José Lucena Arquitetura: BCP Alphaville

Fachadas contínuas unificam torres

Com três torres abrigadas por um bloco único com recuos e volumes escalonados, o complexo Brascan Century Plaza, em Alphaville, tem sua unidade garantida por fachadas curvas e planas de vidro laminado, assim como pelo lobby envidraçado com pé-direito de 43 metros.

Num prazo previsto de dez anos, Alphaville terá um superempreendimento imobiliário que compreende cerca de 30 edifícios nas categorias residencial, comercial e de hotelaria. Trata-se do projeto urbanístico Master Plan, da Brookfield Incorporações, que ao final terá cerca de 1 milhão de metros quadrados de área construída dividida, por uma via de acesso, em dois lados: Green Valley 1 e Green Valley 2.

O ponto de partida e âncora desse complexo é o edifício Brascan Century Plaza Alphaville (BCP), que tem 132 mil metros quadrados distribuídos em três torres com volumetrias diferentes, porém unificadas por passarelas internas e fachadas contínuas.

Construído dentro de um local com lagos e espécies da mata atlântica, o BCP Alphaville tem como destaque a comunicação com as áreas preservadas, com os edifícios que serão construídos e com a comunidade. Desenvolvido por José Lucena, Darrel Martinez e David Maldonado, do escritório José Lucena Arquitetura, o projeto arquitetônico combina um shopping center na base e três torres comerciais unificadas, porém com padrão definido pelo tamanho de suas lajes - escritório, corporativo intermediário e corporativo.

O volume à esquerda, inserido a 45 graus, compreende lajes do corporativo intermediário de cem metros quadrados. Em seguida estão as salas do padrão escritório, também chamado office, com lajes de 40 metros quadrados. À direita estão os pavimentos corporativos de 1,3 mil metros quadrados. O bloco se diferencia pelos seus recuos e fachadas curvas. O conjunto terá uma entrada principal que distribuirá o fluxo para as três torres.

“O cliente chegou com o programa pronto e nós tivemos que encontrar uma solução para colocá-lo em oito vezes o tamanho do terreno e fazer todas as interligações com o externo”, lembra o arquiteto José Lucena. Em função do recuo que deveria haver entre as torres, vizinhança e rua, o terreno de 10.537,93 metros quadrados não comportava a construção delas separadamente. A resposta foi unificá-las e trabalhar com o escalonamento das lajes.

O edifício tem 42 pavimentos superiores, dois térreos em desnível com pé-direito duplo, cinco subsolos com 2 mil vagas e um heliponto. Dividido em dois níveis - dois térreos, um deles na avenida Andrômeda -, o shopping tem 11 mil metros quadrados.

ESCALONAMENTO
O escalonamento, fundamental nesta obra devido às necessidades do projeto, acabou atendendo à estética combinada com recuos, torres com alturas diferentes e fachadas com retas e curvas.

“A ideia é olhar e ver um bloco único, com linhas arquitetônicas bem definidas. A lâmina curva, o prédio em 45 graus e as fachadas pele de vidro dão personalidade. Nós trabalhamos a posição do edifício para que de qualquer face seja possível descortinar uma paisagem sem interferência. Na face principal, por exemplo, é possível ver a serra do Japi”, lembra Lucena.

A volumetria escalonada também se originou do formato de cada torre, que deveria combinar entre si. A forma curva, por exemplo, foi ajustada conforme o traçado da rua e o plano reto do volume central. O edifício em 45 graus colocado no outro extremo deu equilíbrio e movimento ao conjunto.

De acordo com o arquiteto David Maldonado, primeiramente foi feito um traçado de aproveitamento de oito vezes a área do terreno para dimensionar como as torres seriam implantadas. “No traçado descobrimos que a unificação seria inevitável, pois para deixá-las independentes o recuo entre elas seria o equivalente à altura do prédio dividida por seis. Para as laterais, o recuo é a altura do edifício dividida por oito e no fundo o recuo é a altura dividida por dez.”

Para os arquitetos, considerar oito vezes a área do terreno verticalmente, respeitar os recuos previstos na legislação e resolver o desnível da rua para criar o térreo e os acessos às torres foram desafios na elaboração do projeto arquitetônico. O shopping tem dois pavimentos térreos com pé-direito de 6,5 metros cada um, sendo que o principal, na avenida Andrômeda, está no desnível de 15 metros acima do outro. Ambos possuem praças intermediárias e áreas de conveniência cercadas de jardins e espelhos d’água.

ENSAIOS DE CARGAS DE VENTO
O prédio tem dois blocos de fundação, cada um deles com 2,5 mil metros cúbicos de concreto. Toda a sua estrutura é de concreto armado, exceto o trecho central logo acima do lobby, onde é de aço. Em função da altura e da massa do edifício e do comprimento de 170 metros de uma ponta a outra, há uma diferença na pressão de vento, maior nos andares superiores.

Para poder tratar essas questões e dimensionar, entre outros itens, a caixilharia, dois protótipos da edificação foram submetidos a ensaios de medição simultânea de pressões externas médias e flutuantes atuantes sobre o envelope do edifício e a ensaios de medição quantitativa das velocidades relativas do vento em pontos selecionados, na região de utilização por transeuntes.

O primeiro ensaio tem por objetivo a obtenção de esforços locais nos elementos de revestimento e solicitações estáticas globais atuantes sobre a estrutura. De acordo com o engenheiro Mário Gustavo Klaus Oliveira, do Laboratório de Aerodinâmica das Construções, “com este estudo é possível ter informações mais precisas sobre a ação do vento na estrutura em relação aos valores indicados nas normas técnicas, pois, além de a forma da edificação não ser contemplada em normas de vento, os ensaios em túnel de vento levam em conta as condições reais de vizinhança em torno do prédio em estudo. Esse fato propicia não somente um projeto mais seguro, como também muito mais otimizado economicamente”.

O segundo ensaio determina o nível de conforto para pedestres, a partir da comparação das velocidades do vento medidas com critérios de conforto e segurança utilizados internacionalmente em engenharia do vento, sendo fornecidas indicações sobre as condições de uso das áreas estudadas. Os dois protótipos tinham escala de 1:400 e apresentavam os detalhes significativos da edificação real, bem como os prédios mais importantes da vizinhança.

Os modelos empregados nos ensaios de medição simultânea de pressões externas foram instrumentados com um total de 520 tomadas de pressão. Já o modelo utilizado nos ensaios para determinação do nível de conforto para pedestres foi instrumentado com 55 sensores omnidirecionais.

Por causa da existência de juntas estruturais no edifício central, os resultados referentes às cargas para dimensionamento da estrutura foram apresentados separadamente para os blocos. Para se chegar ao resultado final, nos dois testes foram realizados ensaios para três configurações de fechamento do vão na parte inferior entre os blocos A e B, combinadas com duas configurações de vizinhança, devidas à ordem construtiva do próprio empreendimento, totalizando seis configurações de ensaio.

“Para cada configuração fizemos ensaios com 24 ângulos de incidência do vento, totalizando 144 ensaios, e, portanto, 74.800 registros de pressões (520 sensores x 144 ensaios) no estudo de medição simultânea de pressões externas, e 7.920 registros de velocidades (55 sensores x 144 ensaios) nos ensaios para determinação do nível de conforto de pedestres”, conclui o engenheiro.

Pelos cálculos realizados no túnel de vento, a movimentação - diferente em cada torre - chega a ser entre 25 e 30 centímetros. Para suportá-la, a junta de dilatação - normalmente de 2,5 centímetros - nesta obra é de seis centímetros. Além da estrutura de concreto, existe uma estrutura de aço instalada no trecho central do volume acima do lobby, a 43 metros de altura.

A utilização da estrutura metálica se deu pela necessidade de fazer o escoramento para concretar a laje no nível do décimo andar da torre corporativa e porque exatamente nesse ponto central estão as juntas de dilatação. Com isso foi mais fácil fazer o berço de concreto e colocar as vigas rompendo os vãos, dando maior velocidade na execução da obra e flexibilidade no conjunto, explicam os arquitetos. Apesar do tamanho, o edifício não tem lajes de transição, portanto não há desvio de pilares, eles estão todos alinhados, e os shafts estão aprumados.

ALINHAMENTO DAS LAJES
As diferentes configurações dos blocos geraram pés‑direitos distintos. Nas lajes corporativas de 1,3 mil metros quadrados a altura de piso a piso é de 4,16 metros. E nas lajes menores essa altura passa a ser de 3,12 metros. Com isso, o alinhamento da fachada e das lajes dos blocos gerou um jogo de encaixe.

“Nos primeiros andares, as torres se comunicam através de duas passarelas instaladas a cada cinco andares do bloco menor e a cada quatro do outro. A primeira ligação se dá entre o quarto pavimento do bloco corporativo e o quinto do de escritórios. A segunda está, respectivamente, no sétimo e no nono andares. Logo acima começa a unificação das lajes das torres correspondente ao décimo andar da laje corporativa e 12º da laje de escritórios. A partir do 25º pavimento do corporativo e 33º do office, as lajes se tornam únicas, pois seus pés-direitos passam a ser iguais, finalizando o conjunto em apenas um volume”, explica Maldonado.

As passarelas e a unificação das lajes existem por exigência do Corpo de Bombeiros com relação à segurança e também para atender à demanda de empresas que querem utilizar um andar inteiro com o intuito de separar sua área corporativa dos demais setores da empresa. Isso também é possível porque os elevadores que servem as torres são independentes e dividem o fluxo.

PROJETO DE FACHADAS
Apesar de a obra já ter um estudo de esquadria, o consultor Mário Newton Leme foi contratado para ajustar o projeto de fachada e adequá-lo às características do empreendimento. “Nós remodulamos as fachadas, redimensionamos as medidas de largura a fim de padronizar a obra, reestudamos as aberturas e previmos janelas maxim-ar. As alterações ofereceram economia para o edifício todo”, comenta Leme.

Neste projeto, a fachada unitizada possui perfis de 0,80 milímetros e cem milímetros. Essa variação se deu em função da altura do pé-direito. A pressão de vento negativa - diferente em determinados trechos - também foi considerada para a especificação dos perfis. Além das ancoragens previstas nas lajes, também se utilizou uma ancoragem complementar na parte inferior da viga. Conforme o consultor, “esse complemento possibilitou a redução do vão livre da esquadria e permitiu trabalhar com um perfil mais leve, originando economia no tocante à caixilharia”.

As fachadas foram revestidas com vidros laminados de dez milímetros desenvolvidos pela Glassec, com chapas de vidro Royal Blue 40, fabricadas pela Guardian. Os vidros estão colados com silicone estrutural em perfis de alumínio da linha Cittá Due, combinados com painéis de alumínio composto na cor prata. Para vedar os mais de 30 mil metros quadrados de área de fachada, foram utilizados 12 mil metros quadrados de painéis de alumínio e 250 toneladas de alumínio pintado na cor branca.

Para fazer o alinhamento da fachada das torres, a montagem ocorreu em tempos diferentes. “A preocupação da parte construtiva foi exatamente chegar a um ponto em que as lajes se alinhassem. As linhas das fachadas não apresentam nivelamento, pois existe um grande pano cego de painéis de alumínio composto dividindo as torres”, explica Leme. No trecho curvo, os painéis de vidros são planos, porém o encaixe do perfil de alumínio absorve a curvatura e dá plasticidade ao pano de vidro.

Leme lembra que em diversos pontos das fachadas existia a necessidade de ventilação. “A previsão era adotar uma grelha de veneziana colocada no centro de um painel de alumínio composto. Esse sistema, além de não garantir estanqueidade, não era esteticamente adequado. A ventilação foi obtida através de uma fresta de aproximadamente 20 milímetros na parte inferior do painel e em toda a extensão do módulo. A estanqueidade foi garantida com a utilização de um perfil interno afastado cerca de 20 milímetros do painel de alumínio composto com altura de 150 milímetros e totalmente vedado na travessa e nas colunas”, ele explica.

As fachadas foram submetidas a ensaios de estanqueidade a água, ar e pressão de ventos, na câmara de testes do Instituto Tecnológico da Construção Civil (Itec). O protótipo utilizado, com 3,75 metros de largura e 6,50 de altura, referia-se ao trecho das esquadrias entre os blocos C e D que já possuíam perfis extrudados.

LOBBY ENVIDRAÇADO
No primeiro trecho do conjunto, em sua área central, a fachada é interrompida por um recuo, que abriga o lobby com pé-direito de 43 metros e 15 metros de largura. Para proteger a recepção do complexo e a área de comunicação entre um lado e outro do shopping, os arquitetos adotaram uma cobertura de vidro com máxima transparência e leveza visual. Responsável pela concepção estrutural e execução, a Tecnosystem projetou uma estrutura metálica vedada com painéis de vidros estruturados em quatro e dois pontos.

A estrutura é composta de braços transversais e vigas tubulares de aço carbono fixadas lateralmente sobre a estrutura de concreto do edifício através de inserts e parabolts. Ela é responsável por distribuir e absorver as pressões externas - vento e chuva -, a carga do próprio peso e vencer o vão sem apoio intermediário.

As vigas apoiam os braços transversais de aço carbono onde estão as peças que fixam os vidros em dois e quatro pontos. Essas peças são garras de aço inox 316 que fazem a interface entre a viga estrutural e o vidro. As juntas de vedação de dez milímetros entre os painéis de vidro receberam silicone de cura neutra.

Para a arquiteta Marilise Pilon, gerente comercial da Tecnosystem, “os principais desafios de calcular e projetar esta cobertura, com 180 metros quadrados de área, testada de três metros e em balanço, foram manter a característica arquitetônica e procurar soluções estruturais que garantissem a segurança e a estabilidade do sistema, vencendo o vão de 15 metros sem interligações transversais entre os elementos”.

Com 1,80 metro de largura e 2,50 de comprimento, o painel de vidro temperado de 20 milímetros foi laminado com a película SentryGlass, da DuPont. Diferente do PVB, que é um elastômero (borracha), esta película é um ionoplástico (plástico). De acordo com o arquiteto David Maldonado, por se tratar de uma cobertura que comporta uma pessoa caminhando sobre ela, o vidro deveria ser mais resistente.

Segundo José Carlos Alcon, diretor para a América Latina do setor de vidros de segurança da DuPont, esse produto atendeu à necessidade do projeto da cobertura por ser cinco vezes mais resistente e cem vezes mais rígido do que as películas convencionais.

“O SentryGlass permitiu a adoção de painéis maiores, mais leves e com menor deflexão, reduzindo os custos com a estrutura de sustentação dos vidros. Por ser um componente estrutural, essa película pode substituir o caixilho”, ele conclui. O material também foi utilizado na laminação dos painéis de vidro aplicados nos guarda‑corpos, que exigiam bordas livres.



Ficha Técnica

Obra: Brascan Century Plaza Alphaville
Cliente: Brookfield Incorporações
Local: Alphaville, Barueri, SP
Área do terreno: 10.537,93 m²
Área construída: 132.291,94 m²
Projeto: setembro de 2007
Conclusão da obra: fevereiro de 2012
Arquitetura: José Lucena, Darrel Martinez e David Maldonado (autores)
Construção: Brookfield Incorporações
Fachadas: Mário Newton Leme (consultor); Algrad (execução)
Ensaios de cargas de ventos: Laboratório de Aerodinâmica das Construções
Ensaios NBR 10.821: Itec
Estrutura metálica: Grupo Dois
Estrutura de concreto: Pasqua & Graziano
Cobertura do lobby: Tecnosystem (projeto e execução)
Fotos: Jefferson Rodrigues

Fornecedores

Glassec Viracon/Guardian (Vidros)
Alcoa (Revestimentos ACM)
Alcoa - linha Cittá Due (Perfis de alumínio)
DuPont (Película)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 73
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