GrupoQuatro + Barbieri Gorski + Rosa Grena Kliass: Parque Ambiental Macambira, Goiânia (GO)

Solução urbana, via ambiental

Com o objetivo de resguardar nascentes de importantes cursos d'água, o Parque Ambiental Macambira surgiu como um recorte estrategicamente posicionado ao longo dos 26 quilômetros do parque linear proposto para a capital goiana. A singularidade do projeto reside justamente na forma: 'É efetivamente um projeto de percurso', explica Rosa Grena Kliass. Isso porque a implantação, segundo a arquiteta paisagista, se deu por meio de um levantamento minucioso, in situ, feito em toda sua extensão

Fruto do Plano Urbano vigente desde 2002 em Goiânia (GO), o Programa Urbano Ambiental Macambira Anicuns surgiu dedicando especial atenção aos fundos de vale. A ideia era - a partir da sub-bacia hidrográfica do ribeirão Anicuns, que inclui, entre outros afluentes, o córrego Macambira - prever ações de caráter estrutural ao longo desses dois cursos d’água, que fossem capazes de resguardar a organização dos espaços urbanos.

Visando promover melhorias efetivas, e sem ignorar as raízes profundas do desafio que se apresentava, o Programa focou nos fundo de vale, áreas mais prejudicadas ambientalmente devido ao modo como se deu historicamente a ocupação urbana e o desenvolvimento da cidade de Goiânia: por meio de eixos radiais com adensamento decrescente no sentido centro-periferia e evidente concentração populacional justamente nos fundos de vale. Em resposta a esse cenário, foi idealizado o Parque Linear Macambira Anicuns.

Os caminhos até a viabilização do parque não foram retilíneos. Tramitava na época um projeto prevendo a instalação de um sistema de tráfego viário nas margens dos referidos rios - uma solução comum em grandes cidades brasileiras, que raramente assegura a qualidade urbana do espaço público, sobretudo nos fundos de vale. A partir do envolvimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), no entanto, o processo efetivamente passou a priorizar a reabilitação urbana alinhada às premissas de responsabilidade social e ambiental: “Anteriormente, era para ser um sistema viário de fundo de vale. Porém, como o nosso plano possuía financiamento pelo BID, a ideia foi barrada considerando o ideal de preservação de regiões com tais características. Após uma licitação, o projeto para um parque linear permaneceu”, detalha a arquiteta e urbanista Maria Cecília Barbieri Gorski, uma das fundadoras do Barbieri + Gorski, escritório associado ao Grupo Quatro e a Rosa Kliass no desenvolvimento do Parque.

A partir daí, a principal diretriz de projeto passou a ser a recuperação de uma faixa de 30 metros ao longo do ribeirão Anicuns e do córrego Macambira, com base no estabelecimento de uma Área de Preservação Permanente (APP), suficiente para a recuperação dos fundos de vale e a salvaguarda das nascentes dos canais. Com 26 quilômetros de extensão, o parque linear compreenderia regiões centrais de Goiânia e conformaria parques ambientais urbanos exatamente nas áreas de nascentes fluviais - como a do próprio Macambira.

Projeto paisagístico, implantação e arquitetura

“Não foi um projeto feito com base em foto aérea, mas sim por meio de percurso no local e percepção do que era importante. A partir disso, fizemos o mapeamento de cada uma das condicionantes para determinar quais seriam os lugares onde haveria intervenções”, detalhou Rosa Kliass sobre o início do trabalho.

Os 550 hectares foram então subdivididos em 11 setores de intervenção, conforme a leitura dos atributos físicos e socioeconômicos particulares de cada região. Somente assim foi possível determinar onde e de que forma seriam compilados núcleos de atividades capazes de assegurar proteção e vitalidade às áreas mais vulneráveis, partindo de suas características específicas.

Estabeleceram-se três categorias de ocupação: Parques de Vizinhança, Núcleos de Estar e Núcleos Socioambientais. Os primeiros compreendem equipamentos esportivos, áreas de convivência e recreação infantil, além de estações de ginástica e Núcleos de Conforto Público - estes, constituídos de administração, sanitários, área de estar coberta e portaria.

Os Núcleos de Estar, distantes de 200 a 1200 metros uns dos outros, surgiram como áreas de estar de pequena escala dotadas de pergolados, bicicletários, estações de ginástica e mais alguns mobiliários também desenhados especificamente para o projeto.

Como sugere a nomenclatura, os Núcleos Ambientais foram destinados a receber atividades sociais, educativas e culturais - e localizados em pontos de referência importantes ao longo do parque, como os pontos de confluência entre os cursos do Anicuns e do Macambira.

Do ponto de vista da arquitetura, o escritório goianiense GrupoQuatro buscou uma solução em sintonia com as premissas que emergiram das discusssões sobre a implantação do parque linear - cujo foco apontava para o meio ambiente - e optou por projetar espaços semelhantes a amplos galpões, com linguagem industrial e materiais pré-fabricados, ideais para reunir as atividades propostas em acolhedoras áreas internas e externas: "Os projetos foram pensados sob o conceito semelhante ao de uma árvore tropical, que protege da radiação solar e permite ventilação cruzada, fundamental para o clima goiano", explica um dos titulares do GrupoQuatro, Luiz Fernando Teixeira.

É notório ainda que o escritório esteve em constante atividade no que diz respeito ao desenvolvimento de todo o desenho urbano também intervisto pelo grupo de paisagismo: "O Governo Municipal não tinha definido a configuração espacial para onde seria elaborado o projeto do Parque Linear Macambira Anicuns. Fizemos, então, um trabalho extensivo de urbanismo para demarcar o âmbito do projeto, assim como integrá-lo ao tecido da cidade, com vias circundantes que protegeriam o futuro Parque da crescente urbanização. As conexões transversais foram propostas para unir bairros anteriormente segregados entre si. (...) Ficou a cargo do escritório a coordenação e compatibilização dos projetos que envolviam a realização do Parque", explica o arquiteto.

Previsões e considerações

Devido à complexidade do projeto - não apenas pelo desenho em si, mas também pelo seu significado para a cidade, bem como por sua dimensão -, no processo foram considerados eventuais problemas concernentes à implantação e à pós-ocupação.

A falta de definições prévias sobre a ocupação e a administração do Núcleo Ambiental edificado, por exemplo, revela o risco de ir se perdendo a vocação primeira do parque linear. Nesse sentido, a arquiteta Maria Cecília Gorski alerta: “A preocupação com o programa de educação ambiental sediado nos núcleos - que era uma exigência do próprio BID - implica no respeito ao seu uso, conforme definido em projeto. Mas o único núcleo edificado passou a abrigar a Secretaria do Meio Ambiente, assumindo função institucional. Também existe a questão do cuidado com ainfraestrutura, porque esse equipamento possui salas de aula, auditório etc., que precisam de efetivo avivamento para não sucumbirem ao desuso. Cabe à prefeitura administrar essa agenda com cuidado”.

Outro senão diz respeito ao paisagismo, que previa o plantio das árvores especificadas em fase madura - por causa da dimensão do parque, seria ideal que a prefeitura tivesse contratado viveiros a tempo de cultivar as espécies desde a fase inicial de implantação, de modo a serem plantadas crescidas, posteriormente. “Isso não acontece, não existe um banco de árvores. Aponto aqui uma lacuna a ser preenchida pelo mercado brasileiro, uma vez que a própria lei obriga o replantio de árvores nativas”, complementa a arquiteta.



Ficha Técnica

Parque Ambiental Macambira
Local Goiânia (GO)
Área do projeto 550 hectares
Ano do projeto 2010 - 2012
Ano de implantação 2015

Arquitetura GrupoQuatro - Luis Fernando Teixeira; Joieli da Silva Guimarães; Rogério Ubirajara Di Machado; Renato Cunha de Almeida; Yara Emy Tanimitsu Hasegawa; Antônio Queiroga Galvão Filho (autores); Sérgio Matia Leite (colaborador)

Paisagismo Rosa Grena Kliass e Barbieri & Gorski Arquitetos Associados - Maria Cecília Barbieri Gorski e Michel Todel Gorski (autores); Cibele Mion; Cristina Franco; Gabriella Radoll; Maria Cecília Souza; Mariana Siqueira; Priscila Melhado (colaboradores); Deise Corrêa (desenhista); Barbara Cartaxo; Camila Riedo; Victor Próspero (estagiários)
Desenvolvimento complementar Spazio Urbanismo Engenharia; Consórcio Reencontro com as Águas - composto pelas empresas Hidroconsult Consultoria Estudos e Projetos S.A
Realização Prefeitura Municipal de Goiânia
Financiador Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
Fotos Joana França

Publicada originalmente em ARCOweb em 12 de Novembro de 2019
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora