Botti Rubin Arquitetos: Edifício Pátio Victor Malzoni, São Paulo

Casa histórica define novo edifício

Um vão livre de 40,5 metros de largura acomoda, em um dos quadriláteros mais caros de São Paulo, uma construção histórica do século 17 - a Casa Bandeirista - e um megaedifício comercial - o Pátio Victor Malzoni.

Construída no início do século 17, a Casa Bandeirista já foi residência, clínica psiquiátrica e até estacionamento. Localizada na avenida Brigadeiro Faria Lima, em um dos quadriláteros mais valorizados de São Paulo, a construção tombada pelo Condephaat, órgão estadual de patrimônio histórico, foi o ponto de partida para a elaboração do projeto do edifício Pátio Victor Malzoni, concebido pelo escritório de arquitetura Botti Rubin.

Além da preservação, os incorporadores queriam um empreendimento de duas torres com acessos independentes, subsolos comuns, átrios e áreas externas imponentes, grandes lajes e que atendesse às certificações Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) e National Fire Protection Association (NFPA).

O edifício deveria ser o novo marco da Faria Lima. Suas características - 167.693,36 metros quadrados de área construída, 19 andares, lajes de até 3,7 mil metros quadrados, vão central livre com pé-direito de 30 metros, fachadas totalmente envidraçadas - garantem a magnitude do empreendimento, que, apesar de constituído como um monobloco construtivo, desdobra‑se em dois edifícios geminados.

O menor (bloco A) está instalado na esquina da avenida com a rua Aspásia, e o maior (bloco B/C) encontra‑se na confluência da mesma avenida com a rua Horácio Lafer. Este último, por sua vez, tem duas configurações: a face maior tem 19 andares e acomoda todos os elevadores; a menor, com 11 pavimentos, possui ponte de interligação entre os edifícios.

De acordo com o arquiteto Marc Rubin, “a implantação foi pensada para permitir a travessia de pedestres, no horário comercial, e o prolongamento visual entre a avenida e a rua Joaquim Floriano”.

Sem poder receber nenhuma espécie de intervenção na área envoltória, a Casa Bandeirista foi totalmente restaurada. Em função da proteção correspondente a um raio livre de dez metros, tanto acima quanto abaixo do terreno, os seis subsolos que contornam o imóvel histórico possuem o formato de ferradura.

“Projetar um edifício em forma de arco permitiu o aproveitamento integral do potencial construtivo do lote, a criação de grandes lajes - demanda dos incorporadores - e a visualização da casa tombada a partir de das vias Joaquim Floriano, Iguatemi e Faria Lima, estabelecendo um diálogo entre o passado e o presente, entre o pueril e o tecnológico”, explica a arquiteta Simoni Waldman Saidon, coordenadora do projeto.

Com os prolongamentos das vias realizados em área subtraída do quadrilátero do terreno, originalmente com 19.196,80 metros quadrados, o edifício passou a ocupar 16.996,68 metros quadrados. “A implantação paralela com recuo menor na avenida Faria Lima permitiu a criação de uma importante área de paisagismo na fachada oposta, voltada para a rua Iguatemi”, explica Simoni.

O desnível de cinco metros foi resolvido com o térreo em dois níveis, um na Faria Lima, com área de embarque e desembarque dos carros, e outro na rua Iguatemi, destinado a recepção do edifício e áreas de acesso. Em ambos o pé-direito é duplo e a ligação entre eles se dá com escadas fixas e rolantes, e através de elevadores para acessibilidade física.

“Os dois níveis se desenvolvem sob pilotis e apenas o core, com salas técnicas e elevadores, tem vedação fixa com caixilhos de alumínio. As demais áreas são abertas com detalhe de folhas de vidro, não encaixilhadas e recolhíveis, para eventualmente barrar chuva”, completa Simoni.

O grande vão livre com 30 metros de altura e 40,5 de largura, na área central do edifício, se deu em função da Casa Bandeirista, pois além da área que ela ocupa foram preservados dez metros em cada lado para não haver interferência no patrimônio tombado.

Devido à diferença no ritmo das obras, para a execução da torre e o restauro da antiga casa houve a necessidade de separação entre os canteiros. Dessa forma, ambos os trabalhos puderam ser feitos paralelamente.

FACHADAS ENVIDRAÇADAS
As fachadas são totalmente constituídas por dois tipos de vidro - um azul mais claro para o vão-luz, outro mais escuro para revestir elementos estruturais (vigas e pilares). “A diferença entre as tonalidades deu origem a uma grelha envidraçada com alto desempenho térmico. O vidro mais claro possui fator solar de 31% e transmissão luminosa de 5% e o mais escuro, 36% e 17%, respectivamente”, explica a arquiteta Cláudia Mitne, gerente de Marketing da Glassec.

Segundo Simoni, “a especificação dos vidros do vão‑luz dependeu de análises realizadas na obra para a confirmação de desempenho estético e de simulações de eficiência energética das amostras, para garantir que as metas de economia de energia fossem atingidas”.

Para o superintendente de construção da Brookfield Incorporações, Gabriel Meibach Meneghin, “a escolha dos vidros gerou maior economia de energia, atendendo a um dos requisitos para obter a certificação Leed Core & Shell. Além do fator solar, eles permitem baixa transmissão de calor para dentro do edifício e alta luminosidade, otimizando o uso do ar-condicionado e de iluminação”.

Para a construção das fachadas foi utilizado o sistema unitizado da Alcoa com perfis fabricados a partir de alumínio reciclado, chamado pela empresa de perfil verde.

“São perfis produzidos com no mínimo 80% de conteúdo reciclado e 20% de alumínio primário, e as obras que os utilizam recebem uma declaração ambiental que atesta essa proporção. Eles têm grande redução de impactos ambientais e contribuem para suprir a demanda de construtoras por empreendimentos sustentáveis e pela obtenção de certificados”, explica Meneghin.

Com modulação de 1,25 metro x 3,90 metros, a caixilharia recebeu vidros laminados de dez milímetros colados com silicone nos perfis com bitola de cem milímetros, que receberam acabamento em pintura eletrostática na cor preta. Executada em 11 meses pela Luxalum, a fachada tem 36 mil metros quadrados de vidro. Também foram instalados na obra 5 mil metros quadrados de painel de alumínio composto.

Para dar mais transparência ao hall do piso térreo, a fachada nesse trecho foi executada com o sistema de vidro estrutural, com fixação dos painéis em quatro e dois pontos através de peças de aço cromado. Os vidros são laminados e serigrafados brancos de 20 milímetros.

Para garantir a vedação da fachada, um protótipo foi testado no laboratório do Instituto Tecnológico da Construção Civil (Itec). De acordo com Meneghin, “na verificação da penetração de ar sob pressão de 50 pascals foi detectada a velocidade máxima de ar de 0,41 m/s; na verificação de estanqueidade de água sob pressão de 140 pascals durante o período de 15 minutos, não houve ocorrência de penetração de água; nos ensaios de deformação e de pressão positiva e negativa todos os elementos atenderam às exigências da NBR. Não foi necessário fazer o ensaio de pressão do vento, pois o prédio possui apenas 85 metros a partir do nível da avenida Faria Lima”.

Com dimensões de 5.010 x 7.815 milímetros, o protótipo da fachada foi produzido com quatro quadros compostos por duas folhas fixas e dois quadros contendo uma folha fixa e uma móvel do tipo maxim-ar.



Ficha Técnica

Obra: Edifício Pátio Victor Malzoni
Cliente: Brookfield Incorporações e Maragogipe Investimentos e Participações
Local: São Paulo, SP
Projeto: 2008
Conclusão da obra: 2011
Área do terreno: 19.196,80 m2 (área original); 2.016 m2 (área doada para prolongamento da rua Iguatemi); 184,12 m2 (área referente ao alargamento da rua Aspásia); 16.996,68 m2 (área remanescente)
Área construída: 167.693,36 m2
Arquitetura: Botti Rubin Arquitetos
Construção: Brookfield
Fachadas: Mário Newton Leme (consultoria); Luxalum (fabricação e montagem)
Estrutura metálica: Grupo 2 (projeto)
Estrutura de concreto: Escritório Técnico Júlio Kassoy e Mario Franco
Restauro da Casa Bandeirista: Arruda Associados
Fotos: Cláudio Hirata

Fornecedores

Glassec Viracon, Cebrace (Vidros)
Alcoa (Perfis de alumínio linha verde)
Somfy (Automação de fachadas) 
Metallon (Estrutura metálica da fachada)
Tecnosystem, Metalúrgica Rota (Estrutura metálica do térreo)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 74
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