Casa em Destaque: Jamelo Arquitetura, São Paulo

Casa modernista recebe pavilhão contemporâneo

Edificada no fim da década de 1950, esta residência da zona sul paulistana foi reconfigurada a partir de projeto do escritório Jamelo Arquitetura. Demarcar as áreas social, íntima e de serviços foi o pedido do cliente. Um pavilhão para receber convidados foi agregado à construção existente

A linguagem modernista que predominava na arquitetura culta no final da década de 1950 foi assimilada por Humbert Monacelli e seguida por este engenheiro franco-brasileiro quando ele decidiu construir sua residência no Campo Belo, bairro da zona sul de São Paulo. Foi o próprio engenheiro o projetista e construtor do imóvel, descobriram Lorenz Meili e Giuliana Martini, sócios do Jamelo Arquitetura, escritório que, passadas quase seis décadas da conclusão da obra original, foi contratado pelo novo proprietário para reformá-lo.

Antes de se dedicarem à intervenção, os sócios do Jamelo foram contratados para fazer um diagnóstico da edificação: o proprietário queria que eles avaliassem se faria sentido manter ou demolir a casa. Embora não fizesse parte do trabalho, os arquitetos descobriram em documentos nos escaninhos do arquivo municipal que, além da residência, Monacelli esteve à frente da construção de algumas igrejas paulistanas. A avaliação dos autores concluiu que a recuperação da residência não era só indicada como também se justificava em razão da qualidade de sua arquitetura, que havia sido bastante alterada em reformas anteriores.

A demanda do cliente, explicam os autores, era que o projeto assinalasse de forma clara os ambientes sociais, as áreas íntimas e os espaços de serviço – com as reformulações anteriores, essas funções acabaram ora se sobrepondo, ora conflituando. A casa foi edificada num terreno em aclive de 1.500 metros quadrados e o projeto desenvolvido pelo engenheiro se identificava com os preceitos da escola modernista. “Possui estrutura independente das paredes, planta livre, panos de vidro e volume solto do chão”, descrevem os autores em texto sobre o partido da residência.

Com a atual reforma, a edificação ficou com planta na forma de "U", com um jardim frontal e outro nos fundos – esse último é abraçado pela construção. Para os arquitetos, esses jardins funcionam como extensões dos espaços da residência. No novo projeto paisagístico foram valorizadas, sobretudo, as plantas nativas. Dada a boa solução arquitetônica original, os arquitetos interviram menos nos volumes, redistribuindo as funções dos espaços, repensando a circulação interna e a articulação entre elas – a intenção era trazer praticidade e conforto para as situações em que a casa seria usada, eles justificam.

Foi para melhor atender um desses usos – a recepção de convidados – que o projeto determinou a construção em área contígua ao jardim dos fundos de um pavilhão com planta livre que, em temos volumétricos, é a principal contribuição do novo projeto ao existente. O cliente também pediu que fossem incorporadas soluções de infraestrutura condizentes com a atualidade, além de observar que os arquitetos poderiam recorrer a materiais e técnicas identificadas com os princípios da sustentabilidade, permitindo que eles recorressem à tecnologia de ponta.

“Incluímos a instalação de uma usina fotovoltaica, que foi adequada às normas e hoje está ligada à rede pública de energia, além de placas para aquecimento solar da água”, escrevem os autores sobre esse atributo da morada. O equipamento está instalado sobre a laje do pavilhão lateral.

Junto ao jardim posterior, na área onde havia uma piscina (grande e profunda que raramente era utilizada), o projeto colocou uma cisterna que armazena água de chuva para aproveitamento nos jardins e nas bacias sanitárias.

Obstruções à passagem do ar foram removidas de forma a favorecer a ventilação natural cruzada, estabelecendo maior conforto climático. “No tocante aos acabamentos, buscamos recuperar as características originais da edificação, valorizando-as e complementando-as. As pastilhas de porcelana originais, as pedras do piso e ao lado da porta de entrada social, foram limpas e complementadas”, relatam os autores.

Para o pavilhão acrescido ao imóvel foi encomendado um mural de azulejos de autoria de Alexandre Mancini – Mancini é discípulo de Athos Bulcão, artista plástico responsável por diversos murais encontrados em edifícios modernistas de Brasília. “O mural do pavilhão da residência em São Paulo é feito de azulejos cerâmicos brancos com pintura metálica de platina”, informam os arquitetos.



Ficha Técnica

Residência Campo Belo
Local São Paulo
Área do terreno 1500 m²

Área construída 780 m²
Início do projeto 2013
Conclusão da obra 2016


Arquitetura Jamelo Arquitetura - Lorenz Meili, Giuliana Martini (autores); Carolina Braz (coordenação), João Ribeiro da Fonseca (colaborador); Victor Macoppi e Luiz Filipe Rampazio (estagiários)
Estrutura Gepro Engenharia
Elétrica Kapplan

Paisagismo NK&F Arquitetura da Paisagem e Jamelo Arquitetura

Iluminação Lux Projetos
Ar condicionado Reclima 
Energias Renováveis Renova
Mural Alexandre Mancini
Construção Diferencial Construções e Empreendimentos 
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Etel (mobiliário)
Angeloarte (marcenaria)
Reka, Fas (luminárias)
Renova (energias renováveis)
TokVerde (jardins)
Kitchens (cozinha)
Portobello Shop (revestimentos)

Publicada originalmente em ARCOweb em 17 de Outubro de 2017
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora