Valéria Gontijo: Residência Mi Casa, Brasília

Leitura moderna em versão particular

A laje de concreto a poucos centímetros do solo ampara o gesto horizontal que resume esta casa, localizada em um condomínio na capital federal - assim, a edificação parece pairar sobre o terreno. Externamente, vazios estrategicamente planejados permitem visadas à distância da construção inspirada na tradição modernista, concebida pela engenheira Valéria Gontijo de modo bastante pessoal. Trata-se do endereço planejado minuciosamente por ela para viver com a família

Desenhada em 2015 por ela - que comanda um renomado escritório de arquitetura em Brasília - para ser sua própria residência, esta casa nasceu térrea e cercada de amplos espaços vazios. A resolução do projeto em um único pavimento, ao rés do chão, era uma premissa inquestionável, capaz até de alterar o local da implantação, caso a topografia do endereço cogitado para a obra não favorecesse a intenção inicial.

No começo do processo, havia mais dúvidas do que decisões: seria aquele lote no Lago Sul o ideal? Daria para construir com tijolos? Se as incógnitas correspondiam diretamente à enorme expectativa da profissional, também lhe permitiram ensaiar diversas vezes até chegar ao partido. "Quando me juntei à equipe no projeto, a Valéria já tinha feito uns 20 croquis: de um jeito, de outro, em L, em U. Afinal, a casa era um grande objeto de desejo", conta Celestino Neto, arquiteto colaborador no escritório braziliense. Aos poucos, porém, as escolhas foram se consolidando: o lote relativamente plano de 3 200 metros quadrados, em um condomínio fechado, parecia ser realmente o melhor, bastava demolir uma velha construção existente. E tudo indicava que seria um desafio - e também uma oportunidade - preservar o enorme pequizeiro existente, ele mesmo condicionando a forma da futura edificação.

Pensando em proceder sem excessos, Valéria Gontijo e sua equipe optaram por eliminar ambientes muito específicos e poucos solicitados, priorizando espaços de uso múltiplo. Assim entraram no programa a cozinha integrada à varanda gourmet, interligada ao home theater e bem próxima de um pequeno escritório. Sem duplicar as funções, a ideia era alcançar uma escala mais cotidiana, evitando atingir os 1000 metros quadrados de área.

Os quartos foram organizados em uma única ala. Um volume oposto reuniria o serviço e, no encontro entre eles, ficaria a área social e os ambientes de transição, fluidos e abertos para o exterior. Para contornar a árvore frondosa na porção central do lote e assegurar os vazios sonhados pela proprietária/autora - suficientemente amplos para permitir uma boa distância da construção e a visualisação e o entendimento de sua escala - optou-se por uma implantação em formato quase de "Z", perfeita para garantir também um posicionamento adequadado para a piscina.

A materialidade passou por importantes redefinições. Se, inicialmente, os planos versavam sobre o uso de tijolo ou pedra, depois considerou-se que o mais apropriado seria trabalhar com concreto. A resolução casou perfeitamente com uma outra intenção de Valéria: soltar a casa do terreno, elevando-a do solo (30 centímetros na frente e 150 nos fundos, conforme a topografia). Uma valiosa contribuição para esse aspecto de leveza veio da decisão de articular os volumes a partir do bloco social, sem que suas lajes de cobertura se encontrassem, mas que transpassassem. O resultado é que as partes da edificação parecem encaixadas no corpo central. "Essa solução garantiu a continuidade da forma - rigorosa, pura e reta, inspirada na arquitetura modernista de Brasília, como é costumeiro no escritório - e imprimiu sutileza sem abrir mão da escala palaciana, algo também bem típico daqui", explica Celestino.

A estrutura foi concebida com concreto armado aparente moldado in loco; os fechamentos empregariam esta mesma técnica, além de algumas divisórias de alvenaria de blocos. Aqui e ali, previram-se delicados pilares redondos, feitos com tubos metálicos preenchidos com concreto e vergalhões. Como expressão de um certo minimalismo, pensou-se em esquadrias com perfis esbeltos e vidros reforçados, em busca da máxima transparência nos espaços estar. Elas seriam acrescidas de venezianas pivotantes de madeira (ao todo, foram 87 delas na construção), nos trechos onde seria necessário filtrar a incidência solar e/ou resguardar a privacidade - e, com seu jogo de abrir e fechar, ainda dariam ritmo à fachada.

Nos interiores, a sobriedade prevaleceu, desenhando um pano de fundo neutro para os objetos e móveis dos donos da casa, escolhas essencialmente brasileiras. Placas de rocha calcária limestone baiteg blue, de tonalidade acinzentada, forraram os pisos sem destoar do concreto ripado à mostra nas paredes (sua especificação se deveu à coloração próxima à do cimento convencional, além de o material não apresentar fissuras nem manchas com o uso). No restante, revestimentos em cinza e branco, aliados do forro de freijó tonalizado para assemelhar-se ao cumaru champanhe dos brises.

Arremata o conjunto um paisagismo com um quê tropical - conforme solicitado pela engenheira/cliente -, assinado pelo Cenário, escritório de São Paulo que realizou um estudo profundo da vegetação do cerrado brasileiro a fim de realizar um projeto a contento e adequado ao clima da região. O mar de costelas-de-adão responde à primeira demanda; já não se pode dizer o mesmo dos ipês que pontuam o jardim com flores e entraram no lugar das palmeiras consideradas inicialmente; por determinação de Valéria, o pequizeiro com sua vasta copa foi consagrado como o principal elemento de uma agradável ambiência para o deck e a piscina, a despeito de folhinhas e brotos sujarem a água do tanque e onerarem a manutenção do local.

"A casa ficou espraiada e fresca. Tem esquadrias que lembram brises, linhas retas e muito concreto, beirais amplos que protegem de sol e chuva. Um tanto como sugere a Brasília moderna, bastante como fazemos no escritório para os clientes. Mas é a casa da projetista, há decisões ali muito singulares. Atualmente, as filhas da Valéria se divertem pulando de seus quartos para fora da construção, diretamente no verde. Outro exemplo: num trabalho feito para um cliente, jamais poderíamos colocar uma piscina embaixo de uma árvore como o pequizeiro", conclui Celestino.

   

Valéria Gontijo
Fundado em 1995 por Valéria Gontijo e pelas sócias Isabela Moura e Isabela Valença, o escritório Valéria Gontijo + Arquitetos se destaca pela linguagem contemporânea, regionalista e minimalista - a formação multidisciplinar da equipe garante a concretização de um projeto de arquitetura integral. Linhas retas combinadas com materiais orgânicos e brasileiros imprimem o aconchego de uma casa para o século XXI. Em Brasília, a sede do escritório fica em uma casa projetada por Zanine Caldas.



Ficha Técnica

Casa Mi Casa
Local Brasília
Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 3 200m²
Área construída 890 m²

Arquitetura Valéria Gontijo + Arquitetos - Valéria Gontijo (autora), Isabela Moura e Isabela Valença (co-autoras), Celestino Neto e Luiza Bonner (arquitetos colaboradores) 
Paisagismo Cenário - Arquitetura da Paisagem
Cálculo estrutural Situare Engenharia
Luminotécnica Lumini
Paisagismo Cenário-Arquitetura da Paisagem
Execução e gerenciamento de obra Multiambiental Engenharia
Fotos Front Filmes

Fornecedores

Chance (esquadrias de alumínio – Dinaflex)
Talentus Esquadrias (esquadrias, piso e deck de madeira)
Deca (louças e metais)
Silestone (pisos frios, banheiros, bancadas)
Ornare (armários planejados de cozinha e área de serviço)
Casual Móveis (closets – Flexform)
Kabala (marcenaria)
Vallori (revestimento da piscina)
Gradebrás (estruturas e chapas metálicas)
Impercia (impermeabilização das lajes)

Publicada originalmente em ARCOweb em 15 de Outubro de 2019
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