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De Norte a Sul do país faltam
espaços planejados para o esporte,
desde quadras em escolas até clubes, ginásios, estádios
e centros de treinamento para atletas profissionais.
“Isso acontece porque não há política de esportes
no Brasil, o que pode ser comprovado pelo pequeno
número de medalhas que conquistamos na recente Olimpíada
de Sydney”, afirma Eduardo de Castro Mello, sócio
no escritório Ícaro de Castro Mello Arquitetos Associados.
O arquiteto é também vice-presidente do
Panathlon Club São Paulo, entidade de defesa do esporte
e da ética, e representante do Brasil na Associação
Internacional de Instalações Esportivas e Recreativas
(IAKS), que congrega profissionais de todo o mundo especializados
em instalações esportivas.
Segundo Castro Mello, independentemente do porte e do
tipo do empreendimento, a boa arquitetura esportiva
é aquela que modela o espaço considerando todas as particularidades.
Pode parecer óbvio, mas não é. “Há centros de treinamento
de natação no Sul do país em que a piscina aquecida
fica a céu aberto e muito distante dos vestiários, sujeitando
os nadadores a todos os riscos de uma inversão térmica”,
exemplifica. Para evitar esse tipo de situação, Cláudio
Cianciarullo, sócio de Castro Mello, lembra que, além
de considerar o programa apresentado pelo cliente
e todas as normas para instalações esportivas, é fundamental
ouvir os usuários das instalações - atletas, professores
de educação física, técnicos e dirigentes esportivos
-, a fim de conhecer suas necessidades e expectativas.
“O profissional também deve buscar exemplos em
edificações semelhantes, saber como foram projetadas,
quais os materiais especificados e por que, quais os
cuidados com conforto ou segurança, por exemplo”, completa
Castro Mello. A consultoria de especialistas
em ar condicionado, acústica e luminotéctica, entre
outros, é fator essencial. “Quem pensaria em fazer
um estádio sozinho?”, pergunta Washington Fiúza,
presidente do Arquitectonica Brasil, filial brasileira
do Arquitectonica, o quarto maior escritório de arquitetura
dos EUA e responsável por obras como o American Airlines
Arena, em Miami, o Philips Arena, em Atlanta, e o Disney
Sports Resort, em Orlando.
O Arquitectonica Brasil está desenvolvendo o projeto
do novo estádio do Corinthians para a Hicks Musse,
empresa norte-americana que adquiriu os direitos sobre
a marca do clube paulista por 20 anos e está investindo
em um novo e moderno estádio para 50 mil pessoas a ser
construído na rodovia Raposo Tavares, próximo ao rodoanel
viário. Sua inauguração está prevista para 2002.
Para o atleta e o público
De acordo com Castro Mello, o desenvolvimento de uma
edificação esportiva começa pela escolha do terreno,
pois os custos com movimentação de terra ou rebaixamento
do lençol freático, para exemplificar, podem inviabilizar
um empreendimento. Também passa pela observação das
recomendações feitas pelas entidades oficiais de cada
esporte. A Fifa,
por exemplo, define as normas específicas para a construção
e a reconstrução de estádios de futebol. “Se o projeto
não corresponder às regras das entidades, o equipamento
não servirá para competições oficiais”, ele completa.
Os resultados obtidos por um atleta podem
ser comprometidos por instalações físicas que desconsideram
a orientação solar e o controle da ação dos ventos.
Por isso, existem normas bastante específicas,
válidas para edificações de qualquer porte. Campos,
quadras e piscinas a céu aberto devem ter seu maior
eixo longitudinal paralelo ao eixo norte-sul,
de modo que o sol nunca incida diretamente nos olhos
do competidor. Arremessos, lançamentos, saltos e chegadas
de corridas devem ser feitos com o sol pelas costas.
Nas atividades ao ar livre, o vento não pode interferir
no resultado, o que implica a necessidade de barreiras
paisagísticas ou construtivas para quebrar as correntes
de ar.
Além desses fatores, um projeto bem resolvido
considera aspectos tão diferentes como comunicação
visual, engenharia e planejamento urbano.
“Um estádio deve estar previsto no plano diretor de
uma cidade. Um bom exemplo disso é o Coliseu,
que, apesar de antigo, apresenta boa faixa externa
de circulação para o público. Sob esse aspecto,
o estádio do São Paulo, no Morumbi, é ruim, porque
quase não tem calçada no entorno e está localizado em
região de difícil acesso, sem integração com transporte
coletivo nem ampla área de estacionamento”, compara
Castro Mello.
Outro cuidado importante deve
ser tomado na hora de escolher o conceito estrutural
quando o projeto prever público. “As arquibancadas em
balanço estão sujeitas às vibrações causadas pela
movimentação da torcida, o que pode causar desconforto
e até pânico. Por isso, recomenda-se o uso de outras
soluções”, diz Castro Mello, lembrando que essa preocupação
é relativamente nova, decorrente da mudança de comportamento
das torcidas, mais agitadas hoje em dia.
Com relação às arquibancadas, quanto mais secionadas
forem, melhor para reduzir a ocorrência de conflitos
entre torcedores adversários e de tumultos no caso ser
necessária a saída rápida do público. Acessos exclusivos
e autonomia de infra-estrutura, com banheiros e bar
exclusivos, evitam a transposição de pessoas de um setor
para outro. “É mais fácil administrar o que é menor”,
lembra Castro Mello. O dimensionamento das arquibancadas
é feito com base na curva de visibilidade, com inclinação
e altura dos degraus adequadas. A capacidade de escoamento
de público também faz parte das normas. “O número e
o tamanho das aberturas deve ser calculado com base
na quantidade de espectadores, de modo que todos possam
sair em no máximo dez minutos.”
A infra-estrutura é outro fator relacionado ao
número de espectadores. Segundo Castro Mello, são exigidos
posto médico e posto policial para cada 10 mil pessoas.
O número de banheiros varia conforme o código de edificações
da cidade, mas deve absorver um grande afluxo de público
em pouco tempo, com redes de água e de esgoto capazes
de atender à demanda.
O mesmo vale para vestiários de clubes e academias,
por exemplo, “onde as duchas devem permitir seu uso
simultâneo sem interferências na temperatura e na pressão
da água”, diz o arquiteto Antônio Malicia, sócio
de Batagliesi Associados, escritório que assina os projetos
da Companhia Athletica, uma rede de academias de ginástica
presente nos estados de São Paulo, Pará e em Brasília.
A proporção entre sanitários femininos e masculinos
tem pequena variação. “No estádio de futebol ainda
prevalece 70% de banheiros masculinos, mas nas demais
instalações a proporção é de um para um”, lembra Malicia.
“Da mesma forma que os banheiros, também os serviços
de bar devem ser capazes de atender um grande número
de pessoas em pequenos intervalos. Longos balcões lineares,
com áreas de caixa e de atendimento independentes, são
a solução mais usada.”
Projeto flexível
A flexibilidade de uso é exigida tanto para uma simples
quadra como no mais complexo ginásio ou estádio, para
que possam acolher facilmente outros eventos, esportivos
ou não, como shows e feiras, no caso das instalações
de maior porte. Partes móveis das arquibancadas
são boa alternativa para permitir que uma pista de atletismo
funcione na mesma edificação que um estádio de futebol.
“Quando há um evento de atletismo, a arquibancada sobre
a pista é recolhida; quando é um jogo de futebol, ela
é deslocada para frente, aumentando a capacidade de
público”, exemplifica Cianciarullo.
Já as quadras em escolas ou centros recreativos
costumam ser o espaço usado para as festas de suas comunidades.
Essa diversidade de funções requer soluções que variam
conforme a disponibilidade de verbas. Fiúza lembra que
várias opções podem ser compostas conforme a necessidade
de cada evento. “É possível ter até uma piscina sob
o piso. Tudo depende do programa”, ele avalia. De
fato, as possibilidades são cada vez mais variadas e
criativas. Para proteger os gramados de estádios
pode-se escolher, por exemplo, esteiras de material
plástico perfurado, que distribuem o peso do público,
permitem a passagem de ar e luz, mas impedem que a grama
seja pisoteada.
Na cidade de Arnhein, na Alemanha, o estádio coberto
de Gelredome apresenta solução engenhosa. A grama
plantada em uma espécie de tabuleiro deslizante
permanece do lado externo da construção para receber
ar e luz ou durante a realização de outros eventos.
“Quando há um jogo, o tabuleiro desliza para dentro”,
diz Castro Mello.
Nas quadras recreativas descobertas, o mais comum
é a utilização de um piso de base asfáltica e demarcação
das linhas de jogo com tinta acrílica. Não é o ideal,
mas uma solução de baixo custo amplamente empregada.
Nas quadras cobertas, as opções ficam entre o
piso flutuante de madeira, o mais recomendado, e os
revestimentos em poliuretano, PVC ou borracha. Todos
esses produtos oferecem vantagens no uso, mas, como
podem ser danificados durante atividades que não as
esportivas, requerem algum tipo de proteção.
Uma alternativa bastante empregada são as mantas
em rolo, aplicadas como tapetes sobre um
cimentado comum. Quem não quiser a demarcação de uma
quadra poliesportiva precisará de um jogo de mantas
para cada esporte a ser praticado. Mas, “são carretéis
pesados e muito volumosos”, avisa Cianciarullo. Segundo
Malicia, para salas de ginástica ou de musculação,
a melhor solução para o piso é uma resina aplicada
diretamente sobre o contrapiso regularizado. “Ela cristaliza
como uma borracha e depois é pintada. Seu custo é mais
elevado, mas oferece alta performance em resistência,
durabilidade e conforto, reduzindo o impacto do atleta
contra o chão durante as aulas”, afirma. Para as quadras,
ele considera o piso flutuante de madeira “ainda
o melhor”.
As piscinas também podem ser flexíveis. “Uma
piscina olímpica mede 50 x 25 metros, com 2 m de profundidade,
o que não é indicado para uso geral. A alternativa nesse
caso pode ser a que foi usada em Sydney: um fundo
móvel de aço inoxidável ou alumínio permite mudar
a profundidade; para dividir uma piscina em duas, pode-se
usar uma ponte móvel, com 2 m de largura”, diz
Castro Mello. Nesse caso, a piscina precisa ter 52 m
de comprimento, para não alterar a medida exigida para
competições oficiais.
Equipamentos como esteiras ou bicicletas elétricas
consomem muita energia, detalha Malicia. “Nossos projetos
para a Companhia Athletica têm programa mínimo de 4,5
mil m2, e para essa área, costumamos ter capacidade
instalada de 750 kVA, o que inclui os aparelhos mais
uma sobra para o sistema de ar condicionado nas horas
de pico.”
Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli (Publicado originalmente em
PROJETO DESIGN - Edição 249 - Novembro
2000)
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