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Particularmente
na construção de edifícios de
andares múltiplos, já é uma
realidade na indústria da construção
brasileira a transformação do canteiro
de obras em canteiro de montagem de sistemas construtivos.
Esse fato tem contribuído para a redução
significativa dos prazos de conclusão da obra
e de grande parte dos problemas gerados pela mão-de-obra
desqualificada e pela falta de controle do processo.
A viabilização do sistema construtivo
estruturado em aço, com freqüência,
tem sido vinculada à exigência de redução
significativa no prazo de construção e/ou
a problemas técnicos ou logísticos de
execução, introduzindo um número
maior de condicionantes ao projeto.
Além disso, com a possibilidade de diminuição
do tempo de execução da obra, tem
sido grande o interesse na redução do
prazo de desenvolvimento dos projetos, o que muitas
vezes tem resultado na execução simultânea
dos dois processos, projeto e execução.
Dessa forma, o uso da estrutura metálica
tem sido associado ao incremento do grau de complexidade
das atividades de projeto, principalmente de compatibilização
das soluções das diversas especialidades
envolvidas, bem como destas com o processo de produção.
Sistemas construtivos
Para obter sucesso na construção de um
edifício com estrutura metálica é
primordial que os sistemas construtivos sejam abordados
de forma sistêmica.
Eles devem ser compatíveis quanto a prazos,
logística de execução e
interface de ligação. Deve ser
predeterminado o grau de precisão construtiva
a ser permitida para cada sistema e estabelecidas tolerâncias
entre eles, dentro de uma coordenação
dimensional rigorosa e universal.
Já o critério de construtibilidade deve
abranger a facilidade de execução
das tarefas em canteiro, de fabricação,
de transporte e de montagem dos componentes industrializados.
No projeto de um edifício com estrutura metálica,
deve-se considerar, desde a fase de concepção
do partido arquitetônico, as tecnologias e as
exigências de manutenção. A mesma
importância deve ser dada ao detalhamento.
Ponto crítico
A compatibilização das soluções
é o ponto crítico do processo de desenvolvimento
dos projetos, sendo esta atividade o grande desafio
da equipe multidisciplinar.
São causas da grande iteratividade existente
no processo de projeto de edifícios estruturados
em aço e, conseqüentemente, de reestudo
de projetos, retrabalho, desperdício de material,
de capital e de tempo, se encaminhados de forma inadequada:
• o planejamento do processo de execução
depois de desenvolvido o projeto;
• o desenvolvimento dos projetos das diferentes
especialidades em paralelo e ao longo de fases definidas
em função do nível de detalhamento
e por marcos de início e fim;
• o desenvolvimento dos projetos para execução
somente de acordo com o cronograma de execução
da obra;
• a atribuição da responsabilidade
de verificação da viabilidade das soluções
somente às equipes de compatibilização
e de coordenação, sem a realização
do autocontrole, sendo verificada a viabilidade apenas
depois de executados os projetos.
O processo de projeto da estrutura metálica exige
que todas as informações que interferem
na solução estejam definidas antes
de seu início, caracterizando a exigência
do amadurecimento prematuro de outras especialidades
de projeto, as quais dependem de outros fatores.
A solução dessas especialidades, para
posterior solução da estrutura, não
resolve o problema, pois as decisões apresentam
interdependência.
Planejamento
Dessa forma, é importante que os sistemas construtivos
industrializados sejam definidos antes de se começar
o desenvolvimento dos projetos para a execução
- sempre que possível na fase de concepção
do partido arquitetônico - e que o planejamento
do processo de execução seja iniciado
tão logo se definam os sistemas construtivos
e as tecnologias.
Quanto ao planejamento, o processo de projeto deve ser
abordado como um processo de produção,
de acordo com os pré-requisitos definidos pelas
interfaces entre as especialidades de projeto e as necessidades
da logística de execução. Dentro
do processo de projeto, o planejamento pode ser subdividido
em duas fases consecutivas, planejamento estratégico
e planejamento gerencial.
No planejamento gerencial, estabelece-se o modelo
de desenvolvimento dos projetos de acordo com as características
de cada empreendimento, resultando em um plano das
atividades a serem desenvolvidas pelas especialidades
e na definição das relações
de interdependência existentes.
O mesmo não deve ser restrito à determinação
de cronogramas ou à definição
de fases de desenvolvimento ou do nível de detalhamento
do produto a ser entregue em cada fase. Seu cronograma
também não deve obedecer somente ao cronograma
de execução da obra e ao tempo necessário
para atendimento de exigências legais, mas à
ordem interna do processo de projeto, ao tempo
que o mesmo demanda, ao tempo necessário para
a aquisição de suprimentos, para a fabricação
e para o transporte dos componentes industrializados.
No planejamento estratégico, realizam-se
os estudos de viabilidade econômica e técnica
das soluções construtivas, resultando
em um conjunto de critérios técnicos
de projeto (CTP), utilizados como pré-requisitos
durante o desenvolvimento dos projetos. Já nessa
fase, deve-se iniciar a compatibilização
das soluções de projeto, a qual deve
continuar a ser realizada no nível de elaboração
dos projetos através do autocontrole.
Os critérios técnicos de projeto são
definidos a partir das condicionantes ambientais,
da finalidade da edificação, das necessidades,
exigências e expectativas dos clientes, das características
do ciclo de vida do empreendimento, dos regulamentos
e normas técnicas, das ciências das construções,
dos pré-requisitos definidos pelas interfaces
entre as especialidades de projeto, entre outros.
Esses critérios técnicos de projeto são
premissas iniciais para cada especialidade e atributos
para a avaliação das soluções
no nível do autocontrole (figura
1).
Os documentos que definem os critérios
técnicos de projeto devem ser entregues a cada
especialidade, para, assim, tornar o processo transparente
e reduzir as atividades de inspeção
e o número de reuniões de coordenação.
A determinação de critério técnico
de projeto é uma iniciativa possível,
uma vez que muitas das características das edificações
são definidas pelo mercado imobiliário,
pelas legislações, pelas exigências
dos clientes e pela competitividade entre construtoras.
Além disso, as restrições de prazo
já definem determinadas opções
para o sistema estrutural e sistemas de fechamento,
que podem ainda ser avaliadas quanto às restrições
técnicas e de logística.
Assim, cada empreendimento tem um conjunto de condicionantes
e requisitos que automaticamente delimitam um conjunto
de opções de solução, que
tendem a apresentar maiores chances de vir a ser viabilizadas.
E, definidos os sistemas construtivos, outros critérios
se estabelecem em função da definição
de soluções, como a integração
dos sistemas de serviço e estrutural, por exemplo.
Falhas no planejamento
A execução simultânea dos projetos
e da obra, o reduzido tempo disponível para execução
dos projetos, e a definição do modelo
de desenvolvimento dos projetos somente de acordo com
o cronograma da obra podem ser causas potenciais
de falhas no planejamento que podem trazer prejuízos
ao empreendimento, conforme os exemplos a seguir.
Ar condicionado x estrutura
metálica
Conforme planejado, a entrega final dos projetos executivos
de ar condicionado ocorreu cerca de cinco meses após
o início da montagem da estrutura. Mas como a
solução previa a integração
dos dois sistemas, todas as aberturas nas vigas para
a passagem dos dutos tiveram que ser executadas no canteiro
de obras, com a execução de reforços.
Além disso, ao longo do processo, muitas revisões
de projetos foram necessárias. Como os serviços
gerados não haviam sido previstos em contrato,
houve aditivos de contrato para o cliente (figura
2).
Paisagismo x estrutura metálica
Neste exemplo, o projeto executivo de paisagismo foi
feito depois de o projeto executivo de arquitetura já
ter sido entregue e a estrutura metálica da torre
estar sendo montada. Sua implantação tornou-se
inviável, pois exigiria a criação
de reforços estruturais e aditivos de contrato.
As sobrecargas referentes aos volumes de terra, consideradas
no dimensionamento das lajes e da estrutura de suporte
do térreo, conforme estudo preliminar, eram diferentes
das especificadas no projeto executivo. Se, no momento
de planejamento, critérios técnicos de
projeto tivessem sido definidos em função
da vida do empreendimento, esse problema poderia ser
evitado, através da prévia especificação
de sobrecargas que atendessem às exigências.
Definição de
critérios
Outro exemplo ilustra a importância do detalhe
para o projeto e como a definição de critérios
técnicos de projeto, antes de seu desenvolvimento,
pode evitar negligências. Ao longo do projeto,
definiu-se uma tolerância dimensional X entre
as colunas e os painéis arquitetônicos
(para a aplicação da proteção
passiva), considerando o uso de chapas horizontais para
ligação dos tramos das colunas de aço.
Durante o detalhamento do projeto estrutural, as chapas
de ligação foram projetadas e executadas
verticalmente (figura
3).
Como a espessura final desse elemento de ligação
su- perava a distância entre os dois sistemas,
tornou-se inviável a fixação dos
painéis conforme o projeto. Assim, durante a
obra, foi necessário mudar o detalhe de ligação
das colunas.
Já a antecipação do efetivo planejamento
da obra ao desenvolvimento dos projetos poderia evitar
problemas semelhantes aos relatados nos exemplos descritos
a seguir.
No dimensionamento estrutural do piso térreo
de um edifício, não foi estabelecida como
pré-requisito a capacidade de suportar cargas
provenientes do estacionamento de caminhões e
do estoque de componentes. Assim, durante a obra, foram
executados reforços estruturais, resultando em
aditivos de contrato.
Em outro exemplo, durante a montagem da estrutura metálica,
foi observado que componentes pré-fabricados
não poderiam ser instalados devido à posição
da grua em relação ao edifício.
Previamente, todas as vigas da fachada adjacente à
grua tiveram a altura reduzida para permitir a montagem,
mas não se atentou para a posição
da grua.
Com a alteração do acesso dos componentes,
o projeto estrutural teve que ser revisto, e vigas já
montadas foram substituídas por outras de menor
altura (figura
4).
Linguagem gráfica
Mas, além dos modelos de planejamento e de desenvolvimento
dos projetos, a linguagem gráfica também
tem influenciado na compatibilização.
Em linhas gerais, observa-se que essa linguagem não
tem atendido às necessidades do processo de projeto
de edifícios.
De maneira geral, é essencial que a construtora
e o arquiteto tenham domínio sobre a tecnologia
construtiva a ser empregada, como a estrutura metálica.
Da mesma forma, a equipe de projetos deve conhecer a
tecnologia e compreender sua linguagem de representação.
Tradicionalmente, no projeto da estrutura metálica,
com exceção do projeto de detalhamento
destinado à fabricação, os elementos
estruturais são representados por diagramas
unifilares, nomenclaturados, e seus dados, como
dimensões, são especificados em quadros
de perfis. As ligações entre os elementos
também são nomenclaturadas e especificadas
em quadros.
Além disso, muitas vezes, as colunas não
são nem nomenclaturadas, tendo que ser identificadas
através dos eixos referenciais e do nível
do pavimento, para ser possível a leitura de
suas dimensões em elevações desenhadas
unifilarmente.
Já os contraventamentos são indicados
na planta e somente identificados nos desenhos de elevação,
em geral representados unifilarmente. As características
dos perfis correspondentes costumam ser especificadas
também em quadros.
Em síntese, pode-se dizer que essa linguagem
atende adequadamente a indústria, mas não
é adequada para a atividade de uma equipe
de projetos.
Em construções pequenas ou que apresentam
número reduzido de tipos de peças, não
é difícil manipular essas informações.
Mas, no projeto de um edifício de grande porte,
que tende a ter grande variedade de peças, a
manipulação se torna improdutiva e algumas
vezes é causa de erros de compatibilização.
Dessa forma, é necessário que a forma
de representação gráfica seja adequada
às necessidades de cada projeto (figura
5). Nesse sentido, alguns projetistas
e fabricantes já iniciaram a adequação
de seus projetos: em planta, as vigas passaram a ser
representadas com suas dimensões reais, assim
como os elementos representados nos cortes e nas elevações.
Em raros casos, tem se verificado a descrição
das dimensões das vigas e das colunas (largura
x altura) junto aos respectivos elementos. Em outros,
as colunas de cada pavimento têm sido nomenclaturadas,
facilitando sua identificação, para posterior
leitura no quadro correspondente.
Com relação aos elementos de contraventamento,
a única mudança verificada foi a sua representação
nas elevações com suas dimensões
reais (figura
6). Mas, além disso, verifica-se
a necessidade da verdadeira representação
dos elementos de contraventamento (com a descrição
de suas dimensões) em planta, principalmente
quando estes apresentarem mesas mais largas que a viga
do vão, uma vez que existe grande dificuldade
na compatibilização desses elementos.
Mas, para reduzir as chances de erro durante a compatibilização,
outras medidas devem ser tomadas. Todas as especialidades
de projeto devem utilizar uma única unidade
de medida (milímetros, por exemplo). Deve-se
verificar se as vigas do projeto estrutural correspondem
a vigas de piso ou de teto do pavimento, considerando
que o projeto arquitetônico ou de ar condicionado
são compatibilizados com as vigas de teto.
Além disso, é ideal que a solução
estrutural seja apresentada à equipe multidisciplinar
em formato tridimensional, para ser compreendida
como um todo. Quando implementadas informações
para adequar o projeto às necessidades de clientes
internos, é preciso evitar que dados se sobreponham
no desenho eletrônico, mesmo com a possibilidade
de congelamento de layers de desenho, para que todas
as informações estejam sempre disponíveis
(figura
7).
Leitura dos projetos
A seguir há alguns exemplos de problemas causados
pela leitura incorreta dos projetos.
A desconsideração da variação
da seção das colunas entre diferentes
tramos resultou na locação de colunas
de um pavimento inferior com a mesma seção
das colunas dos tramos imediatamente superiores, de
seções menores.
Dessa forma, em vez de as colunas serem executadas com
a seção igual a 450 x 400 milímetros,
foi utilizada seção igual a 450 x 350
milímetros. Esta pequena diferença não
permitiu a montagem adequada dos painéis arquitetônicos
de concreto, obrigando o deslocamento de todo um
pano de fachada, em grande parte já montada.
Neste caso, a forma de representação das
informações referentes às colunas
e a falta das dimensões destas no mapa de vigas
(Figura 8) de cada pavimento do projeto estrutural
foram as causas potenciais da incompatibilidade.
Este outro exemplo ilustra a dificuldade da leitura
dos contraventamentos no projeto. Devido à dificuldade
encontrada pela equipe de compatibilização
em manipular as informações do projeto
estrutural em edifício de múltiplos andares,
somente durante a execução foi observado
que os perfis dos contraventamentos eram mais largos
que os perfis das vigas dos vãos correspondentes
e superavam também a largura das paredes.
Como resultado, foram necessárias revisões
e adaptações de projeto ao longo da
obra.
Artigo de Maristela Bauermann,
Antonio M. Claret e Ernani C. Araújo
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 35 Dezembro de 2003
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