| Nas últimas décadas, os conceitos
de construção de fachadas passaram por verdadeira revolução
tecnológica, proporcionando a concepção de envoltórios
envidraçados e transparentes. São propostas que mostram como a indústria
da construção responde tecnicamente às solicitações
cada vez mais criativas dos projetos arquitetônicos. Pele
de vidro, structural glazing e, mais recentemente, os módulos unitizados
e a fachada suspensa expressam a evolução tecnológica dos
sistemas de fechamento das edificações, mais acentuadamente
nos últimos dez anos. O detalhamento técnico da fachada idealizada
pelo arquiteto, projetada pelo consultor e executada pelo fabricante de esquadrias
faz parte do conjunto de informações que Finestra passou
a fornecer para seus leitores, desde as primeiras edições. Ao longo
desse período, sedimentou-se uma linha editorial pautada pela divulgação
das inovações tecnológicas, pela defesa da qualidade e das
normas técnicas. Exatamente por sua abordagem diferenciada dos
projetos arquitetônicos, a revista passou a divulgar para o mercado
terminologias que começaram a ser utilizadas nas últimas décadas,
no ambiente restrito de consultores e fabricantes de esquadrias. Muitos
termos, hoje incorporados ao vocabulário do setor, originam-se de nomes
utilizados em sistemas norte-americanos e europeus, que aportaram no Brasil após
a abertura do mercado nacional para as importações, na década
de 1990. Mostramos, a seguir, um resumo conceitual dos sistemas que revolucionaram
os projetos de fachada no mercado brasileiro e obras consideradas inovadoras na
época em que foram concebidas. A coluna no lado
interno Desenvolvida com o objetivo de reduzir a visibilidade dos perfis
de alumínio na fachada do edifício, a pele de vidro constituiu,
na década de 1970, uma resposta da indústria às solicitações
do mercado. Nesse tipo de sistema, as colunas são fixadas nas vigas pelo
lado interno, enquanto o vidro permanece encaixilhado. Com
isso, a fachada passa a destacar mais os painéis de vidro, apesar de manter
a marcação de linhas horizontais e verticais da caixilharia.
A diferença entre esse sistema e o utilizado para a fachada-cortina
convencional é que esta tem as colunas estruturais fixadas pela face
externa, diretamente em cada frente de viga, marcando de forma muito acentuada
as linhas verticais. A primeira obra executada com pele de vidro foi desenvolvida
pela Ajax, no final da década de 1970, para o Centro Cândido Mendes,
no Rio de Janeiro. A evolução desse sistema ocorreu a partir da
década de 1980, quando o structural glazing veio atender à solicitação
dos arquitetos no sentido de que as fachadas eliminassem definitivamente a visualização
do alumínio. O vidro começa a ser colado O sistema
structural glazing é um tipo de fachada-cortina em que o vidro é
colado com silicone nos perfis dos quadros de alumínio, ficando a estrutura
oculta, na face interna. O selante torna-se elemento estrutural, aderindo aos
suportes e transferindo à estrutura metálica as cargas aplicadas
sobre a fachada. Também assegura estanqueidade, e sua elasticidade permite
a dilatação e a contração do vidro, sem conseqüências
negativas. Miami foi o pólo gerador dessa tecnologia, que chegou
ao Brasil com a obra da sede do Citibank na avenida Paulista, em São Paulo,
projeto do escritório Croce, Aflalo & Gasperini, concluído em
1986. Com a aplicação do structural glazing, as fachadas
tornaram-se transparentes, com o vidro como elemento definidor da estética.
Mesmo sendo apontado como uma das grandes evoluções da tecnologia
nas últimas décadas, esse sistema não contava, inicialmente,
com vidros que atendessem às exigências de conforto térmico.
Por isso, algumas edificações mais antigas carregam o ônus
de manter equipamentos de ar condicionado caros e altamente consumidores de energia.
Hoje, entretanto, o mercado dispõe de novas gerações de vidros,
que geram elevados índices de sombreamento, conforto ambiental e economia
no condicionamento do ar. Outra questão que vem sendo estudada
é a aderência do silicone estrutural a perfis de alumínio
com pintura eletrostática. No início de 2004 tornou-se público
o caso de obras em São Paulo que apresentavam descolamento de vidros. O
problema, que passou a ser discutido no âmbito da Afeal, atraiu a atenção
de extrusores, consultores, fabricantes de silicones e de esquadrias.
Ainda não existem normas técnicas brasileiras para
o sistema structural glazing, segundo Nelson Kost, consultor técnico da
Afeal. Atualmente, vêm sendo discutidos os parâmetros para elaboração
de normas para colagem de painéis de vidro, granito e alumínio composto,
mas sem previsão de conclusão. Entretanto, os fabricantes alertam
que, em qualquer projeto, a aderência do silicone ao substrato deve
ser testada em laboratório. Além disso, todos os acessórios
utilizados nesse tipo de fachada devem ser compatíveis com o selante, quando
em contato com ele. Caso contrário, este poderá apresentar perda
da capacidade adesiva, com o conseqüente descolamento do painel.
Uma das soluções que podem conferir segurança quanto
ao risco de queda é a utilização de sistema misto. Este
permite a colagem dos painéis de vidro em dois lados (na vertical), ficando
os outros dois encaixilhados. Um exemplo é a obra do Corporate Financial
Center, em Brasília (Finestra 4), do escritório Fittipaldi Arquitetura,
que utilizou o sistema desenvolvido pela YKK. Rumo à industrialização
A mais recente evolução dos sistemas de fachada são
os módulos unitizados, que chegaram ao país no final da década
de 1990. Segundo Antônio B. Cardoso, consultor da AC&D Consultoria
em Alumínio, o conceito foi desenvolvido por projetistas norte-americanos,
consistindo, basicamente, em unir os vários elementos - gaxetas, borrachas,
acessórios e vidros - em um módulo produzido na fábrica.
O edifício Berrini 500 (Finestra 23), construído em São
Paulo a partir de projeto do arquiteto Ruy Ohtake, foi o primeiro a utilizar
o sistema de módulos, com caixilhos entre vãos, projetado
pela empresa norte-americana Kawneer. Depois, veio a obra do BankBoston (Finestra
29), concluída em 2002, também em São Paulo, projeto
do grupo SOM e do Escritório Técnico Júlio Neves, que utilizou
o sistema de fachada-cortina com módulos unitizados. Entre as obras mais
recentes estão o edifício Comendador Yerchanik Kissajikian (Finestra
34), na avenida Paulista, e a Torre Almirante (Finestra 40), projeto de Pontual
Arquitetura e Roberto Stern, concluído no final de 2004, no Rio de Janeiro.
No sistema unitizado, a coluna é dividida em duas partes e, conseqüentemente,
a esquadria configura-se em módulos. “A vantagem é
que o vidro é colado com silicone estrutural na própria estrutura
da esquadria, gerando, automaticamente, dois ganhos de custo: no volume de alumínio
utilizado e na mão-de-obra necessária, pois é dispensada
a etapa de requadração, que corresponde ao recebimento do vidro
colado”, afirma Cardoso. O processo de instalação também
diferencia este sistema: a montagem dos módulos é feita pelo lado
interno do edifício. Atualmente, os principais fabricantes do
setor já oferecem ao mercado o sistema unitizado com módulos entre
vãos e para fachadas-cortina. Os sistemas unitizados aplicados no
Brasil são de várias origens: a Alcoa utiliza engenharia da norte-americana
Kawneer; a Hydro, da alemã Wicona e da Technal; e a Schüco trouxe
a tecnologia desenvolvida pela empresa na Alemanha. Os vidros ficam suspensos
Vidros sem caixilhos e sem silicone estrutural para fixação
podem compor uma elevação extremamente transparente e esteticamente
leve, com a utilização do sistema de fachada suspensa.
Este tem como conceito básico o mecanismo de fixação, que
cumpre o papel de sustentar pontualmente os painéis de vidro e transmitir
as solicitações de peso próprio e de cargas de vento à
estrutura portante. O envidraçamento estrutural utiliza vidro parafusado
suspenso e fixado por aranhas e rótulas, que podem ter uma, duas,
três ou quatro hastes, fixadas a uma estrutura portante. A rótula
é um dispositivo especial que permite a livre flexão do vidro,
quando submetido a cargas de vento. Os elementos de fixação
dos vidros podem ser sustentados por diversos tipos de estrutura metálica
- de perfis tubulares a levíssimos cabos de aço. Ou então
elementos verticais de vidro laminado, que fazem o sistema de contraventamento,
solução amplamente utilizada em países europeus. Quanto mais
delgada a estrutura, maior será a transparência obtida para
a fachada. O edifício do Centro Brasileiro Britânico (Finestra 20),
em São Paulo, projeto do escritório Botti Rubin, foi a primeira
obra a utilizar o sistema, que passou a ser especificado para fachadas de pequenas
dimensões. Energia elétrica que vem do Sol No Brasil,
a indústria da construção civil ainda não absorveu
o sistema. Mas na Europa, onde a escassez de energia elétrica vem se tornando
cada vez mais preocupante, a fachada fotovoltaica está entre as
soluções utilizadas para ganhos em eficiência energética
e altíssimo desempenho ambiental das edificações. Basicamente,
o sistema capta a energia solar e a transforma elétrica, que, por
sua vez, é armazenada em baterias (Finestra 21 e 26). As
células fotovoltaicas - responsáveis pela captação
e transformação da energia - são pequenas lâminas
que podem ser instaladas em vidros simples, laminados ou duplos, utilizados
em fachadas ou coberturas. Cada painel de vidro pode abrigar diversas células,
ligadas entre si. Fios instalados no interior dos perfis de alumínio
conduzem a energia elétrica de um painel para outro, sucessivamente,
até as baterias de armazenamento. Alguns países da Europa,
como a Alemanha e a Espanha, já dispõem de legislação
que beneficia as edificações usuárias do sistema fotovoltaico.
Basicamente, compra-se do consumidor a energia excedente produzida pelo sistema.
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 41 Maio de 2005 |