Jacques Ferrier
Unidade industrial da Air France, França
 
  As novas instalações atendem ao programa de modernização dos processos de revisão de componentes e de logística
 
Edifício para Manutenção de Aviões
 

O complexo industrial da Air France foi concebido para atender à proposta de nova organização industrial, centrada mais em processos do que em setores de trabalho, a partir do conceito de células, permitindo que todas as atividades sejam desenvolvidas dentro do menor circuito possível.

Parte do grupo Air France, a Indústrias Air France (AFI) está encarregada da revisão e reparo da frota de aeronaves. É a marca com a qual o setor de manutenção do grupo disponibiliza no mercado sua abrangente oferta de serviços: o atendimento dos próprios aparelhos, que representa aproximadamente 72% de suas atividades, e de outras empresas, num total de cerca de cem companhias aéreas em todo o mundo. É líder de mercado no suporte aos Airbus A320, A330 e A340 e ocupa, também, uma das primeiras posições nos Boeings 777 e na revisão de motores General Electric - o GE90, em particular. Para desenvolver suas atividades, a AFI está estruturada em quatro divisões: Suporte e Manutenção da Frota; Manutenção de Aeronaves; Motores; Materiais e Serviços.

Com a expansão de sua atuação, nos últimos anos, as instalações antigas que a AFI ocupava, na zona norte do aeroporto de Orly, em Paris, transformaram-se em obstáculo ao seu funcionamento. A administração da empresa decidiu modernizar os processos de revisão de componentes e de logística, a fim de aumentar a eficiência de seus serviços, tanto do ponto de vista operacional, como de viabilidade econômica. Para atingir esse objetivo, o caminho seria a criação de uma unidade integrada e funcional, concebida a partir dos fluxos logísticos e administrativos. Isso foi obtido com a implementação do programa de manutenção de componentes e assistência logística.

Batizado de projeto Eole (Entretien et Operations Logistiques Equipement), o programa serviu de linha mestra para o desenvolvimento do desenho arquitetônico das novas instalações. Segundo os arquitetos, o plano diretor do complexo foi elaborado de acordo com a nova organização industrial, centrada mais em processos do que em setores de trabalho. Outra condicionante era a necessidade de assegurar que as pessoas envolvidas nesses processos estivessem fisicamente próximas. “Somente uma proposta ultramoderna, em um novo projeto, poderia atingir os resultados desejados”, afirmam.

 
Em áreas onde as atividades exigem maior controle de luminosidade, foram criadas fachadas seladas
 
Fachadas de vidro com brises verticais compõem uma das soluções utilizadas para o envoltório do edifício
 
  Varandas com amplos deques e áreas verdes entre os blocos são elementos que conferem qualidade ambiental
 

Células de trabalho

Antes da etapa de construção do edifício, todas as operações de revisão, logística e administração foram repensadas. As diferentes linhas de produtos - hidráulicos, pneumáticos, de aviação etc. - foram organizadas em unidades chamadas de células, agrupando os recursos material e humano necessários a cada atividade. A proposta de aproximar o ferramental e construir armazéns dentro das próprias células pretendia evitar a interrupção nos fluxos físicos e, assim, otimizar a cadeia de trabalho.

Desse modo, componentes a serem revisados ou consertados chegariam diretamente à célula onde essas atividades são desenvolvidas, a partir de um circuito que deveria ser o menor possível. Para eliminar períodos de espera, todas as práticas necessárias se concentrariam no interior da unidade. Assim, qualquer problema que surgisse durante a revisão poderia ser resolvido com rapidez. Para evitar interrupções nos fluxos de informações, os escritórios técnicos, de controle de qualidade, de planejamento e de fornecimento foram agrupados dentro de uma única célula, próxima das estações de trabalho da produção.

Programa industrial

O projeto Eole foi idealizado em 2002 pela equipe de projeto da Air France Industries, junto com um grupo de arquitetos comandados por Jacques Ferrier, com a ajuda de mais de 500 agentes, técnicos e gerentes da AFI envolvidos no estudo do programa.

Definido seu conceito, o Eole foi apresentado aos arquitetos, para que fosse desenvolvido um projeto de edificação que atendesse à organização proposta, centrada na performance industrial. Desde o início ficou claro que não se tratava apenas de erguer um prédio convencional e nele instalar uma série de máquinas. Era preciso criar um edifício que atendesse a um projeto industrial, estudado, discutido e aprovado pela alta direção da Air France. Para sua implantação, engenheiros e técnicos deram suporte aos arquitetos, fornecendo as exigências relacionadas às prioridades operacionais. Todas essas informações transformaram-se em subsídios que orientaram o desenvolvimento do projeto arquitetônico e o layout da construção.

Outro grande desafio do escritório de Jacques Ferrier foi conceber a construção em pavimento único, no qual áreas com demandas conflitivas estariam adjacentes. Assim, setores de trabalho ruidosos deveriam estar ao lado de outros em que as atividades requerem silêncio; máquinas que produzem pó deveriam operar em circunstâncias que exigem rigoroso asseio; e ainda seria colocada em atividade uma “fábrica limpa”, apesar do uso de produtos perigosos.

Inaugurado em março de 2005, o edifício foi construído e equipado entre fevereiro de 2003 e junho de 2004 - tempo recorde entre o desenvolvimento do projeto e a conclusão da obra, considerando a complexidade do programa.

O projeto foi desenhado de modo a atender integralmente às exigências ambientais, sociais e econômicas. Criou elementos para que o edifício apresentasse reduções significativas no consumo de água e de energia, no desperdício e nos níveis de ruído e de poluição. Também abriu possibilidades para que a edificação absorva as solicitações das novas tecnologias de aviação e estabeleceu critérios rigorosos quanto à ergonomia das estações de trabalho e de segurança, que vão além daqueles exigidos por lei.

Soluções para fachadas

A complexidade do programa apresentado pela Air France para a implantação do projeto Eole se estendeu da planta industrial para o envoltório do edifício. Para os vários blocos do conjunto industrial, os arquitetos conceberam diferentes sistemas de fechamento, em função das solicitações ambientais dos níveis de incidência solar e sombreamento, de acordo com as atividades desenvolvidas em cada célula.

Predominam as faces de vidro com brises verticais. Em áreas onde as atividades exigem maior controle de luminosidade, foram criadas fachadas seladas, com revestimento de chapas metálicas. Os materiais escolhidos conferem ao complexo um visual high tech, futurista, e, ao mesmo tempo, dinâmico, bem de acordo com a imagem da indústria de transportes aéreos.



Texto resumido a partir de reportagem
de Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 46 Setembro de 2006

 
O projeto criou possibilidades para que a edificação absorva as solicitações das novas tecnologias da aviação
 
O projeto criou possibilidades para que a edificação absorva as solicitações das novas tecnologias da aviação
 
O projeto criou possibilidades para que a edificação absorva as solicitações das novas tecnologias da aviação
   
Implantação

Ficha técnica

Obra:
unidade industrial da Air France
Local: Villeneuve-le-Roi, França
Projeto: 2002
Conclusão da obra: março de 2005
Área construída: 42.200 m2
Fotos: Jean-Marie Monthiers e Olivier Bec

Equipe técnica

Arquitetura:
Jacques Ferrier (autor); Stéphane Vigoureux e Guillaume Saunier (coordenadores de projeto); Boris Bastianelli, Julie Degand, Maud Leforestier, Corentin Lespagnol, Paul-Emmanuel Loiret, Laurence Ravoux e Hanna Svensson (assistentes)
Construção: Jacobs, Ingénierie ACV, Acoustique
Estruturas de aço: Arcelor

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