Procel Edifica

Etiquetagem chega às obras residenciais

O setor de edificações residenciais já pode ter sua eficiência energética reconhecida pelo selo Procel Edifica. A adesão é voluntária e a Eletrobras fará um manual mais didático que a documentação técnica para orientar o segmento da construção de habitações.

O setor de edificações residenciais acaba de ganhar a possibilidade de ter reconhecida a eficiência energética das construções por meio do selo Procel Edifica, antes restrito a imóveis comerciais, de serviços e públicos. Trata-se da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia para residências e edifícios multifamiliares, iniciativa do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE), coordenado pela Eletrobras e pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro).

O documento Requisitos Técnicos da Qualidade para o Nível de Eficiência Energética de Edificações Residenciais (RTQ-R), no qual se baseia a etiquetagem, foi desenvolvido pela Secretaria Técnica de Edificações, coordenada pelo Procel Edifica, da Eletrobras, e pelo Laboratório de Eficiência Energética em Edificações da Universidade Federal de Santa Catarina, que conta com a participação de especialistas de diversas universidades brasileiras e representantes de instituições do setor da construção civil.

No Brasil, a energia elétrica consumida pelo setor industrial fica em torno de 46%, quase igual ao valor representado pelos edifícios, que é de 45% - e, dentro desta parcela, o consumo do setor residencial supera 22%, os prédios comerciais ficam com 15% e os públicos, com 7,6%. Isso demonstra a importância da redução do uso de energia nas edificações, preocupação crescente na construção civil, tanto nos novos projetos como nos retrofits.

Por meio da eficiência energética, a meta geral do Procel para a redução de consumo até 2030 é de 10% da demanda, o equivalente a 106 TWh. O consumo em 2008, no Brasil, foi de 434 TWh e a previsão para 2017 é de 706 TWh.

Para garantir o conforto nos empreendimentos e a redução do consumo de energia, as principais estratégias devem ser a coordenação de projetos na fase de concepção da obra, a utilização de ferramentas de simulação termoenergética, a redução de desperdícios na execução, o uso de aquecimento solar ou de outra fonte eficiente, o aproveitamento da ventilação e da iluminação naturais, o uso de automação, equipamentos de baixo consumo de energia e materiais de construção economizadores de energia.

O assunto é estratégico para o país e também para o mercado imobiliário, pois os consumidores estão cada vez mais preocupados com a questão da sustentabilidade das edificações e com os gastos de condomínio. Neste caso, há uma feliz coincidência entre redução de custos e economia de energia elétrica e de água.

CASA EFICIENTE
O RTQ-R, por si só, é um documento bastante detalhado e especifica os diversos requisitos técnicos para iluminação e ventilação naturais e aquecimento de água, bem como métodos para a classificação de edifícios residenciais quanto à eficiência energética. Além disso, as edificações submetidas ao documento devem atender às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

De acordo com Estefânia Mello, arquiteta do Procel Edifica da Eletrobras, a entidade vai elaborar um manual, mais didático que o documento, para que o setor de construção residencial possa se orientar com facilidade quanto às prescrições. Vale lembrar que a adesão ao Procel Edifica residencial é voluntária, tal como para os prédios comerciais.

“A etiquetagem para residências se baseia na classificação da envoltória e no sistema de aquecimento de água, que nesse caso significa parte importante do consumo de energia em uma casa. A metodologia do RTQ-R foi criada especificamente para o setor residencial. A casa eficiente deve garantir iluminação e ventilação naturais, fachada de cor clara para refletir o calor e garantir sua transmitância térmica, que é ter boa resistência à quantidade de calor que passa por ela, entre outros requisitos”, explica Estefânia.

Nas unidades residenciais autônomas e unifamiliares, o programa analisará o desempenho da envoltória (fachada e cobertura) e o sistema de aquecimento de água. Quando houver mais de uma unidade habitacional autônoma no mesmo lote, para a obtenção dos níveis de eficiência A ou B elas devem possuir medição individualizada de eletricidade e água. Estão excluídas desses pré-requisitos as edificações construídas até a publicação do RTQ-R.

Nos empreendimentos multifamiliares ou condomínios de edificações residenciais, além desses itens, a avaliação incluirá equipamentos e áreas externas e comuns. Os empreendimentos receberão pontuação em relação a ventilação e iluminação naturais, uso racional de energia, condicionamento de ar e medição individualizada em apartamentos (veja a tabela de classificação do nível de eficiência).

“No caso de prédios, cada apartamento será analisado individualmente, pois, dependendo da face em que está, a eficiência energética é distinta. Cada um deles receberá uma etiqueta. A etiqueta do edifício, portanto, será resultado de uma ponderação de todas as unidades e também das áreas comuns”, destaca Estefânia.

Estefânia informa ainda que a etiquetagem de edifícios residenciais ocorre em duas etapas: a de projeto, em que é realizada uma análise detalhada e atribuídos os pontos; e a de inspeção, feita depois da construção e antes da entrega das chaves, que verifica a implementação do que foi previsto em projeto. Além disso, em caso de prédios e condomínios são avaliadas as áreas de uso comum, como sauna, playground, piscina e outros equipamentos.

ENVOLTÓRIA
Os desempenhos da fachada e da cobertura serão avaliados em cada ambiente separadamente, sobretudo nos de permanência prolongada, como salas e quartos. Esses itens são tratados de forma detalhada no documento. Os pré-requisitos de transmitância térmica, capacidade térmica e absortância solar das paredes externas e coberturas de ambientes de longa permanência devem ser atendidos, ainda, de acordo com a zona bioclimática em que a edificação se localiza (veja a tabela ao lado).

O RTQ-R detalha ainda os requisitos de ventilação natural e estabelece percentual de áreas mínimas de abertura em relação à área de piso dos ambientes. As unidades devem possuir ventilação cruzada, proporcionada pelas aberturas externas e internas. Portas de acesso principal e de serviço não serão consideradas para essa finalidade.

Assim, o projeto de ventilação natural deve promover condições de escoamento de ar entre as aberturas localizadas em pelo menos duas diferentes fachadas (opostas ou adjacentes) e orientações da edificação, permitindo o fluxo necessário para atender a condições de conforto e higiene. Como pré-requisito para a obtenção do nível A, o mais alto, nos ambientes de permanência prolongada devem-se garantir condições de ventilação controlável, com proteções à chuva e segurança.

Essa ventilação deve dar ao usuário a opção de utilizá-la quando necessário, permitindo a regulagem de fluxo. Para se ter uma idéia dos critérios, o não atendimento desse pré-requisito, por exemplo, implica a obtenção de, no máximo, nível B no equivalente numérico da envoltória.

ILUMINAÇÃO NATURAL
Com relação à iluminação natural em ambientes de permanência prolongada, para obter o nível A, o acesso a ela deve ser garantido por uma ou mais aberturas para o exterior. A soma das áreas de abertura para iluminação natural deve corresponder a, no mínimo, 1/8 da área do piso. Para esse cômputo é considerada apenas a área passível de desobstrução total, excluindo caixilhos. O não atendimento a esse pré-requisito também implica a obtenção de nível B na envoltória.

Para conseguir nível A nas cozinhas, banheiros, áreas de serviço/lavanderias, com exceção dos lavabos, o acesso à iluminação natural deve ser garantido por uma ou mais aberturas para o exterior. A soma das áreas de abertura para iluminação natural desses ambientes deve corresponder a no mínimo 1/10 da área do piso.

No RTQ-R também há informações completas a respeito do procedimento para a determinação da eficiência da envoltória, de acordo com método de simulação computacional termoenergética. Levando-se em conta os pré-requisitos de ventilação e iluminação naturais, deve-se modelar a geometria da edificação e realizar simulações para duas condições: uma para o edifício naturalmente ventilado e outra para aquele condicionado artificialmente.

Há também capítulos dedicados ao dimensionamento da iluminação artificial, aos sistemas de aquecimento de água (elétrico, solar ou a gás) e de condicionamento artificial de ar, bombas centrífugas, elevadores etc. Estes serão computados como bonificações, que entram na ponderação da etiquetagem.

O método de simulação compara o desempenho do edifício sob avaliação com os valores de referência das tabelas de classificação dos níveis de eficiência energética da envoltória, disponíveis no site www.procelinfo.com.br/etiquetagem_edificios, cujas características devem estar de acordo com o pretendido.

Como nos prédios comerciais, dependendo do consumo de energia verificado, os edifícios residenciais serão classificados de A a E, sendo A o mais eficiente. Para cada categoria de edificações residenciais o RTQ-R atribui uma equação que leva em conta a pontuação e a região geográfica (veja a tabela coeficientes da equação).

Nove edifícios já receberam a etiqueta: Casa Eficiente; protótipo de habitação de interesse social, em Florianópolis; Residencial Moai, em São Paulo; Residencial Flex Guarulhos, em Guarulhos (SP); Residencial SJ1, em São José (SC); Travertino, em Palhoça (SC); Condomínio Atlântida, em Xangri-Lá (RS); e outras duas residências em Chapecó (SC) e Frei Rogério (SC).

CRITÉRIOS PARA A ETIQUETAGEM DAS EDIFICAÇÕES RESIDENCIAIS:

UNIDADES HABITACIONAIS AUTÔNOMAS: avaliam-se os requisitos relativos ao desempenho térmico da envoltória, à eficiência do(s) sistema(s) de aquecimento de água e a eventuais bonificações

EDIFICAÇÃO UNIFAMILIAR: aplica-se o mesmo procedimento acima para a unidade habitacional autônoma

EDIFICAÇÕES MULTIFAMILIARES: pondera-se o resultado da avaliação dos requisitos de todas as unidades habitacionais autônomas da edificação

ÁREAS DE USO COMUM: avaliam-se os requisitos relativos à eficiência do sistema de iluminação artificial, do(s) sistema(s) de aquecimento de água, dos elevadores, das bombas centrífugas, dos equipamentos e de eventuais bonificações

De acordo com a pontuação final obtida é atribuída uma classificação que varia do nível A (mais eficiente) ao E (menos eficiente).

REGULAMENTO REVISTO PARA OS EDIFÍCIOS COMERCIAIS:
Criado em 2003 e revisto em 2005, o Procel Edifica para empreendimentos comerciais, de serviços e públicos passou por mudanças em seu regulamento técnico, em vigor desde o final do ano passado. Mais simplificado e com pré-requisitos atualizados, o novo texto traz modificações no método prescritivo para aperfeiçoar o RTQ-C no item iluminação, pois a metodologia existente estava onerando alguns empreendimentos, segundo Estefânia Mello, arquiteta do Procel Edifica da Eletrobras.

“Antes considerávamos a geometria do projeto, e agora consideramos a densidade de potência instalada nos ambientes. Passamos a contar também com duas metodologias, uma para edifícios mais simples e outra para empreendimentos complexos. Além disso, o aquecimento de água a gás foi inserido entre os sistemas de economia de energia. Antes não era citado. No item condicionamento de ar deixamos mais clara a metodologia”, ela informa. Veja as principais mudanças do novo texto do regulamento técnico:

- Novo método de cálculo para o sistema de iluminação do prédio

- Ampliação dos sistemas de aquecimento de água, que antes previa apenas o solar e agora inclui também o aquecimento a gás

- Limite da absortância (cor das paredes) da envoltória para o nível A

- Maior exigência para os limites de eficiência do ar-condicionado, segundo critérios da Ashrae 90.1

- Requisito de eficiência também para os elevadores

O objetivo do Procel Edifica para empreendimentos comerciais é fomentar a pesquisa e a capacitação para economia de energia elétrica , introduzir o tema na grade curricular dos cursos de arquitetura e engenharia e incentivar o desenvolvimento de tecnologias e sistemas construtivos adaptados às diferentes regiões bioclimáticas do país. Até agora, promoveu a capacitação de 15 laboratórios em 11 estados e no Distrito Federal.

São duas etapas para a implementação da etiqueta para edifícios comerciais. A primeira é a avaliação de projeto, em que é emitida uma etiqueta atestando o nível de eficiência da proposta. A segunda etapa é de avaliação do edifício, que inclui a inspeção dos sistemas instalados, com o alvará de conclusão, que é realizada pelo organismo de inspeção acreditado, para a outorga de uma etiqueta que ficará exposta no edifício. Desde julho de 2009, quando foi lançado o Procel Edifica, já foram emitidas 14 etiquetas de eficiência para edifícios comerciais, de serviços e públicos.

PARA SABER MAIS:

- www.procelinfo.com.br

- www.labeee.ufsc.br/eletrobras



Texto de Heloísa Medeiros| Publicada originalmente em Finestra na Edição 67
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