Sérgio Salles (ARQLAB): Residência unifamiliar, São Paulo

Luminosa e acolhedora, casa contorna pátio interno

O clima acolhedor desta residência paulistana resulta, em grande medida, da presença de um amplo pátio aberto na sua parte central. Para ele se volta a totalidade dos ambientes domésticos, beneficiados com a luminosidade que atravessa as suas fachadas em pele de vidro. É como se toda a casa desfrutasse do convívio com o exterior, um clima receptivo que motivou Angelo Bucci, colega de Salles, a escrever um pequeno tributo ao projeto, que publicamos vinculado a esta matéria


O pátio central, no fundo da foto, atrai os olhares em todos os ambientes da casa (Foto: Nelson Kon)

Como nos projetos de grande escala ou institucionais do arquiteto Sérgio Salles, também nessa casa das imediações do Parque Ibirapuera, em São Paulo, é marcante a presença de sistemas construtivos industrializados. O pátio interno, que tem papel articulador no projeto tanto por causa da grande dimensão quanto por organizar ao seu redor a distribuição dos ambientes internos, é conformado por fachadas em pele de vidro. Alternam-se o vidro incolor e o branco, este último sobre a espessura das lajes, resultando uma paginação de proporção vertical que confere ao pátio aparência maior do que o é de fato. Não há pilares nas bordas do vazio, sendo o vão estrutural coincidente com a largura total do lote. De fato, minimizar o sobrepeso na estrutura foi uma das motivações do arquiteto ao especificar a pele de vidro.


Também o deck da cobertura está posicionado na parte frontal da residência (Foto: Nelson Kon)

Concisa na aparência - paredes brancas, pisos e portas de correr de madeira e toda a estrutura metálica pintada de preto totalizam as cores internas da casa -, a construção é qualificada pela abundante iluminação natural incidente pelo pátio.

Para ele estão direcionados os ambientes de longa permanência, como a sala de estar do térreo e os dormitórios das extremidades frontal e posterior do pavimento superior, assim como as circulações. Em laterais opostas, assim, há a escada interna - do tipo flutuante, com pisos de madeira - e a externa, a qual dá acesso ao deck da cobertura.

Desde a entrada é possível avistar o pátio interno, integrado que está com a garagem, igualmente vedada com a pele de vidro. Nela, duas superfícies opacas e pintadas de vermelho - o fechamento da dependência de serviço, de um lado, e uma das divisas do lote, do outro - reforçam a perspectiva que direciona o olhar para o pátio, a partir do qual, por sua vez, pode-se ver até o fundo do terreno.

O colorido contrastante com os demais revestimentos é, na entrada, reforçado ainda pela materialidade da fachada frontal. Face noroeste, ela é recoberta com painéis de ripas de madeira que, além de atenuarem a incidência do sol, conferem privacidade à casa. Se trata, em síntese, de uma casa com poucas paredes, muita integração visual e ambiência acolhedora, seja pela simplicidade predominante ou pelo protagonismo do pátio central.

Nos doze anos de sociedade que manteve, entre 1988 e 2010, com os arquitetos Luciano Margotto e Marcelo Luis Ursini no Núcleo de Arquitetura, Sérgio Salles concebeu, entre outros, dois projetos registrados nas páginas da revista Projeto. São eles o Terminal de Ônibus Urbano da Lapa (2003) e a galeria comercial (2003) junto a posto de abastecimento de veículos, em Higienópolis, ambos casos exemplares de projetos que envelhecem bem. Passam os anos e mantém-se a sua vitalidade, sobretudo em função da qualidade da implantação e da durabilidade dos materiais e sistemas construtivos. Embora de natureza diversa, parece ser este também o caso da residência que publicamos agora.

Em breve, outro projeto com a participação do arquiteto será destaque na Projeto: o Hospital de Emergência de São Bernardo do Campo, de autoria de Angelo Bucci (SPBR Arquitetos), cuja construção está prevista para finalizar ainda em 2019. Nele, Salles atua como consultor de arquitetura hospitalar, atividade que exerce com frequência no seu escritório.

Casa na rua de Ceuta (por Angelo Bucci)

Falar bem dos amigos é bom. E, se ele é Sérgio Salles, além disso fica fácil.

Conheci a sua casa na rua de Ceuta primeiro pelas fotos, sempre excelentes, do Nelson Kon. Em seguida, pedi ao Sérgio para visitar a obra. Ele marcou, por conta da luz, às oito da manhã. Perfeito. Inclusive porque Cristina nos esperava com café e bolo de milho que se desmanchava de bom. Terminar uma obra com os clientes assim tão amigos é o melhor sinal de que o projeto teve sucesso naquilo que é crucial: um bom nível de entendimento entre os anseios dos primeiros e, neste caso, o rigor do segundo.

Sérgio Salles ingressou na FAU-USP em 1984. Ainda recém-graduado, em 1989, montou o escritório Núcleo de Arquitetura, juntamente com seus colegas de turma Luciano Margotto e Marcello Ursini. Fizeram uma trajetória notável e colecionaram um acervo de obras consistente reconhecidas em várias premiações. Um destaque daquele período é o projeto para o Terminal da Lapa. Desde 2010 cada um dos três antigos sócios dirige, com a mesma consistência, o seu próprio escritório. Atualmente, Sérgio Salles está a frente do ARQLAB.

O terreno se localiza à rua de Ceuta, no Jardim Luzitânia, está a 250 metros do Parque Ibirapuera. O lote, com 315 m2, foi liberado da construção existente para receber o novo projeto. A casa proposta tem dois pavimentos e tem as paredes laterais coladas nas divisas. Organiza-se em torno de um pátio central, 7 por 4 metros, e se abre também em toda a largura do lote nos recuos de 5 metros de frente e fundo. Sua estrutura vence a extensão transversal do terreno, 10 metros, num único vão. Apoia-se, portanto, apenas nas duas divisas laterais de modo a liberar o arranjo das plantas.

O esquema funcional é claro: no piso térreo, uma faixa disposta na divisa esquerda acomoda os abrigos e serviços de lavanderia e cozinha. Na divisa oposta, está o hall de entrada que se estende por uma galeria de acesso à sala e, paralela a ela, pela escada de acesso ao pavimento superior. A sala se abre para o jardim ao fundo, sudeste. A garagem está no centro. Todos os ambientes se abrem também à luz do pátio central. O piso superior tem dois quartos voltados para o recuo ao fundo e o quarto principal com vistas para a rua e pátio central. Os dez metros de janela para a rua, face noroeste, está protegida por um quebra-sol em madeira ripada. A galeria de acesso aos quartos tem saída para a escada externa de acesso à cobertura que foi desenhada como um terraço de convívio, extensão da área íntima e, eventualmente, da área social da casa. Um terraço de dimensões expandidas, com área de céu pleno e vistas por sobre as copas das árvores.
Foi com esta clareza direta que Sérgio Salles respondeu de um modo moderno à demanda da Cristina e Toninho, que cogitavam uma casa em estilo. Assim, sem qualquer exaltação como lhe é característico, o arquiteto apresentou-lhes suas ideias e deixou com eles os desenhos que cativaram a família de tal modo que a resposta lhe veio alguns dias depois: “não vamos mudar nada!”

Claro, o entusiasmo revela um compromisso de partida, vale na essência sem impedir as acomodações que se fazem necessárias durante o processo de desenvolvimento do projeto. Entretanto, é um compromisso necessário para que um arquiteto com as qualidades que marcam a atuação de Sérgio Salles pudesse aplicar nesta pequena obra o rigor de procedimentos e extrema atenção às especificações sempre bem ajustadas ao desempenho e aos custos. Digo, aplicar ali o mesmo rigor que o fez reconhecido como um dos melhores consultores do país, já atuando inclusive no exterior, em arquitetura hospitalar. Ou seja, ter no projeto de uma casa o seu olhar calibrado pela experiência com obras de extrema complexidade. O rigor do seu critério numa pequena obra é, de fato, um luxo. Este tipo de compromisso que se trava entre a confiança dos clientes e a responsabilidade do arquiteto merece especial destaque neste caso para fazê-lo exemplar. Pois em nosso contexto não é pouco nem é fácil atuar com um objetivo por assim dizer tão reto: desenhar o necessário e construir pela boa norma. O resultado é uma obra de notável qualidade com custo sempre dentro da meta, aliás arrojadamente justa para aquele padrão de obra. E, claro, arquitetura do melhor nível.

Naquela manhã em que visitei a obra, entre café, bolo de milho e prosa, o que mais saboreei foi ver vingar o bom caráter do arquiteto. Cristina e Toninho adoram a casa deles e, por isso mesmo inclusive, têm a maior admiração pelo meu amigo Sérgio Salles.



Arqlab
Fundado em 2010, o escritório Arqlab é dirigido pelo seu fundador, o arquiteto Sérgio Salles (FAU-USP, 1989). Uma das suas atividades recorrentes é a concepção de projetos, assim como de consultorias, na área de arquitetura hospitalar 



Ficha Técnica

Residência na rua Ceuta
Local São Paulo, SP
Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 315 m2
Área construída 315 m2
Arquitetura Arqlab - Sérgio Salles (autor); Priscila da Silva Segala Barbosa, Ivan Portero da Silva (colaboradores); André Ciampi, Raphael Chiste Souza (etapa de estudo preliminar)
Interiores e mobiliário Cobi Designeria - Rodrigo Galvão, Livia Lima
Paisagismo Passe Ar Verde - Bel Zaidan, João Fausto
Sondagem Engestrauss
Concreto Edatec Engenharia
Elétrica e hidráulica JPD
Construção Taguá Engenharia e Construção
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Femab (esquadrias de ferro, alumínio e vidraçaria);
Aport (escadas metálicas);
Marcenaria VIP (esquadrias de madeira, brises e mobiliário);
Portogran (mármores e granitos);
Cement Design (revestimento de microcimento);
Gasômetro Müller (piso de madeira);
Reka (iluminação);
Mabtech (automação)

Publicada originalmente em ARCOweb em 22 de Outubro de 2019
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