segurança
merecem atenção redobrada. O primeiro
é o índice de expansão por umidade,
que, segundo a
NBR 13 818, deve ser menor ou igual a seis milímetros
por metro. “Assim evitam-se a movimentação
e o destacamento das placas”, explica Vargas. O segundo
é o índice de absorção
de água, que influi diretamente na resistência
mecânica e ao congelamento. “Em áreas sujeitas
a frio intenso, esse índice deve ficar entre
0 e 3%; nas demais regiões do país pode
chegar a até 10%”, completa Paschoal.
A resistência mecânica também
é importante, uma vez que a ação
dos ventos pode romper a placa, causando seu destacamento.
As peças mais espessas são normalmente
mais resistentes à pressão do vento. “Já
existe na Europa um tipo de cerâmica com uma
tela em seu interior que funciona da mesma forma
que a película de butiral nos vidros laminados:
a placa pode se romper, mas os estilhaços não
se desprendem. Infelizmente, esse produto ainda não
existe no Brasil”, lamenta o engenheiro.
As placas ainda devem apresentar resistência
à gretagem e ao choque térmico, além
de resistência em grau médio ou elevado
ao ataque químico provocado por eventos
como poluição ou chuva ácida -
a escolha depende das condições a que
o revestimento estará exposto.
Na hora de especificar, o arquiteto também deve
estar atento à limpabilidade (índice
de resistência a manchas) da peça. Os produtos
das categorias 4 e 5 oferecem, respectivamente,
boa e máxima facilidade de remoção
de manchas e, por isso, são os únicos
indicados para aplicação externa.
Em fachadas não é necessário
ter índice de resistência à abrasão
(PEI) alto, o que se traduz em um produto de preço
acessível, bastante competitivo com outros
materiais de revestimento, como as massas texturizadas.
Assentamento seguro
O projeto de assentamento é primordial para a
segurança das fachadas revestidas por cerâmica.
Ele deve considerar juntas de movimentação
no máximo a cada três metros na horizontal
e seis na vertical, levando em conta ainda as interfaces
com elementos como vigas, caixilhos,
varandas ou outros materiais usados no revestimento.
A função dessas juntas é permitir
que os materiais trabalhem sem comprometer a estabilidade
do conjunto. O correto é que as juntas sejam
de mástique ou elastoméricas
arrematadas por selantes de poliuretano. “O silicone
não é recomendado porque absorve a água
da chuva, o que causa manchas na fachada”, adverte Paschoal.
A qualidade da base onde as placas serão
assentadas é outro ponto que merece cuidado.
Os especialistas recomendam que a base tenha traço
forte, passe por cura mínima de 21 dias
e apresente aspecto acamurçado. Superfícies
pintadas ou vitrificadas não devem receber revestimento
cerâmico.
Outros fatores ligados à etapa de execução
podem causar o destacamento das peças. “Cerca
de 75% dos problemas ocorrem por desrespeito
ou desconhecimento das normas”, afirma Vargas.
Entre os erros mais comuns estão o uso de argamassas
inadequadas, a aplicação incorreta dos
produtos ou o vencimento do tempo em aberto - prazo
para assentar a cerâmica depois de a argamassa
ter sido estendida na superfície.
O tamanho interfere diretamente na escolha do
sistema de fixação. “Placas com dimensões
superiores a 20 x 20 centímetros devem utilizar
inserts metálicos, como os usados em fachadas
de granito”, alerta Vargas. Somente as peças
com formato menor podem ser fixadas com argamassa.
Estas devem ter o tardoz (verso) em forma cônica
ou em rabo de andorinha, a fim de assegurar a melhor
adesão à argamassa.
A escolha desse item também requer atenção.
É possível utilizar as preparadas em
canteiro, desde que se tenha controle absoluto
do traço. Nesse caso, a responsabilidade
é da construtora. “Se as placas desprenderem
devido ao traço, ela deverá arcar com
os custos do retrabalho”, afirma Vargas.
Os especialistas recomendam o uso da argamassa industrializada
do tipo ACIII, observando-se atentamente as instruções
do fabricante. “Essa argamassa polimérica, um
adesivo químico, garante mais segurança
e, portanto, é a mais indicada para edifícios”,
afirma o engenheiro.
As do tipo ACI ou ACII são argamassas
cimentícias que penetram nos poros do tardoz
e fixam a cerâmica à superfície
por imbricação mecânica. Por segurança,
sua aplicação não é recomendada
em fachadas.
Exemplos de aplicação
A freqüência de uso das cerâmicas em
fachadas vem crescendo em todo o país, em especial
na
região Sul, onde a proximidade com as
indústrias tem contribuído para a difusão
do material. “Em áreas litorâneas,
o custo de manutenção da pintura aumenta
a taxa de condomínio, enquanto a conservação
da cerâmica é mais barata”, constata
o arquiteto Giovanni Bonetti, de Florianópolis.
Para ele, o material substitui a pintura com vantagens,
pois dá segurança contra infiltrações
nas junções com as esquadrias e ainda
protege a fachada das chuvas intensas ou da própria
umidade do ar.
Bonetti é autor do projeto do Hotel Ibis Florianópolis,
edifício de 12 pavimentos afastado da orla. O
prédio é revestido por cerâmica
de 7,5 x 7,5 centímetros nas cores branca, bege
e azul. Assentado com argamassa industrializada, o produto
é para uso específico em fachadas e apresenta
taxa de absorção de água inferior
a 3%, índice zero de expansão por
umidade, resistência a choque térmico e
a gretagem, entre outras características.
Também em São Paulo o uso do revestimento
cerâmico vem conquistando espaço. A Gafisa
construiu no bairro do Cambuci os condomínios
Reserva do Parque e Reserva do Bosque, cujos
apartamentos de dois e três dormitórios
estão avaliados entre 60 mil e 80 mil reais.
Um dos diferenciais do empreendimento está nas
fachadas revestidas por cerâmica. “Como a pintura
se deteriora muito rapidamente, optamos pela cerâmica,
que representa diferencial estético com
menor exigência de manutenção”,
detalha Antônio Fernando Guedes, gerente de incorporação
da Gafisa.
A empresa trabalhou com uma linha de cerâmica
desenvolvida especialmente para seus empreendimentos,
utilizada em todos os prédios, apenas com variações
nas cores. De acordo com as recomendações
do fabricante, as fachadas devem ser lavadas
a cada dois anos, quando se deve aplicar um produto
repelente à água no rejuntamento.
O escritório Dória, Lopes e Fiúza,
de Curitiba, também costuma especificar
revestimentos cerâmicos. Um dos exemplos mais
recentes é o do hipermercado Angeloni,
na capital paranaense. Sua fachada totaliza 2,2 mil
metros quadrados de vidro, alumínio e diferentes
cerâmicas, incluindo porcelanato.
Para diminuir a quantidade de juntas e dar efeito mais
monolítico ao grande volume em balanço,
os arquitetos optaram por peças de grande formato,
fixadas por inserts metálicos. Localizado em
região sujeita a poluição,
o conjunto tem se mostrado resistente, durável
e de fácil limpeza.
O escritório também assina o projeto do
Neumarkt Trade and Financial Center, edifício
comercial de 12 pavimentos em Blumenau, SC. O
prédio tem 13 mil metros quadrados de fachada
revestida por cerâmica extrudada de 25 x 4
centímetros, com aparência de tijolo aparente,
assentada com argamassa colante.
Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 278 Abril de 2003
|