Cais do Valongo postula título de patrimônio cultural da humanidade

A candidatura foi aceita pela Unesco e aguarda a avaliação final do Comitê do Patrimônio Mundial em reunião

Depois de ter o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em julho desse ano, para o conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, como patrimônio cultural da humanidade, o Brasil apresentou nova candidatura ao título.

Dessa vez, é o Cais do Valongo, na região portuária do Rio de Janeiro, quem está pleiteando a eleição. No final de setembro, representante do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, órgão consultivo da Unesco, esteve na capital fluminense para vistoria e avaliação técnica do local.

O Cais do Valongo - que fica na avenida Barão de Tefé, próximo da praça Jornal do Comércio - foi o principal porto de desembarque no Brasil, de escravos vindos do continente africano. De acordo com o Instituto Nacional de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Valongo é a única dessas áreas materialmente preservada. Apresentada pelo Iphan e pela prefeitura do Rio de Janeiro, a candidatura foi aceita pela Unesco no final de 2015 e aguarda a avaliação final do Comitê do Patrimônio Mundial em reunião que ocorrerá em junho do próximo ano em Cracóvia, na Polônia.

O dossiê produzido para sustentar a candidatura recupera a história do tráfico de escravos na capital fluminense em suas várias fases e analisa a importância histórica e social do processo, ressaltando o significado do sítio arqueológico para todos os brasileiros. Trabalho realizado ao longo de um ano, o documento foi coordenado pelo antropólogo Milton Guran e elaborado pelo Iphan em parceria com a prefeitura. O documento apresenta para avaliação o valor universal excepcional do bem, além dos parâmetros relacionados à sua proteção, conservação e gestão.

Em 1831, quando o tráfico transatlântico de pessoas foi proibido por pressão da Inglaterra - e solenemente ignorado no Brasil, de onde vem a irônica denominação “lei para inglês ver” - o Valongo foi desativado como porto de desembarque de escravos. Doze anos depois o local foi aterrado para receber a Princesa das Duas Sicílias e Princesa de Bourbon-Anjou, Teresa Cristina, esposa do Imperador Dom Pedro II – nessa ocasião passou a se chamar Cais da Imperatriz. Em 1911, com as reformas urbanísticas da cidade, este também foi aterrado.

A “redescoberta” do Valongo ocorreu em 2011, quando estavam sendo realizadas as obras do Porto Maravilha. Com as escavações, foram encontrados milhares de objetos como partes de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras, jogos de búzios e outras peças usadas em rituais religiosos. Entre os achados raros, há uma caixinha de joias, esculpida em antimônio, com desenhos de uma caravela e de figuras geométricas na tampa.

Em 2012, a prefeitura acatou a sugestão das Organizações dos Movimentos Negros e transformou o espaço em monumento preservado, aberto à visitação pública. O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos. No ano seguinte, tornou-se patrimônio cultural da cidade.

www.portal.iphan.gov.br

Publicada originalmente em ARCOweb em 13 de Outubro de 2016
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