Brasil Arquitetura: Fazenda Rio Verde, Conceição do Rio Verde, MG

Quatro tempos e a modernidade cafeeira

No sul de Minas, em meio à paisagem montanhosa da Serra da Mantiqueira, está localizada a Fazenda Rio Verde, do grupo Ipanema Coffee. Em 2015, a empresa encomendou ao escritório Brasil Arquitetura um projeto que evoluiu para a elaboração de um plano diretor de revitalização da propriedade tanto no que diz respeito à implantação de uma nova área produtiva quanto à criação de um centro administrativo e de hospedagem. Esta é a unidade de produção dos cafés especiais da marca, uma atividade que, a exemplo do ocorrido com a cultura do vinho, tende a se sofisticar

(Foto: Nelson Kon)

Modernidade e tradição se complementam no projeto do Brasil Arquitetura, que considera a inserção de maquinário de última geração em meio ao modo tradicional de produção do café que prevalece na região - familiar a Marcelo Ferraz que, sócio de Francisco Fanucci, é originário do sul de Minas e possui conhecimento na produção artesanal do café.

Ao visitar a fazenda, os arquitetos identificaram a necessidade de se criar um plano diretor que contemplasse, além da arquitetura, a organização das estradas internas e dos acessos, e visualizaram o mote do projeto, de evidenciação das diferentes fases da história do local. Além da construção de uma nova fábrica, assim, foram revitalizadas edificações antigas da Fazenda Rio Verde.


(Foto: Nelson Kon)

A mais remota delas é uma casa colonial feita com taipa de mão e pedra, transformada em sede social. Depois, os grandes galpões que restaram da época em que a fazenda produzia ovos passaram a abrigar um viveiro experimental para a reprodução de plantas nativas e, o outro, a casa-conceito, onde há quatro apartamentos para hóspedes, cozinha industrial, áreas de refeições e para a exposição multimídia institucional, concebida por Ucho Carvalho. Por fim, os antigos depósitos de café - tulhas de madeira - viraram escritórios.

A discreta intervenção do Brasil Arquitetura faz conviver nestas edificações materiais antigos - cerâmicas e superfícies de ferro, com desgaste deixado aparente - com novos muxarabis nas janelas e mobiliário igualmente de madeira, criando-se ambiência simples e confortável, onde o destaque são as diferentes tipologias construtivas.

Já a nova fábrica, para o beneficiamento do café plantado na fazenda, foi implantada no topo da montanha por causa da sua maior exposição ao sol. Totalizando 14 mil metros de intervenção, incluídos na soma o terreiro para a secagem do café, ela é composta por três galpões sequenciais dispostos em curva suave que acompanha a topografia. A sequência das atividades neles desempenhadas é lavagem, secagem e descanso do café beneficiado, cujas tolerâncias à abertura para o exterior estão citadas em ordem decrescente.

Embora o processo industrial seja predominantemente horizontal, há momentos em que o café é transportado verticalmente e, assim, sob medida para o moderno maquinário abrigado no seu interior, os galpões possuem pé-direito de quatorze metros. Tratam-se de construções vedadas com telhas metálicas do tipo sanduíche e cuja cobertura é estruturada por tesouras de aço cortén e perfil curvo. As extremidades do telhado estão apoiadas em cotas diferentes, correspondendo a mais alta ao nível térreo da implantação e a outra, três metros abaixo, ao piso por onde saem os dejetos da lavagem do café, como casca e palha. Na cumeeira, o desnível da cobertura propicia a saída do ar quente.

Vale mencionar a claridade dos interiores, otimizada no galpão central pela presença de telhas transparentes, assim como a correspondência entre a organização em curva das construções com aquela das plantações de café, vistas no entorno imediato e remoto.

O plano diretor do Brasil Arquitetura contemplou ainda uma outra nova edificação que, idealizada como casa-conceito, estaria implantada na cota mais elevada da propriedade. Por ora, é o antigo galinheiro que desempenha tal função.


(Foto: Nelson Kon)


 

Brasil Arquitetura
Marcelo Ferraz (FAU/USP, 1978) e Francisco Fanucci (FAU/USP, 1977) são sócios no escritório Brasil Arquitetura, fundado em 1979. A interface com o patrimônio edificado é recorrente nos projetos da dupla, assim como novas construções de caráter cultural



Ficha Técnica

Fazenda Rio Verde

Local Conceição do Rio Verde (MG)
Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2019
Área de intervenção 42.250 m²

Arquitetura Brasil Arquitetura - Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz (autores); Gabriel Mendonça (coordenador); Anne Dieterich, Cicero Ferraz Cruz, Guilherme Tanaka, Julio Tarragó, Laura Ferraz, Luciana Dornellas, Pedro Renault, William Campos (colaboradores); Gabriel Carvalho, Guega Rocha Carvalho, Heloisa Oliveira, Roberto Brotero, Juliana Ricci (estagiários)

Fotos Nelson Kon

Publicada originalmente em ARCOweb em 13 de Janeiro de 2020
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora