Alexandre Chan: Terceira ponte sobre o lago Paranoá, Brasília

Curvas de aço
sobre o Paranoá

Comunicação viária compõe uma nova articulação no tecido urbano, ampliando sua importância formal e paisagística ao se constituir em monumento e ponto de referência na cidade

A terceira ponte sobre o lago Paranoá liga o Setor de Clubes Esportivos ao de Habitações Individuais Sul, atendendo às cidades de Paranoá e São Sebastião, que representam quase 6% da população do Distrito Federal. 

É um mirante de onde se descortinam o horizonte e o pôr-do-sol na capital federal. Com projeto bem resolvido, tanto técnica quanto esteticamente, a terceira ponte venceu alguns desafios técnicos. Ela é composta por um tabuleiro, com largura de 26,10 m, que tem parte de sua carga suportada por estais ancorados em três arcos, solução que reduz os pontos de pilares e fundações da construção.

Posicionado a baixa altitude em relação ao nível do espelho d’água, o tabuleiro tornou o vão quase rasante na visão de quem percorre todo o percurso de cerca de 1.200 m, reduzindo, assim, as possibilidades monumentais. Neste caso, a monumentalidade foi provida pelo formato escolhido para o sistema estrutural da ponte e pela opção por grandes vãos.

A ponte foi construída 18 m acima do nível máximo da água do lago. Seu percurso em planta tem arcos com raio de 3.150 m, construídos com aço SAC-50. São três arcos centrais, cada um deles com vão de 240 m, que fazem o percurso em diagonal sobre o tabuleiro, tendo dois pontos de apoio dentro do lago e ancorando estais de aço.

A monumentalidade estrutural busca, ainda, a emoção do usuário, quando os arcos cruzam diagonalmente e em seqüência o espaço aéreo do tabuleiro, apoiados em pontos opostos e formando planos inclinados com as seqüências radiadas dos estais, dispostos nas laterais das pistas de rodagem.

Os arcos estão aparentemente apoiados em quatro pontos do espelho d’água, produzindo reflexos inusitados. O sistema de iluminação, que destaca a leveza do conjunto, parte da idéia de que uma ponte não é desenhada apenas para a travessia de pessoas e veículos, mas também para ser vista à noite. Por isso, a obra recebeu, além da iluminação utilitária, essencial para o trânsito, a navegação ou o vôo, a de realce, que mostra suas formas no escuro. Foi aplicada luz direta nos arcos e em suas bases, bem como nas bases dos estais.

A ausência de luz de realce na face inferior do tabuleiro destaca arcos e cabos iluminados, contra a escuridão da noite. O traçado descontínuo dos arcos confere, de maneira inovadora, à tecnologia arrojada um componente quase poético nas duas escalas do usuário - que passa sob eles ou que os observa de longe.

O edital do concurso nacional de estudos preliminares de arquitetura determinava que o projeto deveria considerar a importância da construção em termos paisagísticos e de articulação urbana com os novos setores da cidade, além do fator economia.

A forma de uma nova ponte surge principalmente da geometria ditada pelo equilíbrio das forças estruturais nela incidentes. Seu desenho também refletirá sempre o momento e o grau de evolução da engenharia estrutural, dos materiais e dos métodos construtivos acessíveis.

Ao desenvolver as concepções de arquitetura, partido estrutural e formal de sua proposta, o arquiteto Alexandre Chan convidou o engenheiro Mário Vilaverde para fazer o projeto de engenharia e de cálculo. A obra reflete o resultado de um casamento perfeito entre a arquitetura e a engenharia.

A visão abrangente do arquiteto previu a observação a partir da ponte e também de seu entorno. A visão aérea será a do primeiro marco da cidade na orientação leste-oeste do aeroporto, tendo o efeito visual de um pulo seqüenciado sobre as pedras de um riacho.

A sensação ótica prossegue quando a ilusão sugerida de túnel aberto, na visão do observador, posicionado no tabuleiro, soma-se à dinâmica da pista, também em trajeto curvo, evoluindo seu ponto de vista motorizado em relação aos arcos e à paisagem. A estrutura torna-se então “móvel” e, ainda assim, perfeitamente estática.



Ficha Técnica

Ponte sobre o lago Paranoá
Local Brasília-DF
Empreendedor Novacap, governo do Distrito Federal
Definição de projeto Concurso nacional de estudos preliminares de arquitetura com 98 equipes concorrentes, 3 premiados e 4 menções honrosas, em 4/12/98
Conclusão setembro de 2002
Arquitetura, partido estrutural e formal Alexandre Chan
Projeto de engenharia e cálculo Mário Jaime dos Reis Vilaverde, Filemon B. de Barros e Piotr Slawinski
Construção Via Engenharia e Usiminas
Projetos executivos Projconsult/CJ Projetos e Consultoria de Arquitetura

Texto de Cida Paiva| Publicada originalmente em Finestra na Edição 32
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