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Este Guia de Produtos, o primeiro
publicado por PROJETO DESIGN, foi criado para auxiliar o profissional na especificação
de seus trabalhos. O tema escolhido foram as cadeiras e poltronas para escritórios
e auditórios. A reportagem sobre ergonomia esclarece quais os elementos
necessários para avaliar um bom produto e os possíveis riscos à
saúde que uma peça inadequada pode trazer ao usuário.
A
preocupação com a postura e com a qualidade dos equipamentos
no trabalho começou a ganhar força na década de 1980,
quando teve início a informatização dos escritórios.
Desde então, os distúrbios osteomusculares relacionados ao
trabalho (Dort) - nova denominação das lesões por esforços
repetitivos (LER) - passaram a afetar cada vez mais pessoas.
De acordo
com dados do Instituto Nacional de Prevenção às LER/Dort,
associação sem fins lucrativos que mantém o Programa Nacional
de Prevenção às LER/Dort, essas patologias são
a segunda causa mais freqüente de afastamento de profissionais no Brasil.
A entidade informa ainda que, de cada cem trabalhadores da Região Sudeste,
um é portador de Dort.
De acordo com pesquisa realizada
em 2001 pelo DataFolha, 14% dos entrevistados haviam sido diagnosticados por médicos
como portadores desses males, o que equivalia a um universo de 310 mil pessoas
na cidade de São Paulo. Os mais atingidos por esses distúrbios
são profissionais do comércio e de serviços, como bancários,
digitadores, atendentes de telemarketing, secretárias e jornalistas, a
maior parte deles na faixa dos 30 aos 40 anos.
De acordo com estudo feito
para a associação pelo economista José Pastore, da Universidade
de São Paulo, no primeiro ano de afastamento de um funcionário,
as empresas gastam em média 89 mil reais com encargos sociais e com o salário
de seu substituto. Somados, os custos patronais com o afastamento por doenças
ocupacionais no Brasil representam cerca de 12,5 bilhões de reais/ano,
fora outros 20 bilhões de reais anuais para pagamento de aposentadorias,
indenizações e tratamento médico. Esses números mostram
que é melhor, e mais barato, investir na prevenção e na melhoria
das condições de trabalho, aí inclusos mobiliário
e acessórios adequados à atividade. Sentar é
uma posição antifisiológica que provoca grande pressão
no disco intervertebral. “Quando estamos sentados, a pressão é
50% maior do que quando estamos em pé. Por isso ninguém consegue
permanecer muito tempo sentado na mesma posição”, detalha Wasni
Esqueisaro Júnior, professor de ergonomia, médico do trabalho e
diretor da WES Ergonomia e Saúde Ocupacional, sediada em Santo André,
SP. Segundo Esqueisaro, as cadeiras com melhores qualidades ergonômicas
permitem a alternância postural e ao mesmo tempo são capazes de evitar
o desconforto da posição por períodos mais longos; as inadequadas
induzem a posturas erradas, que podem desencadear problemas na coluna lombar
e cervical e nos membros superiores (ombros, cotovelos e punhos), além
de causar deficiências circulatórias nos membros inferiores.
“Beleza
não é sinônimo de conforto ou boa ergonomia e isso vale
para cadeiras, superfícies de trabalho e outros itens de mobiliário”,
ressalta Esqueisaro. Esse alerta também é feito por Clovis Bucich,
professor das disciplinas de projeto e avaliação ergonômica
de produto do Departamento de Engenharia Industrial da UFRJ e coordenador da comissão
de estudos sobre normas de mobiliário da Associação Brasileira
de Normas Técnicas (ABNT). “Não adianta se encantar com a cor ou
com modelos bonitos.
Ao especificar mobiliário, arquitetos e compradores
devem observar aspectos ergonômicos, econômicos e estéticos.
Para isso precisam buscar apoio na literatura e nas universidades que dispõem
de laboratório de ergonomia, ou ainda nos serviços de apoio oferecidos
pelos principais fabricantes de móveis”, ele explica. Existe
falta de informação generalizada, ressalta Esqueisaro. “Com
a minha experiência profissional, digo que somente as empresas de grande
porte têm mobiliário de padrão correto. Na outras, mais de
80% do mobiliário em uso é inadequado. Além disso, metade
do que está disponível no mercado não atende aspectos ergonômicos
e de conforto”, ele afirma. Características
da boa cadeira A principal qualidade da boa cadeira é ser
apropriada à atividade que o usuário desenvolve no dia-a-dia. As
cadeiras de escritório para funções que exigem o uso constante
do computador devem ser invariavelmente estofadas. Quanto maior a densidade
da espuma, maior será a durabilidade do móvel; as laminadas,
por sua vez, têm vida útil curta e não resistem ao uso diário
por mais de um ano.
A espuma ideal tem densidade entre 45 e 65,
dependendo da qualidade do material, do design, da largura e da espessura do assento
e do encosto. Segundo Bucich, as regulagens obrigatórias envolvem
a altura do assento e a posição do apoio lombar no encosto; porém,
quanto mais regulagens o modelo oferece, mais facilmente ele se adapta aos diferentes
usuários.
É importante que o assento seja liso e
tenha pequena inclinação para trás; também deve ter
dimensões adequadas para acomodar nádegas e coxas, deixando somente
as dobras do joelho para fora. As bordas do assento requerem acabamento arredondado
para não comprometer a circulação sangüínea dos
membros inferiores. Esqueisaro acrescenta que as cadeiras para as funções
que implicam o uso constante de computador devem apresentar também encosto
dorsal mediano e levemente côncavo, acompanhando a curvatura do dorso no
sentido horizontal - os encostos acentuadamente côncavos e os planos são
desconfortáveis. Elas devem ter cinco sapatas para garantir estabilidade.
Os rodízios não podem, em hipótese alguma,
ter seu movimento dificultado pelo piso. Por sua vez, o encosto ideal oferece
ajuste de altura e a possibilidade de pequena inclinação para trás,
recurso que ajuda na correta alternância postural. O apoio para os braços
é desaconselhável, pois muitas vezes restringe a aproximação
entre a cadeira e a mesa, obrigando o usuário a assumir posturas incorretas.
Caso esse item esteja previsto, convém que ele tenha altura e largura reguláveis,
para se adaptar a usuários mais altos ou mais obesos, lembra Bucich.
Nas funções em que o uso do computador é eventual,
é admissível um mobiliário de concepção diferente.
O encosto pode ser mais alto e a inclinação abranger o conjunto
encosto-assento, de modo que a cadeira acompanhe os movimentos do usuário
sem comprometer a postura correta. Neste caso, é ideal que a cadeira tenha
braços, mas eles devem permitir ajustes de altura e largura.
Uso da cadeira Quando o problema do mobiliário inadequado
é superado, surge outra questão: o desconhecimento sobre a postura
correta para uso do móvel e sobre as possibilidades de regulagem que oferece.
O ideal é que o funcionário seja treinado para usar o mobiliário
e tenha em seu poder o manual de instruções, para consultá-lo.
Segundo Esqueisaro, o certo é apoiar a nádega no
assento e os pés no chão ou em apoio próprio para esse fim.
Para uso do computador, a região dorsal do cotovelo para cima deve ser
apoiada em encosto com regulagem de altura e inclinação para trás,
formando um ângulo de aproximadamente 100 graus entre o encosto e o assento.
O conjunto cadeira e mesa deve permitir que braço e antebraço
formem ângulo de 90 graus durante a digitação. O
diretor também alerta que exercícios posturais para o relaxamento
de braço e pescoço durante o expediente não surtem efeito
se a cadeira é ruim. Outro cuidado importante é orientar
o funcionário a levantar e fazer uma pequena caminhada a cada uma hora
de trabalho. “Basta ir até o banheiro e voltar. Quem fica muito sentado
tem mais deficiências do retorno venoso, o que causa o surgimento
de mais varizes e mais precocemente”, detalha Esqueisaro. Quando o funcionário
processa a empresa devido a uma doença ocupacional, as condições
de trabalho são verificadas por peritos. Se confirmada a inadequabilidade
do mobiliário, a responsabilidade legal cabe à empresa. E esta pode
processar o profissional que especificou os móveis como co-responsável.
Auditórios e escolas O auditório
é um local de curta permanência, mas isso não significa que
qualquer tipo de assento possa ser empregado. Segundo Bucich, as normas que regem
as especificações das cadeiras de escritórios aplicam-se
também àquele espaço. A norma em vigor é a NBR
13 962/2002 (Móveis para Escritórios - Cadeiras), que abrange
características físicas e dimensionais do móvel, além
de estabilidade, resistência e durabilidade. Ela substitui as antigas NBRs
14 110/1998 e 13 962/1997. De acordo com Esqueisaro, as cadeiras para
auditórios devem ser do tipo poltrona, estofadas, encosto côncavo
até a altura dorsal e com assento liso que pode ser levemente inclinado
para trás; os apoios para os braços devem ser planos e longos, preferencialmente
com altura regulável. O mobiliário escolar é
regido pela NBR 14 006/2003 (Móveis Escolares - Assentos e Mesas para Conjunto
Aluno de Instituições Educacionais), que está prestes a ser
revista. Segundo Bucich, essa norma estabelece a classificação dos
móveis em faixas de estatura da população, a fim de contemplar
de crianças a adultos de variados portes físicos. Ela abrange características
físicas e dimensionais, e ensaios de resistência, estabilidade e
durabilidade para os conjuntos de cadeira-carteira, adotado pelo ensino fundamental
público. Pela norma, o tampo deve ser frontal para atender crianças
destras ou canhotas. Segundo o engenheiro mecânico Mário
Leoni, pesquisador do laboratório de ensaio de móveis do Instituto
de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo, desde março de 2005
está em vigor o novo Regulamento de Avaliação da Conformidade
(RAC) para Mesa e Cadeira do Conjunto Aluno do Ensino Fundamental, publicado pelo
Inmetro, que tem força de lei. Esse documento substitui o antigo Regulamento
Técnico da Qualidade (RTQ), cancelado em 2004, e determina que o mobiliário
escolar siga as exigências da NBR 14 006 e de outras normas técnicas
referentes ao processo de fabricação. O RAC relaciona até
os requisitos que os laboratórios de ensaios técnicos precisam ter
para poder atestar o selo de conformidade conferido por diversas organizações
certificadoras de produtos, explica o pesquisador. As normas
existem, mas são bastante deficientes, afirma Esqueisaro. “O mercado é
dinâmico, as inovações são diárias e as normas
técnicas levam anos para mudar”, ele aponta. Em sua opinião, até
mesmo as cadeiras escolares deveriam ser estofadas, porém a regulamentação
não faz essa exigência. “O mobiliário escolar mal concebido
pode levar a vícios posturais ou mesmo alterações músculo-esqueléticas,
como a escoliose”, lembra ele.
Outras características desejáveis
para o conjunto carteira escolar são o tampo frontal móvel, o que
facilita o movimento do aluno, e o encosto mediano, côncavo e com regulagem
de altura. “A cadeira escolar de melhor qualidade envolve custos e por isso nem
mesmo as escolas particulares oferecem o móvel adequado”, observa
o professor de ergonomia. As carteiras com pranchetas móveis custam aproximadamente
o dobro dos modelos com prancheta fixa. Texto
resumido a partir de reportagem de Nanci Corbioli Publicada originalmente
em PROJETODESIGN Edição 304 Junho de 2005 |