Vereda Arquitetos: Casa em Peruíbe, SP

Presença sutil

Localizada em Peruíbe, município litorâneo a 130 km da capital paulista, a morada precisava de atualização. Para respeitar o orçamento e instaurar uma linguagem contemporânea, a intervenção do Vereda Arquitetos manteve o bloco dos quartos e criou uma nova ala social, coberta por uma única laje de concreto aparente e dotada de ampla transparência

Erguida décadas atrás, a construção a 100 metros da praia de Peruíbe, SP, exibia sinais do tempo. Não apenas os materiais estavam envelhecidos, como a implantação e a distribuição respondiam a demandas da época. Além disso, o projeto parecia equivocado ao não tirar proveito da insolação e da localização: perto do mar e diante de uma faixa de servidão da Prefeitura, mantida desocupada. Diante dessas constatações, os clientes - assim que adquiriram o imóvel - solicitaram uma reforma para o escritório Vereda Arquitetos.

Entre os itens do programa, o pedido por uma construção térrea foi decisivo - no sentido de refrear alterações muito substanciais. Era necessário acima de tudo melhorar as qualidades espaciais das áreas de convivência, que estavam bastavam subaproveitadas na edificação existente. Na ala íntima, o número de suítes correspondia inicialmente ao requerido para a nova versão.

A solução encontrada pelo arquiteto João Paulo Meirelles de Faria, então, passou por preservar o bloco dos dormitórios e construir uma nova área social para a casa, demolindo a antiga. "Embora os quartos fossem relativamente pequenos, não íamos fazer um sobrado. Logo não fazia sentido pôr abaixo todo o trecho íntimo para, em seguida, erguer algo semelhante", explica. A medida também se provou importante para manter a empreitada dentro do orçamento previsto.

Estabeleceu-se, a seguir, como ocorreria a transformação. A ideia inicial passava por manter as alvenarias de tijolo e a cobertura de telhas de barro - no trecho dos quartos -, unidas ao novo conjunto edificado para os espaços de convivência, marcado por uma única laje com vigas invertidas e apoios independentes dos fechamentos. No entanto, incertezas sobre a estabilidade da porção a ser conservada e a vontade do cliente de imprimir uma mesma linguagem no todo levaram a uma solução distinta: a estrutura de concreto percorreria a casa inteira, nada de telhado. Exclusivamente sobre os dormitórios, a laje seria sustentada em pilares e vigas soltos das vedações, passando por cima do volume existente - sem gerar carga adicional. Os quartos ainda teriam seus acabamentos renovados e ganhariam maiores aberturas (portas-balcão) para o fundo do terreno, assim como pequenas janelas (seteiras) capazes de garantir a ventilação cruzada. Resultado: ressurgiriam consideravelmente mais frescos e claros, mas preservando o caráter intimista, propício a momentos de recolhimento.

Por contraste, pensou-se em um bloco social completamente aberto para o exterior, fechado com vidro transparente e livre de caixilhos. Foi assim que ganhou forma a cobertura de concreto armado apoiada em pilares redondos (que não coincidem com as vedações) e em duas empenas nas divisas. "Optamos por uma grande laje moldada na obra, acreditando que seria mais fácil para a mão de obra local", diz o arquiteto. "Pensei que daria trabalho para fazer, mas, uma vez pronta, haveria pouca necessidade de manutenção dessa estrutura. A maresia e os ventos são muito fortes ali", pondera.

Somada às amplas superfícies envidraçadas e ao ensolarado pátio interno - importante conquista da nova implantação -, a gama restrita de acabamentos (madeira, cimento queimado e ladrilho hidráulico nas cores cinza e amarelo, basicamente) ajudou a integrar os ambientes sociais, dando a sensação de que a morada de 210 metros quadrados é muito maior. De uma extremidade da casa avista-se a outra, quando na realidade as medidas resumem-se a 5 metros de recuo frontal, 5 metros de largura na sala mais outros 5 metros do jardim interno. "Não há duplicidade de funções e ambientes, tipo área gourmet. A mesa da cozinha é a mesma que serve de apoio quando se decide usar a churrasqueira", explica João Paulo. Pelo mesmo motivo - reunir a família -, a compacta piscina também figura ao alcance dos olhos.

Assim, dentro e fora ficam bem misturados, relativizando a relação interior-exterior, efeito que, espera-se, seja ampliado com o crescimento da vegetação. O paisagismo, aliás, estende-se à faixa de servidão e foi fruto de uma aventura do próprio escritório, que elegeu exemplares de pau-brasil, palmeiras jussara e guaimbês, imaginando que futuramente ainda poderão atenuar a incidência solar no interior.

Quanto às intempéries, João Paulo explica ter buscado soluções para manter a construção resguardada, sem pesar nos fechamentos. Aqui e ali, chapas cimentícias fixadas horizontalmente funcionam como abrigos. O encontro entre a laje de cobertura e as portas de correr de vidro também apresenta um recurso para evitar que a água da chuva entre pela casa: "concretamos um perfil metálico na extremidade da laje para funcionar como uma espécie de pingadeira. Aprendi isso com o Angelo Bucci durante a minha passagem pelo SPBR", resume.



Ficha Técnica

Casa Peruíbe

Local Peruíbe (SP) 
Área do terreno 431 m2
Área construída 210 m2 
Início do projeto 2014
Conclusão da obra 2017

Arquitetura Vereda Arquitetos - João Paulo Meirelles de Faria (autor) e Bruno Manso (colaborador)
Estrutura Maurício Oliva de Farias - STEC Engenharia 
Instalações JPD Instalações Elétricas e Hidráulicas
Consultoria de iluminação Ricardo Heder - Lux Projetado 
Consultoria de impermeabilização Proassp Assessoria e Projetos
Construção Carlito Favil e Adriano Antunes da Silva
Fotos  André Scarpa

 
Fornecedores
Marcenaria Edno Alcântara
Vidros José Carlos Pereira de Moraes
Publicada originalmente em ARCOweb em 14 de Maio de 2019
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