Mira Arquitetos: Confederação Nacional dos Municípios, Brasília

Prisma metálico sobre base de concreto

Escolhido em concurso público organizado pelo IAB-DF, o projeto da sede da Confederação Nacional dos Municípios se materializa na forma de um prisma formado por duas treliças metálicas, de 75 metros de extensão e balanços de 15 metros, apoiadas em apenas dois pontos, sobre o embasamento de concreto

O programa apresentado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) apresentava a necessidade de construção de um edifício de escritórios e de um centro de eventos, que pudessem funcionar de forma autônoma. “A partir dessas premissas, o partido adotado determinou a criação de um espaço metropolitano, em consonância com o contexto urbanístico da cidade, como condição principal para o projeto do novo equipamento”, segundo o arquiteto Luís Eduardo Loiola, diretor de projetos do escritório Mira Arquitetos, responsável pelo projeto arquitetônico.

O plano de ação para a implantação seguiu alguns condicionantes: a formulação de um modelo de ocupação do solo, com ênfase na integração dos usuários com a paisagem construída, a estruturação e hierarquização do térreo, reforçando sua vocação como principal local de convergência, e a adoção de estratégias de gestão ambiental, pois a instituição exigiu um edifício exemplar no tocante à gestão dos recursos naturais.

Os itens de sustentabilidade foram garantidos pelo projeto arquitetônico, através do aumento do desempenho térmico da edificação, com o uso de lâminas de água, telhado verde e cores com alto coeficiente de reflexão. Brises metálicos protegem as fachadas da incidência direta dos raios solares, enquanto a ventilação cruzada, nos ambientes internos, promove conforto ambiental e reduz o uso dos equipamentos de ar condicionado. O projeto também implantou sistema de captação e reutilização das águas pluviais e águas cinzas, para irrigação e em vasos sanitários.

PRISMA FLUTUANTE 

“O eixo de evolução do projeto se materializa na forma de um prisma metálico branco, flutuando delicadamente sobre o embasamento de concreto. O posicionamento da lâmina busca transferir, para dentro do corpo construído, as vistas para a paisagem, incorporando a presença do entorno ao seu uso cotidiano. A disposição dos elementos construídos é uma resposta direta à distribuição do programa no lote”, detalha o arquiteto.

A área construída de 11 mil metros quadrados está distribuída em sete pavimentos - dois subsolos, com lajes de 2.500 metros quadrados, destinados às garagens e áreas técnicas, o primeiro subsolo (térreo inferior), o térreo, mais dois pavimentos e cobertura. A base, formada pelos térreos, abriga as funções coletivas e espaços destinados ao público externo - foyer, salão nobre, salas de apoio, café e restaurante. Os pavimentos superiores, com lajes de 1.250 metros quadrados, estão destinados às áreas administrativas. Na cobertura estão as salas de reunião e praça elevada.

Desenvolvido pelo escritório Kurkdjian e Fruchtengarten Engenheiros Associados o projeto estrutural do edifício adotou dois modelos: “O térreo e os subsolos têm estrutura de concreto armado convencional com lajes, vigas, paredes e pilares moldados in loco. O terceiro subsolo corresponde ao nível das fundações. A partir do primeiro pavimento, o corpo do edifício recebeu estrutura metálica, composta por perfis metálicos, exceto as caixas de elevador e escada, que são de concreto.”, detalha o engenheiro Jairo Fruchtengarten.

Segundo arquiteto Luís Eduardo Loiola, optou-se por dois tipos de estruturas porque o sistema construtivo adotado buscou conciliar necessidades de redução de custos, rapidez de execução e flexibilidade máxima para os planos de trabalho. Para obter todos esses ganhos, estrutura, forros e elementos de vedação foram rigorosamente modulados a partir de múltiplos de 1,25 metro. O embasamento de concreto obedece a criteriosa disposição de pilares, potencializando a disposição de vagas de estacionamento e dos demais espaços internos. A estrutura periférica da caixa metálica elimina completamente a interferência de pilares dos planos de trabalho, permitindo futuras atualizações de layout e prolongando, assim, a vida útil da edificação. As redes de infraestrutura e lógica distribuem-se por forros, pisos e shafts. Uma prumada central de elevadores e escadas faz a integração vertical do edifício e divide os planos de trabalho em dois grandes planos livres.

A estrutura metálica é formada por duas treliças de 75 metros de extensão, apoiadas em apenas dois pontos, gerando vão livre de 40 metros e balanços de 15 metros de cada lado. “A opção pela estrutura metálica nos pisos superiores se deu pela modulação da estrutura e pelos grandes vãos. A solução possibilitou o aproveitamento do sistema misto aço-concreto por meio do uso de conectores, resultando em vigas com altura de apenas 80 centímetros, que se estendem ao longo dos 75 metros de comprimento dos 1º, 2º e 3º pavimentos, exceto nos trechos da passarela de interligação e da caixa de escada e elevadores. Distantes entre si 2,5 metros, as vigas têm aproximadamente 18 metros de distância entre seus apoios (vão)”, explica o engenheiro.

As vigas da estrutura metálica dos pisos superiores apoiam-se em duas treliças longitudinais nas extremidades dos pavimentos. Cada treliça está apoiada em apenas dois pilares de concreto. A estrutura não tem contraventamentos verticais. “A responsabilidade pela estabilidade da estrutura acima do térreo é, em boa parte, da rigidez do núcleo de concreto da caixa de elevadores e escadas, complementada por dois pórticos transversais, formados entre as vigas do piso e os montantes da treliça metálica”, explica Jairo Fruchtengarten. Para o dimensionamento dessa estrutura foram previstos revestimento de 150kgf/m2, considerando forro e piso elevado, e sobrecarga de ocupação de 300 a 500kgf/m2.

O edifício tem trechos em balanços nas extremidades que equilibram a estrutura e definem plasticamente a arquitetura proposta. Visualmente o prisma metálico parece flutuar sobre o embasamento de concreto. São treliças de fachada com 15 metros em balanço que sustentam os pisos do 1º ao 3º andar. Por sua vez, a sustentação dos balanços se dá em apenas dois pilares de concreto.

BASE DE CONCRETO 

A proposta do projeto se desenvolve através de uma praça, levemente rebaixada em relação à cota média do terreno, que se desdobra em dois níveis, resultando em uma nova topografia para o lote. No térreo, espelhos d’água orientam o percurso do pedestre rumo à recepção, configurando o acesso às áreas administrativas. Na cota inferior, inscrita na volumetria da base, encontra-se a praça cívica,  por onde é possível acessar o complexo do centro de convenções. Uma escadaria conecta os dois planos, permitindo a realização de eventos de forma autônoma, sem prejudicar a rotina de trabalho administrativo.

De acordo com Jairo Fruchtengarten, como o térreo e subsolo têm vãos menores, a solução mais econômica foi a utilização do concreto. A estrutura do térreo não tem a mesma projeção dos pisos inferiores e superiores. Ela é segmentada basicamente em três trechos: dois espelhos d´água, nas extremidades, e um piso para circulação, na parte central. Desta forma, a praça cívica e o foyer no primeiro subsolo ficam com pé-direito duplo de aproximadamente oito metros. No embasamento há diversas paredes que delimitam os volumes da estrutura e servem como apoios. Tratam-se de pilares parede que sustentam o volume do espelho d´água e estão alinhados com as divisórias, que delimitam as salas moduláveis. A estrutura dos subsolos segue uma modulação de pilares distribuídos, aproximadamente, a cada 7,5 metros com altura de 10 metros. Toda a estrutura metálica dos pisos superiores se apoia em apenas quatro destes pilares.

“A estrutura da nova sede da CNM resulta de uma proposta arquitetônica que explora as vantagens do emprego do aço e do concreto. Os grandes vãos nos pisos superiores e o grande balanço das treliças de fachada exigiram um estudo acurado das deformações da estrutura. Além disso, com diversas paredes em concreto aparente, precisou haver uma estreita comunicação entre projetista, arquiteto e construtora para evitar patologias. Em função desses desafios, o projeto da nova sede da CNM ficou entre os cinco finalistas do Prêmio Talento Estrutural de 2015”, explica Fruchtengarten. 

BRISES METÁLICOS 

A prioridade do projeto de fachadas era a possibilidade de ampla iluminação natural e a abertura de vistas para a paisagem. Após estudos de incidência solar, realizados a partir de modelos 3D, as fachadas de vidro ganharam elementos de sombreamento. São quatro fachadas com vidros laminados e temperados de 10 milímetros de espessura, protegidas por uma segunda pele de brises metálicos. A utilização de caixilhos móveis permite a abertura em alguns pontos, proporcionando ventilação cruzada. E a segunda pele permite a ventilação por convecção nas fachadas norte e sul.

De acordo com o arquiteto Luís Eduardo Loiola, as fachadas receberam brises de aluzinco, instalados a 0,625 metros da face envidraçada. Neste espaço criou- se uma passarela técnica, que permite a manutenção dos vidros. Foram empregados dois tipos de brises da Hunter Douglas. As faces norte e sul são protegidas pelo modelo Celosia C40E, composto por réguas perfuradas com cinco milímetros de espessura e 3,75 metros de comprimento. Dispostas na horizontal a cada 61 milímetros, as réguas são fixadas em estrutura secundária, ligada à estrutura da fachada. Nas fachadas oeste e leste, respectivamente, frontal e posterior, foi aplicado o brise Quadribrise com réguas de cinco milímetros de espessura e 2,50 metros de comprimento, dispostas na horizontal, a cada 100 milímetros.

As lâminas leste e oeste avançam o corpo do edifício 1,25 metro acima do piso de cobertura. Tal solução permitiu corrigir a volumetria do edifício, proporcionando um alinhamento com os volumes de caixa d’água e também para sombrear a cobertura. A estrutura do fechamento é distinta da estrutura do edifício. Ela se apoia nas treliças da estrutura principal e, em pontos específicos, existem consolos metálicos, que apoiam as réguas da estrutura de fechamento.



Ficha Técnica

Nova sede da Confederação Nacional de Municípios
Cliente Confederação Nacional de Municípios
Local Brasília, DF
Área do terreno 5.000 m2
Área construída 11.000 m2
Projeto 2010
Conclusão da obra 2016

Arquitetura Mira Arquitetos - Luís Eduardo Loiola e Maria Cristina Motta (autores), Ana Carolina Sumares, Luís Felipe da Conceição, Marcelo Ribas, Luisa Leme Simoni e Gabriela Lira Dalsecco (colaboradores)
Estrutura Kurkdjian e Fruchtengarten
Fundações Mag Solos
Instalações prediais MHA
Luminotécnica Lux Projetos
Caixilhos Dinafex
Construtora Soltec Engenharia

Fornecedores

Estrutura metálica CPC
Brises e forro de madeira Hunter Douglas
Forro mineral Knauf AMF
Forro grade Grademax
Vidros Saint Gobain
Pastilhas Vidrotil
Piso elevado externo e interno Total Piso
Esquadrias Safra

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 102
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