FI Arquitetura: Estúdio de gastronomia, Muriaé, MG

Estante substitui muro em reconfiguração de casa histórica

Cuidadosa intervenção realizada com base em projeto do escritório de Isabela Canêdo e Fernando Delgado converteu moradia operária secular em estúdio de gastronomia

Quando estudava na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Rio de Janeiro, Isabela Canêdo escolheu como tema do trabalho final de graduação de seu curso de arquitetura, concluído em 2014, uma vila operária edificada na primeira metade do século 20, localizada em Muriaé, Minas Gerais. Isabela nasceu naquele município da Zona da Mata mineira, onde ainda reside parte da sua família. Os imóveis foram construídos como moradias – 24 no total - para os trabalhadores de uma empresa de torrefação de café colhido nas lavouras do município e das imediações - a cafeicultura teve grande representatividade na economia local.

No ano passado, já com escritório constituído, Isabela tornou a voltar sua atenção para a vila operária. O motivo é que ela e o arquiteto Fernando Delgado - seu sócio no Studio FI Arquitetura, que tem sua sede no Rio de Janeiro – foram contratados para desenvolver o projeto de um estúdio de gastronomia que ocupa uma das residências da vila histórica. O resultado tornou-se uma pequena - porém cuidadosa e bem-sucedida - intervenção que habilmente transformou o uso do espaço, preservando, porém, a essência histórica e a imagem da edificação – a vila é tombada pela prefeitura local.

Maria Rosária Canêdo Miranda, mãe de Isabela, era um dos “aprendizes” de Kenia Iunes, habilidosa chef - embora não possua graduação formal na área - que ensinava a uma série de pessoas as técnicas e os “segredos” de uma culinária menos trivial. As aulas eram realizadas nas casas dos alunos. Numa conversa com a “professora” da mãe, Isabela sugeriu a Kenia que, em vez de ir às residências dos alunos, ela poderia recebê-los numa mescla de escola/ateliê culinário. Começou assim a tomar forma o projeto da sede do Studio de Gastronomia Kenia Iunes.

Isabela avançou e propôs à Kenia que o estúdio fosse instalado em uma das moradias da antiga vila operária, que fica na avenida Eudoxia Canedo, no centro de Muriaé – avenida é quase força de expressão, uma vez que trata-se de uma estreita e pequena via. São 24 casas geminadas em estilo eclético, que assimilou influências neoclássicas e colonial. “A vila é formada por um conjunto de casas-tipo, paralelas e dispostas de ambos os lados de uma rua interna que conecta a antiga rua Direita ao rio Muriaé”, informam Isabela e seu sócio no memorial do projeto do qual são autores.

Os cuidados que a dupla teve para que a intervenção se efetivasse a bom termo foram mais intensos, por se tratar de conjunto arquitetônico tombado. “No que se refere à casa, as diretrizes de preservação impedem a alteração da volumetria e da fachada”, relatam Isabela e Delgado. O projeto se concentrou, portanto, em adequar a espacialidade do imóvel para que pudesse acolher a nova função. Ao avaliar a situação da moradia, a dupla verificou que todas as casas tinham sua estrutura formada por muros de carga, paralelos ao percurso da via.

São três deles em cada residência: o muro da fachada principal; o dos fundos; e o intermediário. E sobre essa última peça repousam as tesouras de madeira do telhado, que é compartilhado entre as casas. “O muro intermediário é crucial, obstrui a visão do pedestre e o acesso aos fundos da casa e as dependências mais privadas e de serviços”, explica a dupla. “Ele era uma barreira entre uma fachada pública, nobre e os fundos ocultos”, ponderam.

Para a nova ocupação, não fazia sentido, portanto, manter a barreira intermediária. A dupla decidiu pela demolição desse muro – parede que estava descaracterizada - e pela remoção de outras divisórias internas. Recorreu então ao que eles chamam de estante metálica estrutural para receber a carga do telhado (antes de a peça ser instalada, andaimes suportaram temporariamente a carga da cobertura). A “estante” foi dimensionada para também suportar uma escada. “Onde antes havia massa, um muro opaco, agora existem folhas de aço dobradas e ar”, eles descrevem.

Além da escola de culinária, no programa do estúdio foi incluso uma loja de produtos gastronômicos. O espaço é ocupado de forma flexível. A escada metálica leva ao banheiro, no mezanino. A posição do sanitário conduz o olhar dos frequentadores e visitantes para as tesouras de madeira. “A cozinha original, de fundos, foi esticada em direção à rua, tornando-se protagonista. O visitante percorre livremente o espaço e o pedestre atravessa toda a casa com seu olhar até os fundos”, afirmam Isabela e Delgado.

Atualmente, naquela vila, informam os arquitetos, apenas uma das casas é ainda ocupada como moradia. Comércio de vários tipos ocupam os outros imóveis.



Ficha Técnica

Studio de Gastronomia Kenia Iunes
Local Muriaé, MG
Início projeto 2017
Conclusão da obra 2018
Área do terreno 108 m²
Área de intervenção 82 m²

Arquitetura, interiores, luminotécnica e estrutura 
Studio Fi Arquitetura
Estrutura Giuliano Miranda (consultoria)
Construção Estrutural Miranda
Fotos Gabriel Castro, Reverbo

Fornecedores

Cristaltemper (vidro laminado)
Gerdau (aço)
Celie (louças)
Pierini (revestimento cerâmico)

Publicada originalmente em ARCOweb em 19 de Abril de 2018
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