Crisa Santos: Memorial Parque das Cerejeiras, São Paulo

Por uma arquitetura do acolhimento

Após uma renovação conduzida por Crisa Santos, o Parque das Cerejeiras, localizado no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, converteu-se em um memorial inédito - referência para outros projetos de cemitérios. Com a obra, o endereço de 300 mil metros quadrados ganhou edificações de traços e materiais orgânicos, abraçadas pela natureza - a fim de reconectar o ser humano com suas sensações mais instintivas, atenuando a dor do luto. Além disso, o lugar com enorme área verde ainda se abriu à comunidade de residentes do entorno.

Ao descrever a demanda do cliente para que reformulasse um antigo cemitério campal na zona sul paulistana, a arquiteta Crisa Santos refere-se ao evento como uma oportunidade. De fato, o convite disparou na profissional uma série de perguntas, que a levaram a estudar a fundo o tema, até que ela se transformasse numa especialista na concepção de soluções humanizadas, chamadas por ela de memoriais. 

"Entendi que precisava de uma abordagem menos pragmática para realizar o que queria. Não se tratava de pensar em um projeto físico, mas em transmitir sensações, criar gatilhos que melhorassem a experiência do indivíduo de luto", relata. "Encontrei meios para isso na neuroarquitetura - bastante usada no segmento corporativo -, que se vale da ciência para conceber projetos que criam sensações, provocando emoções nos usuários”, explica Crisa, precursora no emprego da neuroarquitetura com foco em arquitetura do acolhimento para memoriais no Brasil. 

A fim de traçar o plano iniciado em 2014, que previa realizar 18 edificações (entre construções e reformas), redesenhando totalmente o local, a arquiteta ainda se valeu de outras técnicas: a biofilia e o design paramétrico. 

“A pesquisa que realizei demonstra que ambientes construídos com essa finalidade devem gerar estímulos para além da consciência. Na dor, a gente não funciona no modo racional, por isso os memoriais e cemitérios precisam ter espaços capazes de abrigar e refugiar, evocando ritos, nossas memórias coletivas, primitivas e afetivas ”, explica Crisa.

Nesse sentido, os equipamentos planejados por ela (alguns já finalizados, os demais previstos até 2025), exibem características marcantes. Primeiro a ser implantado, o mirante foi pensado como um presente para a comunidade: instalado em um barranco, com livre acesso para todos, respeitou o fato de que a população do Jardim Ângela já tinha por hábito acompanhar o pôr do sol dali. Afinal, o conceito da arquiteta adotado para o Parque das Cerejeiras prevê o bem-estar de quaisquer visitantes, não só os que estão pontualmente no local, mas também aqueles que frequentam o parque para caminhar, meditar ou apenas descansar.

A ideia de que o cemitério pertencesse a todos - e assim fosse respeitado, preservado - permeou também o desenho da portaria (antes havia um portão fechado), fluida e transparente, cuja função foi completada com a entrega de uma via para pedestres que facilita a circulação dos habitantes da região. 

Outro partido adotado diz respeito às formas e materiais. "Sabe-se que tons de madeira são mais acolhedores, até o cheiro desse material é algo arcaico, remete às fogueiras, às cavernas", revela. Daí a presença do material em inúmeras estruturas e componentes. Ou do aço corten, aqui e ali, de tonalidade semelhante. 

O design paramétrico prevaleceu em alguns itens, visando levar às pessoas em luto um sentido de aconchego, fluidez, transformação - materializado por meio de formas orgânicas, sinuosas, que parecem se elevar rumo ao céu ou mesmo alçar voo.

Além disso, o novo cemitério surgiu como uma galeria ao ar livre, com esculturas, obras de arte e instalações criadas exclusivamente para o local. A presença da natureza também foi garantida sempre que possível, com a preservação de um bosque existente e o replantio de árvores.

Ainda estão previstas outras construções de infraestrutura, como mais um mirante, um anfiteatro, o borboletário, além de um novo complexo de velório, sempre alinhado com a busca da reconexão com a natureza promovida pela biofilia, tendo como objetivo dar mais fluidez nas etapas do luto.

  


Crisa Santos Arquitetos
Formada em Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo pela UNESP, com pós-graduação em Administração pela FGV, em Lighting Design pela Parsons School de Nova York e em Arquitetura Paramétrica pela Faculdade Belas Artes, Crisa Santos atua em diferentes segmentos, inclusive residencial e corporativo. Atualmente, à frente do escritório que leva seu nome, emprega a neuroarquitetura com foco em arquitetura do acolhimento para memoriais no Brasil.



Ficha Técnica

Memorial Parque das Cerejeiras
Local
São Paulo
Início do projeto 2010
Conclusão da obra parcial até 2018, total em 2025  
Área do terreno 305 mil m2 (incluindo jazigos, edificações futuras e as já construídas)
Área construída e reformada: 5 731 m2

Arquitetura Crisa Santos Arquitetos -  Crisa Santos, Dayane Cardoso, Michelle Resende e Vera Ligia (autores); Maria Beatriz Monteiro, Ana Paula Ribeiro, Rodrigo Shuttleton, Ignez Souza (projetistas)
Consultores calculistas de madeira Stamade, Rewood e Carpinteria
Engenharia de fundação Ebratec
Construtoras Força Bruta, Rewood e Carpinteria (montagem das estruturas de madeira)
Serralheria Cancela
Fotos Lucas Fonseca, Isis de Oliveira e Marcelo Oséas

Fornecedores

Osawa e Sorefi (ferragens especias);
Rothoblaas e Martins Bastos (parafusos);
Marmoraria Piramide (altares);
Lepri/ Portinari/ Neolith (revestimentos);
Esmara (Madeira laminada colada);
Rewood (Madeira laminada colada);
Amarante e Zanchet (madeira);
Quatro Vettro (esquadrias de alumínio);
Louças e metais sanitários (Deca);
Vernizes (Zobel);
Euroaço e VGF (chapas de aço);
Mabitec (descensores);
TC Shingle (telhas)

Publicada originalmente em ARCOweb em 11 de Dezembro de 2019
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