Sotero Arquitetos: Requalificação da Colina do Senhor do Bonfim, Salvador (BA)

Planejamento e desenho urbano, arquitetura e desenho de mobiliário são constituintes do projeto do Sotero Arquitetos para a requalificação da Colina do Senhor do Bonfim, na Bahia. Com as melhorias realizadas no espaço público e a ampliação do conjunto edificado, o local, rico de significados e pleno de vitalidade, entra em nova fase da sua história de quase três séculos. Premiado recentemente pelo IAB-SP e vencedor do Prêmio Desafios do Patrimônio Cultural, promovido pelos Conselhos de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais, o projeto é visto por Adriano Mascarenhas, fundador do Sotero, como 'verdadeiramente dos mais importantes que já realizamos, por causa da sua complexidade e significado para o país'

Fitinhas do Senhor do Bonfim (Fonte: Dossiê de projeto "Requalificação do conjunto urbano e sítio histórico paisagístico da Colina Sagrada do Senhor do Bonfim / Bahia" - página 30 | Sotero Arquitetos)

Há uma condição especial na Colina do Senhor do Bonfim, em Salvador, Bahia, que é a relação intrínseca do lugar - suas construções e a morfologia urbana - com o culto que lhe deu origem. A posição da basílica no alto da colina - na Península de Itapagipe, vista a partir da Baía de Todos os Santos -, as construções que a cercam, o traçado das ruas e também a dimensão e o posicionamento dos espaços públicos são todos derivados da sua presença. Um território de atuação da Devoção do Senhor do Bonfim, associação católica e de direito privado fundada em 1745, que agrega o caráter religioso ao social e ao cultural, amparada pelas doações que vem recebendo dos fiéis ao longo dos seus 274 anos de existência. Por que não dizer, então, que a história da Colina do Bonfim, onde intervém o projeto do Sotero, é também uma construção coletiva, dos baianos e, em escala maior, dos brasileiros que a visitam?

(Foto: Leonardo Finotti)

Há ainda um outro fator distintivo do lugar, que é a sua representatividade de um traço da cultura baiana: o sincretismo religioso. A Festa do Bonfim, quando a visitação à colina atinge o seu ápice, em janeiro, é uma celebração afrodescendente devotada ao orixá Oxalá, do candomblé, realizada em domínio de origem católica.

Tombamentos pelo Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938 (a basílica, bem material) e em 2013 (a festa, na condição de patrimônio cultural brasileiro portanto imaterial) resumem a questão.

Terreno fértil, assim, o do projeto que apresentamos aqui. A igreja foi construída (1746-1817) para abrigar a estátua do Senhor do Bonfim (imagem de Cristo Crucificado), trazida de Portugal para o Brasil em 1740 por um português católico, o capitão da marinha Theodósio Rodrigues de Faria. Inicialmente acolhida na Igreja Nossa Senhora da Penha, ela foi levada para o interior daquela do Bonfim em 1754, dois anos depois da Devoção ter recebido doações adicionais das terras que, no entorno da igreja, perfazem o perímetro do projeto do Sotero, como o Largo do Bonfim e o Largo da Baixa do Bonfim. O acesso inicial dos romeiros ocorria por uma ladeira em direção ao mar, a Ladeira da Lenha, até que por volta de 1810 a Devoção inaugurou a Ladeira do Bonfim que, porta de entrada da festa, facilitou o acesso.

São muitas as passagens desta história, mas o que vale ressaltar é que os mais de 36 mil metros quadrados do projeto do Sotero só existem enquanto tal, íntegros, por causa do seu pertencimento a uma mesma história, a do culto ao Senhor do Bonfim.

Os preparativos para o trabalho do Sotero Arquitetos tiveram início em 2014, quando a devoção convidou Adriano Mascarenhas, titular do escritório baiano, para pensar um plano de intervenção nos imóveis da associação na colina, relocando atividades realizadas de forma precária no interior da igreja, como a coleta de água benta e o velário, o confessionário e o batismo. Pensando-se na criação de um sistema de visitação - uma rede de pontos de interesse -, a encomenda considerava ainda o redesenho da praça. “Este estudo foi apresentado ao Iphan mas não foi adiante por causa do encerramento do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] das Cidades Históricas”, esclarece Mascarenhas.

Em 2017, a prefeitura de Salvador retomou parte do projeto, lançando uma licitação - vencida pela equipe constituída pelo Sotero - para a requalificação do espaço urbano.

No que diz respeito à acessibilidade, houve alterações viárias, com o fechamento de ruas dentro do largo, e a criação de novas paradas de transporte coletivo, público e privado, bicicletários e estacionamento para automóveis e motocicletas. Também foram implantadas novas travessias de pedestres e uma rampa de acessibilidade universal, essencial por causa dos grandes declives existentes no local.


(Foto: Leonardo Finotti)

Do ponto de vista da paisagem, o projeto contribuiu para dar forma ao que era disforme, ou seja, delimitou eixos visuais e zonas funcionais. Antes circundada por vias carroçáveis, a igreja se estende agora em uma longa praça retangular composta por dois platôs sucessivos. O mais baixo, limítrofe à Ladeira do Bonfim, tem como ponto focal o chafariz de mármore que, vindo da Itália, foi implantado no local em 1863. O mais elevado, vizinho à igreja, é um grande espaço aberto onde foi introduzido um palco externo para a realização de missas campais.

Mas o largo é maior do que o retângulo, possuindo a forma aproximada de leque. A área triangular remanescente, então, foi associada ao conjunto de casas que, posicionado na lateral esquerda da igreja, é quase tão antigo quanto ela. Denominado Casa dos Romeiros - construído para o pernoite dos fiéis vindos de longe - é atualmente utilizado como local de restaurante e pequenas lojas. Criou-se um espaço de permanência em frente ao conjunto por meio da inserção de mobiliário multiúso (aos longos bancos, de concreto e madeira, estão associados postes de iluminação e lixeira). Eles estão posicionados em eixos paralelos entre si, que demarcam a estrutura da Casa dos Romeiros. Há ainda um anteprojeto do Sotero para a reformulação interna que, não executado, prevê a criação de uma nova capela para batismo e de um museu para os ex-votos (oferendas dos fiéis), entre outros.

Na ponta do triângulo da praça, onde a Casa dos Romeiros se aproxima da igreja, foram inseridas duas novas construções que, embora independentes entre si, configuram visualmente um conjunto único e discreto. São elas a Casa das Velas e a Casa da Água Benta (veja informações adicionais das legendas das fotos), ligadas à Casa dos Romeiros através de uma marquise que, simbolizando a etapa futura de redesenho interno do conjunto, é já utilizada para dar abrigo às baianas dos acarajés.

Na lateral oposta da igreja, próximo à rampa de acesso ao Largo da Baixa do Bonfim, há o bicicletário e os elementos inibidores ao acesso de veículos (balizadores de concreto e madeira) que, com inteligência projetual, servem também de base para o mobiliário do comércio ambulante projetado pelo Sotero.

Pedra portuguesa e paralelepípedos de granito - como se fazia antigamente - surgiram como elementos de piso, predominando o tom areia em meio às faixas escuras que delimitam as zonas do projeto. Neste ponto, deve-se mencionar o sensível simbolismo do trabalho do Sotero, que evoca ícones culturais e religiosos caros ao local. Um detalhe do cajado do orixá Oxalá foi reproduzido no desenho estilizado do piso (são linhas brancas paralelas), bem como a cruz da fita do Bonfim que os fiéis amarram no gradil em volta da igreja. Ainda, a modulação geral do projeto deriva da dimensão da fita, 45 centímetros, o que é mais evidente na volumetria e no traço do mobiliário urbano.

Fitinhas do Senhor do Bonfim: Estilização e aplicação no desenho do piso (Fonte: Dossiê de projeto "Requalificação do conjunto urbano e sítio histórico paisagístico da Colina Sagrada do Senhor do Bonfim / Bahia" - página 31 | Sotero Arquitetos)



Opaxorô de Oxalá: Estilização e aplicação no desenho do piso (Fonte: Dossiê de projeto "Requalificação do conjunto urbano e sítio histórico paisagístico da Colina Sagrada do Senhor do Bonfim / Bahia" - página 34 | Sotero Arquitetos)

O Largo da Baixa do Bonfim, zona de transição entre o alto da colina e a cidade, teve paisagismo refeito com o objetivo de ser mais atrativo à permanência. Inseriram-se, assim, novos caminhos e recantos, a nova rampa de acessibilidade universal, bem como mesas de jogos e uma área de recreação infantil. Já junto aos arcos sob a Ladeira do Bonfim - onde funcionou um mercado, que se pretende reativar e requalificar - criaram-se platôs de convivência.

O passo seguinte do Sotero Arquitetos na área será a implantação do chamado Caminho da Fé. Com fim das obras previsto para meados de 2020, trata-se da requalificação da Avenida dos Dendezeiros que, em 1,1 quilômetros de extensão, liga o Santuário Irmã Dulce (canonizada em outubro passado, no Vaticano) à Basílica do Bonfim. Estão previstos trabalhos infraestruturais (a macrodrenagem do local, que é uma planície alagável), assim como o alargamento do passeio em uma das laterais da via, reta e plana, o resgate das palmeiras (os dendezeiros) já não mais existentes no local e a inserção de marcos religiosos - 14 painéis artísticos no total, “ligados ao tema da Basílica do Bonfim ou do Santuário Irmã Dulce, dependendo do sentido de visualização”, explica Mascarenhas -, simbolizado as quedas de Cristo na Via Crucis.


Ortofoto 2015: Google Maps - Turismo Religioso na Península de Itapagipe - "Caminho da Fé" (Fonte: Dossiê de projeto "Requalificação do conjunto urbano e sítio histórico paisagístico da Colina Sagrada do Senhor do Bonfim / Bahia" (página 4) | Sotero Arquitetos)

Sotero Arquitetos 



O escritório Sotero Arquitetos, sediado em Salvador, foi fundado em 2008 por Adriano Mascarenhas (Universidade Federal da Bahia, 1999). O seu portfólio de trabalhos é bastante diversificado em escala e usos, com obras executadas em alguns estados brasileiros nas áreas de interiores, edificações e desenho urbano



Ficha Técnica

Requalificação da Colina da Igreja do Senhor do Bonfim
Local Salvador (BA)
Início do projeto 2017
Conclusão da obra 2019
Área de implantação 36.050,00 m²

Arquitetura e desenho urbano Sotero Arquitetos - Adriano Mascarenhas (autor); Eric Cabussu, Helder da Rocha, Kaline Kalil, Técio Martins, George Almeida (equipe)

Estrutura Cereno Muniz
Paisagismo Marília Barreto
Drenagem, pavimentação, terraplanagem e geométrico Trento Engenharia
Irrigação Filipe Cerqueira
Aqueologia Aqueólogos
Instalações prediais Vitor Doto
Construção NM Construtora
Fotos Leonardo Finotti

Fornecedores

Fabrimetal (aço corten)
Ecopark (parque infantil)
Aubicon (piso emborrachado)
mmcité (lixeiras e paraciclos)
Bel Borba (painéis artísticos)
Latina Iluminação (luminárias)

Publicada originalmente em ARCOweb em 20 de Dezembro de 2019
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