studio mk27: Casa Lima, Peru

Empilhar e deslizar volumes

Ao projetar esta residência na capital peruana, a equipe do escritório brasileiro se valeu da possibilidade de ocupar quase plenamente o terreno. Depois, sobrepôs os blocos dos andares - como se fossem peças de um jogo de montar - e os desalinhou, criando terraços, balanços e maximizando a entrada de luz natural

Diante das especificidades de projetar em outros países, o studio mk27 não hesita. Após conquistar reconhecimento internacional e assumir trabalhos mundo afora, o escritório paulistano - que atesta admirar o modernismo brasileiro - maneja com bastante eficiência esse tipo de demanda.

No caso desta residência, ainda, a solicitação dos clientes - uma família peruana - vinha com uma possibilidade interessante para ser explorada projetualmente: a legislação local (estamos falando do bairro de San Isidro, repleto de casas e praças) permitia construir em quase 100% do lote e ainda verticalizar a edificação, acompanhando o gabarito daquela zona.

Estava dada a condição para atender o pedido do contratante que, ao elaborar um extenso programa de necessidades, elevou a metragem necessária a cerca de 1 000 m2.

A proposta elaborada, então, sugeria uma espécie de townhouse - não que as divisas laterais fossem ser compartilhadas com os vizinhos, como em moradas geminadas, apenas os recuos nesses trechos seriam exíguos. "A ideia foi subir um pouco e empilhar volumes, caixas desalinhadas umas das outras, abrindo espaço para a entrada de luz natural, aproveitando também os balanços", resume Samanta Cafardo, integrante do studio mk27, que além de co-autora do projeto ainda supervisionou a obra, realizada por um arquiteto parceiro sediado em Lima.

O partido adotado assegurou leveza visual ao conjunto, efeito realçado pela adoção de fechamentos diferentes em cada pavimento: peles de madeira, alumínio ou com elementos vazados, determinando distintos níveis de transparência/opacidade. "O céu de Lima é costumeiramente cinzento, nublado - nos disseram os proprietários -, então garantir a entrada de luz natural era uma prioridade", explica a arquiteta. "E isso precisaria se dar pela frente e pelos fundos, sobretudo, porque os recuos laterais seriam pequenos", continua.

Como foi necessário conceber um subsolo semienterrado para acomodar ambientes de serviço, piscina, sala de ginástica, spa e garagem, o pátio dos fundos só ganhou uma ambiência refrescante e natural com o emprego de decks e vasos com plantas - afinal, praticamente não restava terra no piso. O térreo (com sala e cozinha), consequentemente, surgiu meio-nível mais alto que a rua, e os outros dois andares sucessivos (reservados às suítes e áreas íntimas) acompanharam essa lógica.

Outros aspectos da materialidade foram definidos um pouco à peruana, um pouco à brasileira. A estrutura da casa, de concreto moldado no local, precisou ser extremamente reforçada a fim de suportar terremotos; o studio mk27 teve de orientar os trabalhadores sobre a montagem das fôrmas para assegurar que a textura riscada fosse realizada como de hábito nas obras do escritório. No trabalho com a madeira, descobriu-se que espécies amazônicas conhecidas por aqui também estão disponíveis lá, embora com outra nomenclatura, a exemplo do cumaru adotado nos pisos de madeira; no entanto, a expertise para processar o material e convertê-lo em portas internas e painéis ripados coube a um profissional brasileiro, cujo serviço foi contratado a despeito da distância. Algo semelhante se deu no tocante às rochas selecionadas para revestimento interno, externo e nas áreas molhadas. No primeiro caso, prevaleceu a tradição peruana no emprego de basalto cinza - e a pedra ganhou aplicação em vários pontos da residência; nos banheiros e lavatórios, porém, a opção por um mármore clássico seguiu um padrão nada brasileiro, mas bastante usual no país.

Quanto aos interiores, o studio mk27 fez valer a brasilidade - e privilegiou o mobiliário feito por aqui para compor a casa. Estava atendendo mais uma vez ao desejo dos clientes - que, afinal de contas, haviam escolhido o trabalho de um escritório internacional, mas que reverencia o design e a tradição arquitetônica moderna brasileiros.

 


studio mk27
Localizado na caótica São Paulo, o studio mk27 foi fundado no final dos anos 70 pelo arquiteto Marcio Kogan, membro honorário do AIA (American Institute of Architects), professor da Escola da Cidade e da Politecnico di Milano. Hoje, o escritório é composto por 35 integrantes e vários colaboradores pelo mundo afora. Grandes admiradores da geração do modernismo brasileiro, os arquitetos da equipe procuram repensar e dar continuidade a este icônico movimento arquitetônico. Os projetos do studio mk27 valorizam a simplicidade formal e são elaborados com extrema atenção aos detalhes e acabamentos. 



Ficha Técnica

Casa Lima
Local Lima, Peru
Início do projeto outubro de 2013
Conclusão da obra julho de 2018
Área do terreno 500 m²
Área construída 1.000 m²
Arquitetura studio mk27 - Marcio Kogan (autor), Samanta Cafardo e Elisa Friedmann (Co-autoras), Carlos Costa, Eduardo Gurian, Gabriela Gurgel, Mariana Simas, Renato Périgo (equipe de projeto), Diana Radomysler (interiores) e Mariana Ruzante (co-autora de interiores);  Jorge Baertl (arquiteto local)
Paisagismo Rosie Benavides
Engenharia estrutural GCAQ
Instalações elétricas JALE ingenieros
Instalações hidráulicas e sanitárias Efreyre instalaciones
Ar condicionado integ
Construção CG277
Fotos Fernando Guerra

Fornecedores

Vitrocsa (caixilhos de vidro);
Plancus (portas, painéis e fachadas);
Valcucine (cozinha);
Erwin hauer studio (cobogó);
Plancus e arquitecma peru (mobiliário interno)

Publicada originalmente em ARCOweb em 18 de Dezembro de 2019
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