Ílvio Silva Artioli
Estação metroviária Alto do Ipiranga, São Paulo
Plantas, cortes e fachadas
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Ficha técnica deste projeto
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  A geometria da cobertura cônica direciona grande quantidade de luz natural até o nível da plataforma de embarque/desembarque
 
Cobertura de vidro no metrô
Com 406 metros quadrados de área transparente, a clarabóia cônica da estação do metrô Alto do Ipiranga é envolvida por uma pele construída com o sistema de vidro encapsulado em silicone sobre estrutura metálica composta por anéis circulares de aço.

Tanto pelo projeto de arquitetura, quanto pela escolha dos materiais de acabamento, o metrô de São Paulo vem implantando estações cada vez mais modernas, deixando para trás o desenho das antigas, com pouca ou até nenhuma comunicação visual com o entorno. O exemplo mais recente é a estação Alto do Ipiranga, cuja cobertura de vidro permite a entrada de luz natural até os níveis mais profundos, 24,16 metros abaixo da cota da rua. “Ela foi desenhada para se tornar um referencial na paisagem do bairro e oferecer transparência e leveza ao conjunto arquitetônico”, observa Ílvio Silva Artioli, autor do projeto conceitual e chefe do Departamento de Arquitetura da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô).

 
A clarabóia recebeu 269 peças de vidro laminado refletivo verde, de dez milímetros
 
  Para a cobertura da clarabóia foram utilizadas telhas termoacústicas na cor branca
 

Com o formato geométrico de um tronco de cone inclinado, a clarabóia tem cobertura de telhas termoacústicas do tipo sanduíche, pintadas de branco. A área translúcida permite visualizar partes do tradicional bairro do Ipiranga, desfazendo a barreira entre interior e exterior. A visibilidade se amplia do lado da rua Visconde de Pirajá, cuja topografia mais elevada exigiu maior área de vidro, se comparada com a fachada para a avenida Gentil de Moura, principal acesso da estação.

A entrada de iluminação externa já foi adotada em outras estações subterrâneas, como Sé, Santa Cecília, Marechal Deodoro e Anhangabaú. “O diferencial na estação Alto do Ipiranga está na própria geometria da cobertura cônica, que direciona grande quantidade de luz natural até o nível da plataforma de embarque/desembarque, além de contribuir para a renovação de ar no interior, aliviando o sistema mecânico de ventilação”, observa a autora do projeto executivo, Sônia Regina Gomes, do escritório Siarq Projetos.

Transparência

Desenvolvido pela Ambiental Consultoria, o projeto de conforto térmico da estação Alto do Ipiranga consistiu na análise de tipos de vidros que poderiam ser aplicados na grande clarabóia. Com 406 metros quadrados de área envidraçada, esse elemento recebeu revestimento em pele constituída por 269 peças de vidro laminado refletivo de dez milímetros, na cor verde. O produto escolhido garante conforto térmico e permite que, durante o dia, os usuários visualizem as áreas externas, enquanto à noite, inversamente, a estação é visível de fora para dentro, criando relação mais íntima com o entorno.

 
O vidro foi utilizado também nos ...
 
... guarda-corpos das escadas
 
  A estrutura metálica tem anéis circulares de aço com tubos de oito polegadas
 

A transparência também está presente no caminho de quem chega à estação pela avenida Gentil de Moura e depara com fechamentos verticais de vidro, ancorados em perfis de alumínio anodizado. Delgados, esses perfis formam uma espécie de corredor em direção às bilheterias, que possuem vidros de segurança. Piso de granito, holofotes cenográficos, lixeiras em chapa de aço inoxidável e placas indicativas emolduradas por laminado melamínico reforçam o visual high tech.

Externamente, a estação é cercada por gradis com barras de aço inox inclinadas, que ampliam o espaço dos transeuntes na calçada. Em homenagem ao bairro do Ipiranga, onde foi proclamada a independência do Brasil, a estação ganhou as cores da bandeira nacional: o verde, o azul e o amarelo tingem paredes, insufladores de ar, passarela e outros locais, compondo um cenário mais alegre que o das estações mais antigas.

A iluminação artificial cria um espaço cenográfico internamente. Luzes coloridas voltadas para o teto valorizam e suavizam o concreto aparente. O sistema luminotécnico destaca, ainda, os painéis decorativos aplicados ao longo das paredes do túnel da estação. Esta também inova no paisagismo, ao utilizar espécies nativas e frutíferas, que, ao atrair pássaros, contribuem para tornar o entorno mais agradável.

Medidas milimétricas

Nos trechos mais elevados, as estruturas primárias de sustentação da clarabóia da estação se apóiam em cinco pilastras de concreto e, na parte mais baixa, em muro de concreto de cerca de um metro de altura. Contratada pelo consórcio CBPO/Odebrecht, a Construmet executou a estrutura metálica para receber os vidros, de acordo com projeto desenvolvido pela Maubertec. A estrutura principal compõe-se de anéis circulares de aço com tubos de oito polegadas. São três anéis - o maior com 26 metros de diâmetro -, soldados em montantes com oito polegadas de diâmetro.

Com peso de 40 toneladas, a estrutura de aço da clarabóia foi calandrada na fábrica da Construmet, com curvaturas que transformaram tubos retos em anéis. Parafusada, a estrutura secundária compõe-se de perfis tubulares de três polegadas. “A estrutura recebeu os vidros com precisão milimétrica, com o auxílio da topografia, sem a necessidade de retrabalho”, observa Wilson Ramos Filho, diretor da Construmet. O ponto mais delicado da instalação foi o posicionamento inclinado do primeiro anel, tendo como referência o eixo central do cone.

Para as chapas de vidro do fechamento da clarabóia foram obtidas 140 medidas diferentes, devido ao eixo inclinado do cone, que originou dois ângulos - um a partir do telhado e outro na sua base. Além disso, apesar de alguns quadros serem simétricos à esquerda e à direita, as peças tiveram de ser cortadas ao inverso, pelo fato de os vidros serem refletivos e terem tons diferentes de verde em cada face. Os vidros foram protegidos por uma camada de polímero hidrorrepelente, que sela a porosidade microscópica de sua superfície, evitando a oxidação e o envelhecimento e facilitando a limpeza da cobertura.

Vidro encapsulado

Na clarabóia a Avec Design empregou o sistema de vidro encapsulado em silicone (VES), tecnologia que patenteou há cerca de dez anos e que se aplica a peças planas e curvas. “As dimensões dos vidros foram definidas virtualmente sobre o projeto da estrutura principal, em 3D. E acompanhamos a montagem, gabaritando fisicamente cada módulo, para garantir as medidas teóricas durante a implantação da estrutura secundária, que receberia os painéis VES”, explica José Guilherme Aceto, diretor da Avec Design. Por exigência do prazo estabelecido para a entrega da obra, a montagem da estrutura e a fabricação dos vidros tiveram de ser simultâneas.

O método VES consiste no uso de perfis de borracha de silicone HTV colados estruturalmente no perímetro da placa de vidro, de modo que a peça encapsulada resulte num corpo rígido central com bordas
flexíveis, proporcionadas pelo composto siliconado. “Tecnicamente, o sistema ofereceu facilidade de aplicação, pois um caixilho metálico convencional seria inviável”, informa Aceto.

Ele explica que a borracha de silicone vulcanizada a alta temperatura (HTV) é um elastômero inorgânico, compatível com o vidro - ambos são à base de sílica. Assim, consegue-se obter um painel emborrachado, com medidas precisas, que pode ser aplicado em qualquer tipo de estrutura, seja de alumínio, de aço ou de madeira. Segundo Aceto, o sistema não gera retrabalho nem vazamento, porque os acessórios são formados por silicone estrutural e as garras e presilhas são de aço inoxidável. Além da colagem, as garras ajudam a sustentar o peso do painel horizontalmente durante a cura do silicone, ao passo que as presilhas fazem o mesmo papel no sentido vertical. Ambas ficam incorporadas ao conjunto.

Para efeito de comparação, Aceto comenta que as borrachas orgânicas originárias do carbono (petróleo ou seringueiras) sofrem degradação, trincam e perdem a flexibilidade. O silicone, por sua vez, é o único elastômero inorgânico que não tem carbono em suas moléculas, o que o torna mais resistente ao envelhecimento e às radiações ultravioleta. “Essas borrachas inorgânicas oferecem excelente desempenho a altas e baixas temperaturas, encontrando aplicações em aeronaves, espaçonaves e até em fornos de fogões”, exemplifica o diretor da Avec Design.

Passarela de transferência

A estação Alto do Ipiranga também se destaca por seus elementos de circulação de usuários, como a passarela que transpõe os trilhos. Com estrutura metálica modulada e lajes do tipo steel deck, ela fica totalmente suspensa no ar, sem nenhuma pilastra, liberando espaço para os usuários nas plataformas laterais de chegada e saída dos trens. Sua estrutura está fixada ao teto do túnel por dez tirantes de cada lado.

Essa passarela de transferência funciona como um mezanino entre a praça de distribuição das escadas rolantes e as plataformas de embarque/desembarque. Nela foram instalados, em ambos os lados, escadas metálicas com corrimãos de aço inoxidável e guarda-corpos de vidro laminado.

Sistema construtivo

Com poço central de 32 metros de diâmetro, a estação subterrânea foi executada pelo método não destrutivo. A arquiteta Sônia Regina explica que o novo conceito de posicionamento do poço de emboque, escavado para o início dos trabalhos, mostrou ser uma solução mais rápida e econômica. Isso porque se diminuiu sensivelmente a quantidade de escavação da obra enterrada, uma vez que não foi preciso abrir túneis de ligação - geralmente utilizados como elementos de transição entre as estruturas verticais do poço e o túnel que abriga o corpo da estação.

A seção do túnel da estação, com pé-direito duplo, para acomodar a passarela de transferência e os dutos de insuflação de ar, também é uma característica inovadora. Além de valorizar a amplidão do corpo da estação, tornando-o mais arejado, dilui a sensação da grande profundidade em que está situado, observa a arquiteta.

As escadas rolantes são mais rápidas que as usualmente instaladas pelo Metrô: vão a 0,75 m/s, superior aos 0,65 m/s das demais. Na ausência de pessoas, no entanto, a velocidade diminui para economizar energia. Também foi facilitado o deslocamento dos usuários, que não precisam dar voltas para chegar ao próximo patamar - as escadas vão surgindo pela frente, em seus três lances. Para circulação vertical existem ainda dois elevadores, um deles destinado a deficientes físicos.

Texto resumido a partir de reportagem
de Jaime Silva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 51 Dezembro de 2007

 
Com estrutura metálica e lajes do tipo steel deck...
 
... a passarela é atirantada ao teto do túnel
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