|
A especificação de chapas de vidro para a composição
de pisos e escadas é prática recente em projetos brasileiros, mas
esse tipo de aplicação, que apresenta alta complexidade técnica,
já pode ser visto em obras de hotéis, museus, edifícios comerciais
e shopping centers. A utilização do vidro como material
para compor pisos e escadas permite ao arquiteto conceber formas incomuns,
coloridas e iluminadas. Transparentes ou opacos, esses elementos assemelham-se
a tapetes de luz e podem ser especificados tanto pontualmente, em residências,
como em áreas de grande circulação de pessoas. O
processo de laminação, que obedece a alguns critérios
especiais, garante a alta resistência mecânica, em função
das cargas distribuídas, enquanto o tipo de acabamento proporciona
transparência ou superfícies diferenciadas, quando se utilizam
lâminas de vidro impresso ou serigrafado. Também é possível
usar uma película antiderrapante, que aumenta as condições
de segurança das pessoas. O dimensionamento correto
deve considerar características como tipo de vidro, espessura e transparência,
definidos conforme o projeto. Diferentemente de outras aplicações,
não é possível mensurar exatamente o número
de pessoas que caminhará sobre uma área envidraçada ou se
reunirá sobre ela. Ainda não há normas brasileiras
específicas para esse uso. Por isso, os projetistas utilizam como parâmetro
as internacionais, especialmente as européias, e alguns critérios
estabelecidos pela ABNT para envidraçamentos em geral. Em projetos
de pisos devem ser utilizados vidros de segurança laminados,
que possuem alta resistência mecânica. Caso ocorra quebra, os fragmentos
ficam presos à película de PVB. As chapas podem ser temperadas
ou não, porém não é permitido laminá-las
com características diferentes: todas devem receber o mesmo tratamento.
Dependendo do cálculo de cargas, a composição do
vidro laminado pode ter duas, três ou mais placas. Segundo as normas
internacionais, quando se especificam duas lâminas, uma delas deve suportar
toda a carga e a outra servir como reforço de segurança. No caso
de três, duas são para sustentar a carga e a terceira, para garantia.
Outra exigência é a utilização de peças
com a mesma espessura. “Não se pode laminar uma chapa de dez milímetros
com outra de 15 para compor um sanduíche, pois a deformação
entre elas será diferente”, explica o arquiteto e consultor Paulo Duarte,
da AEC Consultoria, empresa que vem trabalhando no desenvolvimento de projetos
de pisos e escadas de vidro. O tipo de acabamento e a espessura do vidro
- mínima de 20 milímetros e máxima de cerca de 60 - são
determinados conforme a aplicação em piso ou em escada. “Placas
muito grandes são de difícil manuseio, pois o vidro pesa 2.500
kgf/m3. Se ele for usado em locais internos, a chapa pode ser lisa. Em áreas
externas, por serem muito escorregadias, o ideal é utilizar uma lâmina
de vidro impresso ou serigrafado, ou ainda uma película antiderrapante”,
explica o engenheiro Ricardo Macedo, da Engevidros. Opaco ou transparente
O vidro em geral é translúcido, mas em muitos casos utiliza-se
a serigrafia ou uma película de PVB leitoso para torná-lo
opaco, evitando o desconforto da transparência. No projeto de restauração
do Mercado Municipal de São Paulo, o local ganhou um mezanino de
2 mil metros quadrados destinado a uma grande praça de alimentação.
Para que as áreas sob esse pavimento continuassem recebendo iluminação
natural pelas clarabóias, em seu piso foram adotados quatro vãos
envidraçados de 56,60 metros quadrados cada um. São três placas
de temperados e laminados de oito milíme-tros, com 1,10 x 1,50 metro e
espessura de 26 milímetros, intercaladas com várias películas
de polivinil butiral. Para evitar a total transparência, em uma das camadas
o PVB é leitoso. Em contrapartida, a transparência foi
fundamental no Santander Cultural, em Porto Alegre. O piso de vidro totalmente
translúcido possibilita ao máximo a passagem de luz para iluminar
três vitrais antigos, mantendo-os visíveis no átrio do edifício,
no térreo. Quem está sobre o piso vê os vitrais de cima para
baixo, numa proximidade de um metro. O projeto de retrofit, assinado pelo arquiteto
Roberto Loeb, apresenta três quadros situados em dois níveis
diferentes, totalizando área envidraçada de 235 metros quadrados.
Com medidas de 1 x 1 metro, as placas foram laminadas com três vidros monolíticos
de dez milímetros cada um. Dimensionadas com a carga máxima,
de 500 kgf/m2, as lâminas estão apoiadas sobre os calços de
EPDM e encaixadas entre abas verticais de perfis introduzidos entre cada duas
placas. São dois septos em cada lado, devidamente protegidos por calços
laterais de EPDM. “Para garantir o sistema de vedação e o posicionamento
das placas, as juntas foram seladas”, diz o consultor da obra, Paulo Duarte.
Dimensionamento das cargas Para o dimensionamento do piso ou
da escada de vidro, adota-se sempre um coeficiente de segurança,
de modo que, se uma das lâminas quebrar, não haja risco para
os usuários. Segundo Paulo Duarte, as normas internacionais
definem, nesse caso, parâmetros elevados. Normalmente, a carga considerada
é de pelo menos 500 kgf/m2. O engenheiro Ricardo Macedo afirma que no Brasil
ainda não há normas específicas para essa aplicação.
“Usamos as européias, e alguns cálculos obedecem a critérios
estabelecidos pela ABNT para envidraçamentos em geral, a NBR 7.199”,
afirma. A distribuição das cargas ocorre conforme
o tipo de apoio adotado, em dois, três ou quatro lados do vidro. Nos projetos
de escadas, dependerá de como os degraus estão sustentados. As cargas
são distribuídas da mesma forma que em uma placa de laje.
Se houver apenas dois apoios, as normas internacionais orientam que os cálculos
considerem maiores coeficientes de segurança. Nesse caso, é comum
a borda de pisada ficar livre, sem suporte. Dependendo do uso da escada,
é importante examinar a necessidade de proteger essa borda de agressões
mecânicas. A laminação deve ser cuidadosa, pois, se a borda
ficar aparente, deve apresentar aspecto perfeito quanto ao alinhamento das várias
placas que compõem o laminado, bem como receber o tratamento para esse
trecho em cada placa. Apoios e travamentos No projeto do
Centro Brasileiro Britânico, do escritório Botti Rubin,
com consultoria do arquiteto Paulo Duarte, para o dimensionamento das chapas de
vidro da escada foi considerada a carga de cálculo de 500 kgf/m2, transformada
em carga por metro linear dos degraus, que estão biapoiados nos lados mais
curtos, com a borda de pisada exposta. “Uma cantoneira foi colada nessa borda
para proteção. Essa situação foi comparada com uma
carga no centro do degrau equivalente a 120 kgf. É como se uma pessoa com
esse peso aproximado descesse a escada, concentrando o esforço em uma perna,
no meio do degrau. Para os patamares, o cálculo foi feito como piso, considerando
os apoios efetivos”, explica Duarte. Com mais de 1,5 metro de largura,
três lances em diferentes direções e um mínimo de possibilidades
de apoio e travamento, a escada do Centro Brasileiro Britânico gerou vários
desafios. A solução implantada envolve uma estrutura periférica
do tipo I, em partes. No primeiro lance, a estrutura foi fixada numa base
sob o espelho d’água e em dois falsos montantes da caixilharia. O segundo
se apóia no primeiro e num pórtico metálico, chumbado na
estrutura de concreto. Partindo do mesmo pórtico, o terceiro lance é
travado na laje de piso do primeiro pavimento. As escadas de vidro
ligam o hall às duas salas de exposições, no primeiro
pavimento. Possuem 29 degraus, compostos por vidros laminados temperados de 30
milímetros, e dois patamares de laminados monolíticos, com a mesma
espessura. Nos degraus e patamares, uma das chapas recebeu serigrafia,
para eliminar a excessiva transparência, que poderia causar desconforto
aos usuá-rios, e para dar rugosidade às peças, evitando escorregões.
Preparo do vão Durante o preparo do vão onde o
piso de vidro será instalado, a base de apoio de cada peça deve
ser trabalhada para que se obtenha um plano rigorosamente perfeito, de forma a
não haver transferência de tensões e de flexão
para as placas. “Para isso, a estrutura de apoio deve ter ajustes reguláveis”,
comenta Ricardo Macedo, da Engevidros, empresa responsável pelo projeto
do piso de vidro do NovoMuseu, de Curitiba, projeto de Oscar Niemeyer. Esse elemento
serve também de teto para uma área do subsolo, que abriga o Espaço
Niemeyer. Com 18 metros de diâmetro, a estrutura de aço é
uma grelha com vigas-caixão que recebe dois planos de vidro. O superior
é o piso, que sofrerá a carga do trânsito de pessoas no local
(300 kgf/m2); o inferior é o teto do pavimento abaixo. Segundo
o projetista Jeferson Luiz Andrade, da Andrade Rezende Engenharia, o piso foi
calculado para suportar 76 toneladas de uma só vez. O projeto estrutural
conta com a fabricação e montagem de uma grelha metálica
de aço, com vigas-caixão pintadas na cor cinza e altura de 60 centímetros.
Para o piso foram utilizados 254 metros quadrados de laminados múltiplos
incolores. Na parte inferior (teto), são laminados fumês. Os vidros
foram instalados sobre caixilhos de alumínio com calços espaçadores
flexíveis de neoprene e silicone de vedação.
Tipos de estrutura A estrutura para receber um piso ou uma escada de vidro
deve garantir o perfeito apoio das placas - que pode ser feito em dois,
três ou quatro lados. A estrutura é uma malha metálica
de aço ou de aço inoxidável, calculada para resistir
às cargas verticais resultantes do piso, considerando-se os parâmetros
de norma para os diferentes tipos de uso dos pavimentos. As chapas de vidro são
apoiadas em cada elemento metálico, através de calços de
borrachas sintéticas ou silicone, ambos de alta dureza. Esses calços,
que garantem a planicidade dos apoios, evitando pressões pontuais
nas bordas, devem ter determinada espessura e o perímetro das lâminas
deve estar apoiado continuamente. Eventualmente, pode-se utilizar
o sistema de vidros estruturais parafusados (sistema suspenso), no qual
as chapas são apoiadas pontualmente. Nesse caso, os vidros são fixados,
geralmente em quatro pontos, por meio de furos e de ferragens especiais, do tipo
aranha. “Essa forma de sustentação é crítica,
pois geralmente prevê certo ‘giro’ nos apoios pontuais, para reduzir as
tensões nos furos devido às deformações das placas”,
opina Paulo Duarte. “E também faz com que as placas sofram pequenas
oscilações ao serem pisadas, perdendo a coplanaridade do piso
e causando certo desconforto. Sugiro que nesse tipo de uso as fixações
sejam rígidas, o que resulta no aumento da espessura de cálculo
das lâminas.” Projetada pelo arquiteto Daniel Piana, responsável
pela arquitetura de interiores, e detalhada em parceria com técnicos da
Santa Marina e os consultores Paulo Duarte e Heloísa Maringoni, a escada
que dá acesso ao restaurante principal do Hilton Hotel, em São
Paulo (edifício desenhado pelo escritório Botti Rubin), foi
a primeira a ser concebida, no Brasil, com o sistema de vidros suspensos spider
glass. Para compor esse elemento de dez metros de extensão e desenho
afunilado, os degraus foram fixados por aranhas de aço comum, com
12 polegadas e 30 centímetros de altura, revestidas com chapas de aço
inoxidável, presas a três vigas-mestras. Os degraus estão
apoiados pontualmente em quatro pontos próximos aos vértices das
placas. Com dimensões diferentes, os patamares são formados pela
sobreposição de três chapas de vidro.
Quadros de vidro Os vidros podem ser colados com silicone structural
glazing em perfil de alumínio ou permanecer soltos, sobre seus
apoios, sem caixilho. Nesta última hipótese, se forem apoiados em
quatro lados, é conveniente que sejam colados pequenos trechos, para ficar
em sua posição. Se o apoio for em dois ou três lados, pelo
menos dois deles devem ser colados. Se a borda da pisada for livre, a extremidade
oposta deve estar totalmente colada. Quando os vidros estiverem sustentados nos
dois lados transversais, estes devem estar totalmente colados. Há casos
de degraus de vidro que apresentam essa situação e, nessa condição,
as normas internacionais obrigam que o cálculo seja feito de forma diferente.
O caixilho é fixado na estrutura metálica para
regularização de planos e apoio dos vidros sobre junta elástica.
Para a vedação dos quadros são utilizadas juntas
de silicone, garantindo a estanqueidade do piso, ou perfis de borracha sintética,
aplicados nas bordas dos vidros, em formato de H. Ricardo Macedo lembra que é
importante prever ventilação para piso de vidro enclausurado,
como acontece no projeto do Park Shopping Barigüi, do arquiteto Paulo Baruki.
Executado pela Engevidros, ele é composto por tapetes de vidro em forma
de trapézios, com 6.500 milímetros de base por 4.800 de altura,
eqüidistantes da laje 300 milímetros. Esse espaço foi ocupado
pelas luminárias e pela estrutura de aço com regulagem de altura.
Texto resumido a partir de reportagem de
Gilmara Gelinski Publicada originalmente em FINESTRA Edição
42 Setembro de 2005 |