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Componentes industrializados aplicados no fechamento de
fachadas, os vidros e os perfis metálicos
têm diferentes propriedades que merecem análise
cuidadosa, como mostra este artigo de Regina Xavier Costa,
Ernâni Carlos de Araújo e Henor A. de Souza.*
Nos últimos anos, a construção civil
brasileira vem buscando a racionalização por
meio da adoção de sistemas construtivos tecnicamente
mais avançados, em substituição aos
processos tradicionais, que geram retrabalho e desperdício.
Com isso, a estrutura metálica passa a ter
papel importante. Como todos os seus elementos são
processados industrialmente, asseguram-se qualidade, facilidade
e rapidez na montagem, além de canteiros de obra
menores e com custo mais baixo. Os perfis metálicos
tubulares - de seção transversal circular,
quadrada ou retangular -, juntos com os painéis
de vidro, constituem uma das opções de
fechamento externo que mais vêm sendo utilizadas.
Os perfis tubulares de seção
circular aliam eficiência estrutural à
limpeza visual, características desejadas por arquitetos.
Apresentam boa resistência aos esforços de
compressão e torção; possuem menor
área de superfície (de 20% a 30%) em comparação
com as seções abertas, o que leva à
redução no custo com pintura e material de
proteção contra incêndio. Os pilares
podem ser preenchidos com concreto (estruturas mistas),
gerando um ganho adicional de resistência, incluindo
contra o fogo. Quando são produzidos sem costura
revelam maior resistência à corrosão,
uma vez que não têm frestas nem arestas.
Já os tubos de seções quadrada e
retangular, além dessas vantagens, pelo fato
de possuírem superfícies planas, apresentam
facilidades no corte e nas ligações.
O vidro tem como características básicas possuir
peso elevado e aceitar pequenos deslocamentos, exigindo
um cuidado especial nas fixações, para que
não ocorra trinca ou mesmo quebra.
Cargas atuantes
Quando se pensa na interface de utilização
desses materiais, alguns aspectos precisam ser considerados.
Normalmente, os perfis metálicos são
esbeltos, compondo estruturas muito leves, que estarão
submetidas a grandes esforços verticais -
decorrentes do peso próprio da estrutura e do fechamento
- e também horizontais, provocados
pelo vento. O aço apresenta alta condutibilidade
térmica, o que provoca grande movimentação
da estrutura, se comparada à de concreto armado.
É importante levar em consideração
que esse deslocamento é maior onde ocorre diferenciação
acentuada de temperatura entre o dia e a noite, como no
território brasileiro. A movimentação
não deve transmitir esforços para o subsistema
de fechamento.
Os materiais utilizados no fechamento apresentam, por sua
vez, propriedades diferentes de absorção e
transmissão de calor e de umidade, que produzem sua
dilatação e contração. Esse
fato deve ser previsto com a utilização de
juntas, que, convenientemente tratadas, permitirão
a dilatação térmica e ao mesmo
tempo garantirão a estanqueidade.
Entre os fatores que afetam a interface, os
mais importantes são as cargas atuantes, os movimentos
pós-montagem, as tolerâncias e as juntas, os
sistemas e dispositivos de fixação. São
consideradas cargas atuantes aquelas resultantes
da ação do peso próprio, da ação
do vento e aquelas decorrentes de impacto. O peso próprio
inclui o tipo de vidro utilizado no fechamento, bem como
o peso dos elementos que compõem o sistema de fixação
do painel. A ação do vento pode se
dar por pressão direta (positiva) ou por pressão
negativa (sucção), e as cargas dela provenientes
são as dominantes no cálculo dos sistemas
de fechamento. E, por último, o painel de vidro precisa
resistir aos impactos e ter capacidade de transferir
uma parte da carga para a estrutura de suporte.
Tolerâncias
Após a montagem da estrutura, surgem movimentos que
necessitam de avaliação. No Brasil, tem-se
que considerar aqueles decorrentes da deformação
da estrutura, os causados pela dilatação e
contração térmica e absorção
de umidade, a oscilação do vento e o assentamento
da fundação. O mais significativo é
o ocorrido pela deformação estrutural,
mas todos eles devem ser analisados e estudados, para que
os elementos de fixação e as juntas possam
absorvê-los.
A tolerância é a variação
dimensional - máxima e mínima - que pode
ocorrer entre o projeto e a medida real de um
elemento, e depende de cada material. Na construção
metálica é necessário prever, através
de juntas e folgas, as tolerâncias de montagem (nivelamento
e prumo), a movimentação diferencial entre
a estrutura e o subsistema de fechamento, a variação
volumétrica e a tolerância dimensional do painel.
A junta é a distância entre um painel
e outro. Ela deve absorver a tolerância dimensional
e a variação volumétrica, causada pelas
variações higrotérmicas. As juntas
podem ser horizontais ou verticais, abertas ou
vedadas. Na junta vedada, a estanqueidade à água
e ao ar é garantida com a utilização
de material selante monocomponente ou bicomponente e de
gaxetas.
Componentes de fixação
Os dispositivos de fixação são os responsáveis
pela união entre os painéis e a
estrutura. Devem apresentar resistência mecânica
às movimentações diferenciais entre
a estrutura de suporte e o fechamento, bem como às
variações volumétricas, aos esforços
de ancoragem (tração, compressão e
cisalhamento) e à corrosão. E também
ter ductilidade, que é a capacidade potencial de
deformação sem perda de resistência.
Esses elementos normalmente são feitos
de aço, material que possui tais propriedades
e tem custo relativamente baixo. Para garantir o desempenho
das fixações, elas devem ser corretamente
detalhadas e especificadas, além de atender aos aspectos
da proteção contra corrosão e contra
incêndio. Quando sujeitas a intempéries,
inseridas em materiais que absorvem água ou utilizadas
em sistemas onde possa ocorrer condensação
do vapor de água, é necessário protegê-las
contra a corrosão atmosférica. Outro tipo
de corrosão é a galvânica, que ocorre
quando são usados dois metais com grande diferença
de potencial eletroquímico. Quando expostos a determinado
meio, como a água, um pode se corroer enquanto o
outro permanece praticamente intato. Nesses casos, os elementos
metálicos precisam ser isolados.
As fixações dos painéis de vidro
normalmente estão protegidas contra o fogo pelos
elementos da construção: lajes, painéis
internos e sistemas de interrupção de incêndio.
No caso de ficarem aparentes, deverão ser
de aço inoxidável ou receber proteção,
que pode ser feita com pintura intumescente. Nos painéis
assentados no sistema de fachada-cortina, que ficam externos
à estrutura de suporte da edificação,
é necessário prever proteção
adicional, para impedir que o fogo se propague de um
pavimento para outro através dos espaços que
existem entre as lajes e a vedação. Normalmente
se usa uma placa cerâmica ou de lã de vidro,
para evitar a passagem do fogo e da fumaça.
Quanto aos sistemas de fixação, os painéis
de vidro podem ser colocados de duas formas: como painel
de vedação, em que a estrutura de suporte
do edifício permanece aparente; e no sistema de fachada-cortina,
quando o painel de vidro recobre a estrutura.
Painel de vedação
Quando o vidro é utilizado como painel de vedação,
deixando a estrutura do edifício aparente, é
aconselhável que ele seja encaixilhado em um perfil.
Dentro das opções oferecidas pela construção
industrializada no Brasil, a opção mais usual
é o perfil de alumínio extrudado (foto 1).
Nessa situação, devido à baixa capacidade
elástica do material, somada à movimentação
da estrutura, é fundamental haver a previsão
das folgas no detalhamento dos caixilhos. Outro dado a ser
considerado é a capacidade de dilatação
do material, que é de um milímetro para cada
100° C. A NBR 7.199/1989 recomenda que os caixilhos
trabalhem com uma folga para a borda de três milímetros
e folga lateral de dois milímetros.
Portanto, uma folga adequada deve absorver a dilatação
e os movimentos relativos entre o caixilho e a estrutura,
considerando o sistema de abertura da esquadria e o tipo
de vidro. Um aspecto a ser observado nesse sistema é
a ausência do contramarco, gerando a necessidade
de utilização de um elemento metálico
para receber o caixilho. Geralmente esse elemento é
uma cantoneira ou perfil U de aço, soldado nos pilares,
vigas e lajes. A figura 1 mostra um detalhe de fixação
do painel no pilar, podendo-se notar a cantoneira soldada
ao pilar, que serve de apoio para a fixação
do caixilho. A folga necessária para a movimentação
do vidro pode ocorrer no próprio caixilho,
com a utilização de calços ou de gaxetas
que separam a chapa do perfil de alumínio.
No caso, como a esquadria é de alumínio e
a estrutura de aço, é fundamental prever o
isolamento dos metais com uma fita anticorrosiva, para evitar
a corrosão galvânica. O deslocamento da viga
de borda (flecha) deve ser compensado por um sistema adicional,
que acomode o movimento sem transmitir o esforço
para o vidro, o que é conseguido com um perfil telescópico
na parte superior do caixilho (figura 2).
Para o caso de vidros laminados, que apresentam peso
mais elevado, o cuidado com a folga deve ser maior.
É imprescindível a utilização
dos calços ou das gaxetas de EPDM, que absorvem os
esforços e proporcionam a folga necessária
para a movimentação. O posicionamento dos
calços ou das gaxetas deve ser estudado com o fornecedor.
O selante para vedar a folga entre o vidro e o metal é
o silicone de cura acética, indicado para materiais
não porosos. Sua capacidade de movimentação
é definida de acordo com seu módulo de elasticidade
- alto, médio ou baixo. Entretanto, em vidros laminados
não deve ser utilizado esse produto, que ataca a
película de PVB, provocando infiltração
na chapa de vidro.
Fachada-cortina
Nesse caso, o vidro pode ser encaixilhado ou colado
(sistema structural glazing), com as chapas de vidro unidas
por silicone estrutural, o que requer sofisticado sistema
de fixação, composto por:
• parafusos de fixação - dispositivos que
ligam a placa à estrutura de fixação;
• elementos de suporte - cantoneiras, aranhas ou pinos;
• estrutura auxiliar - vigas, colunas ou treliças
metálicas que transmitem os esforços do peso
próprio, do vento e de outras cargas impostas para
a estrutura de suporte do edifício ou para a fundação.
No detalhamento da fachada-cortina structural glazing
devem-se considerar as movimentações
decorrentes do efeito térmico e do carregamento
aplicado, tanto do painel de vidro quanto da estrutura
de suporte. O carregamento pode provocar a rotação
do painel e dos seus elementos de fixação
fora do plano. Também devem ser consideradas as tolerâncias
de construção e de montagem, tanto dos painéis
quanto dos elementos estruturais, e a possibilidade de quebra
ou remoção de um painel, que provocará
aumento da carga (peso próprio e das cargas transmitidas).
Segundo dados do The Steel Construction Institute
(1997), a adequação do sistema a ser utilizado
para a fixação do painel em vidro é
determinada em função da altura da fachada.
Os sistemas de fixação podem ser apoiados
ou suspensos. Para as fachadas com alturas entre 2,50 e
quatro metros, pode ser utilizado um sistema simples, composto
por postes localizados na junção entre os
painéis (figura 3 e foto 2), ou em número
menor, quando associados a um sistema de braços.
Os postes não necessitam vencer a altura total da
fachada, podendo ser, também, como o caso mostrado
no esquema da foto 3.
No caso de fachadas com altura acima de quatro
metros, é necessário utilizar uma estrutura
auxiliar composta por treliças, que podem
ser triangulares ou do tipo vierendeel, arcos atirantados
ou por aletas verticais. As ligações das treliças
com a estrutura de suporte podem ser rígidas, caso
em que haverá transmissão de momento, ou articuladas,
evitando o momento. As treliças triangulares
normalmente são compostas por duas cordas e diagonais,
geralmente em tubos de seção circular, sendo
que o conjunto resiste aos esforços resultantes do
peso próprio e da ação do vento (foto
4).
O arco atirantado é composto por uma barra
vertical principal, reforçada por barras horizontais
e dois ou mais cabos; normalmente, as ligações
são articuladas (figura 4). O elemento vertical está
comprimido (resistindo ao peso próprio); as barras
horizontais resistem aos esforços de compressão
e os cabos resistem aos esforços de tração,
em função da direção da incidência
do vento no painel.
Os elementos de fixação têm como
função inicial transferir as cargas atuantes
no painel (cargas devidas ao vento, de manutenção
e peso próprio) à estrutura auxiliar. Eles
devem resistir, também, aos momentos decorrentes
da deformação dos painéis e dos elementos
estruturais do edifício e às forças
internas devidas aos efeitos térmicos.
Na figura 5 mostra-se como é feita a distribuição
da carga no painel. A carga devida ao peso próprio
(tanto nos painéis em planos verticais, como nos
inclinados) encontra resistência em um conjunto de
parafusos (superiores ou inferiores). Esse conjunto deve
ter folga para permitir a movimentação no
sentido horizontal. Na outra extremidade do painel há
mais um conjunto de parafusos, que resiste ao vento. Para
garantir que esses parafusos não recebam parte do
peso próprio, seus furos têm folgas, permitindo
a compensação das tolerâncias dimensionais
e dos movimentos diferenciais entre os materiais.
A forma mais simples de ferragem é um arranjo
de cantoneiras soldadas diretamente no perfil auxiliar.
Outro tipo de arranjo é formado por quatro cantoneiras
parafusadas em uma barra soldada na estrutura auxiliar (figura
6).
Outra ferragem utilizada é a chamada aranha
(spider), composta por um suporte com um, dois, três
ou quatro braços radiais fixados a partir de um centro,
que sustenta o vidro fora do seu plano. A chapa de vidro
é fixada na extremidade do braço pelos parafusos
e o suporte a conecta à estrutura auxiliar (figura
7).
Como as chapas de vidro são produzidas com
alto grau de precisão, a tolerância de fabricação
é pequena (mínimo de dois milímetros).
As fixações obtidas pela união de elementos
parafusados ou soldados, ou pela usinagem de peças
especiais, não apresentam tal apuro na sua fabricação,
sendo aconselhável tolerância de fabricação
de cinco milímetros.
As juntas entre painéis são vedadas
com silicone estrutural. O dimensionamento das juntas
e o processo de vedação são definidos
pelos fabricantes do silicone e do vidro, atendendo a rigoroso
controle. Definida a junta, deve ser feito teste de resistência
pelo fabricante do silicone, seguindo a norma americana
C 794 (ASTM/1993). Após a aplicação
do silicone, utilizando mão-de-obra especializada
e respeitado o prazo da cura, deverá ser feito um
novo teste - o pós-cura - em 10% dos painéis.
Caso o teste seja positivo, os painéis serão
liberados para a colocação.
É bom lembrar que fachadas envidraçadas,
voltadas para áreas com grande exposição
à radiação solar, estarão
sujeitas ao aquecimento interno. Isso implica medidas corretivas,
como a utilização de vidros de controle
solar. Outra solução, que é o uso
de condicionamento mecânico, além de aumentar
o custo da obra, resulta em aumento do consumo de energia
e no custo de manutenção do sistema. Também
é importante prever em projeto soluções
que contemplem a manutenção e a limpeza das
fachadas.
*Regina Maria Xavier Costa é professora dos departamentos
de Projeto e Tecnologia do curso de arquitetura do Centro
Universitário Izabela Hendrix, em Belo Horizonte;
Ernâni Carlos de Araújo é professor
do Departamento de Engenharia Civil e Henor Artur de Souza,
do Departamento de Engenharia de Controle e Automação
e Técnicas Fundamentais, da Escola de Minas, da Universidade
Federal de Ouro Preto, MG
Texto resumido a partir de reportagem
de Gilmara Gelinski
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 42 Setembro de 2005
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