COMANOST: Red House International School, São Paulo

Restauro para programa educacional

Os prédios históricos edificados entre os anos 1800 a 1945 no Santa Cecília, bairro nobre de São Paulo, foram reativados com a chegada do novo campus da Red House International School, cuja implantação exigiu estreita harmonização entre o conjunto anteriormente estabelecido e as novas instalações

O loteamento da Chácara Palmeiras - espaço de terra com, aproximadamente, 560 mil metros quadrados, cuja localização, ainda no século XIX, encontrava-se afastada do centro da cidade de São Paulo - marcou o nascimento ao bairro Santa Cecília. Já em 1874, o casarão de um lote de esquina - que, hoje, figura o encontro entre o tal bairro e o Higienópolis -, foi adquirido para servir de residência a um importante casal paulistano da época, Francisco de Aguiar Barros e Maria Angélica de Sousa Queirós que, inclusive, nomearam reconhecidas vias da região.

Com a morte do marido, em 1890, parte das construções compreendidas no terreno foram doadas à Associação Católica Damas de Caridade que daria início ao novo colégio destinado àqueles menos favorecidos. Em 1915, um novo prédio de salas de aula foi elaborado pelo engenheiro Prudent Noël para complementar as estruturas da escola, que perdurou seu funcionamento por exatos cem anos, quando efetivamente encerrou as atividades em 2015.

De portas fechadas, esse foi o cenário ideal para dar início ao projeto de restauro e à nova ocupação do lote de 2.700 metros quadrados cedido à Red House International School. A COMANOST, empresa paulistana de engenharia e construção, ficou então responsável por desenvolvê-lo e coordenar o processo: “O desafio foi conseguir unir toda a importância histórica do local e adaptá-la a um uso contemporâneo high tech exigido pela escola. Além de os prédios serem patrimoniais, o terreno também faz parte da formação do bairro de Santa Cecília”, contou Adriana Bosco, arquiteta responsável pelo projeto.

Antes de qualquer passo, a equipe ainda passou por longa conversa com o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) para alinhar o que e como poderiam intervir no espaço, já que parte das edificações haviam sido tombadas recentemente - o volume de maior porte, Salas de Aula, com o NP-2 (Nível de Proteção 2), que resguarda fachadas e parte do interior; e o que hoje funciona como Auditório, com o NP-3, permitindo maiores modificações internas e externas.

Com um programa que prevê contingente máximo de 400 estudantes, a maior exigência se referia às instalações de cunho tecnológico que fazem parte da tradição da Red House, bem como áreas generosas de ensino que extrapolassem as salas de aula para ser aplicado o método de aprendizagem no qual se pauta a instituição: educação através de encontros e trocas de informação.

“Nosso maior desafio foi projetar espaços inspiradores, alinhados ao processo pedagógico da escola e enaltecendo as características históricas do edifício tombado. A escola promove uma metodologia de ensino que busca a conexão e sincronicidade entre as matérias e aulas aplicadas, a fim de traçar uma relação entre todo o ensino através de atividades variadas do dia a dia. Por conta dessa dinâmica de ensino, a arquitetura e disposição dos ambientes precisa ajudar nestas conexões”, conta a equipe do estúdio dLux, responsável pelo interiores do projeto.

A ideia inicial partiu da integração dos espaços externos a partir da reafirmação dos percursos ao redor dos pátios conformados pela própria disposição das edificações. A estratégia buscou, no desenho de uma marquise leve e neutra, acobertar os passeios externos e reforçar os espaços de estar e conviver ao ar livre tão figurativos e importantes em programas educacionais: “A marquise, juntamente à outras estratégias, figura a alma do projeto. Visual e funcionalmente, conseguimos unificar todo o conjunto, desde a entrada principal até aos demais edifícios, que também se conectam através dela. Anteriormente eles eram apenas espalhados pelo terreno sem qualquer conexão (...). A escolha pelo material [metálico] com forro de gesso acartonado também a mostra como elemento contemporâneo, frente às demais edificações, que desenha os espaços externos”, explicou Adriana.

Ainda ficou a cargo da COMANOST propor a restauração de fachadas que se fazia necessária devido à idade dos edifícios, bem como a adequação desses em relação às novas instalações. Como o projeto já rendia há um tempo, o processo necessitou de rapidez para que se cumprisse o prazo estipulado pelo cliente. O edifício Salas de Aula (1900) - aquele projetado por Noël, em 1915 - teve suas fachadas completamente restauradas no que diz respeito à cor, que acompanha o histórico do conjunto, e os caixilhos de pinho-de-riga, de onde foram retiradas cinco camadas de pintura e feita a substituição de trechos faltantes: “Fizemos uma análise das datas de construção de cada prédio, bem como das prospecções pictóricas. Buscamos uma cor em comum para dar unidade ao conjunto. (...) A partir daí, escolhemos permanecer com os caixilhos originais sem pintura - que, naquele tempo, eram tidos como inferiores por serem resultado do aproveitamento de caixotes de carga”.

O edifício também ganhou uma passarela que o liga a uma nova construção de dois andares: “Um bloco monolítico que não repetisse o modelo pré-existente, mas que exprimisse a marca cronológica”. Quanto ao recurso da passagem por passarelas, a solução resolveu a acessibilidade, uma vez que um elevador disposto na construção nova daria acesso aos demais pavimentos que se ligam, simultaneamente, ao prédio Salas de Aula. Além disso, tal recurso conservaria a arquitetura colonial característica - visto em planta, quatro salas e escada central - pois, em virtude da conservação patrimonial, não seria possível a colocação de elevador ou até mesmo de plataforma elevatória.

Ainda a questão esbarrava na resolução dos fluxos internos. Caso o acesso fosse potencializado no núcleo de escada do edifício Salas de Aula, mais de uma delas estaria comprometida para dar lugar às circulações: “Tiramos partido de que a fachada [onde hoje se encontra a passarela] estava completamente descaracterizada - com caixilhos de ferro, por exemplo - e concentramos a circulação vertical no edifício de apoio, cuja função principal seria justamente unificá-la”, explicou a arquiteta. Ainda é nesse ponto que ambos os edifícios se conectam com o terceiro aos fundos, dotado de refeitório, biblioteca, fablab e laboratório.

Para adequar à planta da construção, o Studio dLux também propôs a disposição dos ambientes da escola de acordo com a faixa etária dos estudantes: “(...) a fim de favorecer a neuroelasticidade infantil. Nesse sentido, todos os ambientes procuram contar histórias com seus elementos distintos. É importante também ressaltar que a transição do antigo para o novo acontece de forma simples, trazendo elementos de cada um dos edifícios para o outro”.

Já o segundo galpão, de gabarito inferior, foi completamente remodelado para funcionar como auditório da escola, que inclusive abre-se para o público externo em ocasiões de apresentação: “Foi uma modificação e tanto, pois envolveu adaptação do espaço que anteriormente era uma sala de ginástica. Como a ideia era transformá-lo em um auditório, conforme exigência do próprio programa de necessidades, a intervenção foi mais invasiva, pois tivemos que escavar, por exemplo, uma parte do solo para criar a curva de visibilidade para a plateia, ou ainda construir o mezanino dentro das condições corretas, já que o antigo era muito pequeno”, explicou Adriana.



Ficha Técnica

Red House International School
Ano de conclusão setembro de 2018
Área 2.706,00 m²
Arquitetura COMANOST - Adriana Bosco (autor) e Ana Carolina Martins (co-autor); Adriana Sayuri Futigami, Ana Clara Alves dos Santos Mezejewski, Gabriela Ferreira Trindade, Giovana Bonazza Gualtieri, Lívia Neme Gazal, Luciana Seiko Fukuoka, Maria Tereza Mangini, Natalia Canegusuco Jansen (equipe)
Responsável Técnico Maria Tereza Mangini 
Projeto de Restauro COMANOST 
Consultoria técnica de restauro Mariana Falqueiro
Projeto Legal COMANOST
Projeto Estrutural Caio Milan
Projeto de instalações hidráulicas COMANOST
Projeto de Paisagismo SEIVA 
Projeto de Arquitetura de interiores e mobiliário Studio dLux 
Fotografia Leo Giantomasi, Gabriela Trindade e Flavio França

Publicada originalmente em ARCOweb em 02 de Agosto de 2019
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