Entrevista com o diretor de vídeo-instalação sobre Lina Bo Bardi

Concebida e dirigida pelo britânico Isaac Julien, série aborda o legado da arquiteta Lina Bo Bardi e sua intrigante reflexão acerca do tempo. Enquanto aguarda o êxito das negociações para trazer a obra ao Brasil - depois de uma comentada exposição em Londres -, o artista conversou com Arcoweb

"O que é um Museu?", registro da performance encenada na escadaria do MAM/BA, estrutura criada por Lina Bo Bardi sem parafusos nem pregos © Isaac Julien, cortesia do artista e Victoria Miro.

Concebida e dirigida pelo artista britânico Isaac Julien - cuja obra está centrada na produção de instalações múltiplas em vídeo -, a série "A Marvellous Entanglement", sobre a arquiteta Lina Bo Bardi, propõe uma reflexão sobre uma expressão usada pela própria Lina: “O tempo linear é uma invenção ocidental, o tempo não é linear, é um emaranhamento maravilhoso, onde a qualquer momento pontos podem ser escolhidos e soluções inventadas sem começo nem fim”.

Interessado ele mesmo em suscitar uma reflexão não-linear sobre o tema a partir do legado vanguardista da italiana radicada no Brasil, Julien utiliza projeções simultâneas em nove telas, nas quais surgem imagens poéticas simulando a presença da arquiteta em alguns de seus edifícios icônicos, a saber: o MASP, o SESC Pompéia e o Teatro Oficina, assim como o MAM/BA, o restaurante Coaty e o Teatro Gregório de Matos.

Profundo admirador da obra e do pensamento de Lina Bo Bardi, Julien encenou passagens e curiosidades da multifacetada artista, designer, cenógrafa e editora diante de locais e elementos arquitetônicos emblemáticos. Destaque para escadas e janelas. O que se depreende do discurso, além de um tom político, é um alerta para a necessidade de conservação de edificações projetadas por Lina em Salvador, por exemplo.

Lançado em junho de 2019 em Londres, o trabalho que traz no elenco as atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres interpretando a arquiteta em diferentes etapas da vida, gerou alvoroço no Brasil - criou- se uma expectativa de que "o filme" chegaria em breve aos cinemas brasileiros. Na realidade, o artista está perto de concretizar parceria para expor a obra em São Paulo, devidamente instalada em um espaço expositivo, não em salas de cinema.

Em entrevista concedida à Arcoweb, Isaac Julian reafirmou a importância do legado de Lina Bo Bardi e comentou a força de sua conexão artística com a arquiteta. Confira.

Arcoweb - O seu interesse no trabalho de Lina Bo Bardi começou uns anos atrás, durante a mostra Geopoetics, no Sesc Pompéia, em 2012, correto? Parece que a arquitetura daquele lugar o impressionou bastante. Como você descreve essa força da arquitetura de Lina?

Isaac Julien - Em 2012, eu deparei pela primeira vez com esse "poder especial" da arquitetura de Lina Bo Bardi. Verdade que eu já tinha estado perto disso anteriormente, em 1996, quando fiz uma viagem a Salvador e fui até o MAM/BA, onde vi a impressionante escada de madeira do museu no Solar do Unhão. Desde então, tornei-me de fato de um interessado por arquitetura. Meu estúdio e minha casa haviam sido, ambos, projetados por arquitetos razoavelmente conhecidos, por exemplo, mas eu tinha ouvido falar apenas vagamente de Lina e seu importante papel no modernismo brasileiro. Isso se revelou claramente para mim assim que eu comecei a trabalhar com o festival Videobrasil na minha exposição Geopoetics, ou seja, em 2012 - e tive efetivamente um contato estreito com a arquitetura dela. Era algo tão poderoso! Me refiro à maneira como a Área de Convivência do Sesc Pompeia cria naturalmente uma dinâmica espacial que favorece o convívio de fato, ao design que é construído em torno das pessoas e ao mesmo tempo combina aspectos brutalistas - em termos de linhas e materiais - com um conceito de uso do espaço profundamente humano. Aliás, o projeto do Sesc Pompéia inteiro é brilhante pela maneira como concebe espaços para uma variedade incrível de atividades e tudo é ao mesmo tempo funcional para inúmeros tipos de público - e robusto em termos da qualidade do design. Claro, a programação de lá é outro diferencial: pode-se ver alguns dos melhores artistas e pensadores dos nossos tempos ao lado de outros ainda iniciantes, e a frequência vai de famílias de trabalhadores a experts em arte. Eu acho justo dizer que, com o Sesc Pompéia, uma utopia tornou-se realidade, uma sem igual no mundo, do meu ponto de vista. Esse, para mim, é o "poder especial" e a originalidade do trabalho de Lina Bo Bardi.

Arcoweb - O que capturou a sua atenção e permaneceu com você por tanto tempo até agora, ressurgindo nesse projeto? O que Lina professava que segue tão único e válido até os dias de hoje?

Isaac Julien - Lina Bo Bardi tinha uma visão profundamente artística e socialmente responsável da arquitetura - e eu tenho uma grande preocupação com os mesmos assuntos na minha própria atuação. Então eu acredito que temos pontos sólidos em comum. Um exemplo? As palavras de Lina em "A Marvellous Entanglement" sobre uma noção de tempo não-linear, que sempre foi um dos temas centrais na minha produção, marcada pelo uso de múltiplas telas. Lina também desenvolveu uma prática socialmente orgânica para conectar diferentes referências culturais - outro ponto de convergência entre nós, na medida em que meu trabalho é sempre influenciado por outras culturas. Na minha prática eu frequentemente estabeleço um diálogo entre culturas e desenvolvo isso tudo de modo dialético. Minha obra "Stones Against Diamonds", uma espécie de prólogo para "A Marvellous Entanglement", foi captada na Islândia em uma caverna gelada, e para mim se tornou uma tradução poética das ideias de Lina sobre as pedras semipreciosas [De 2015, a obra foi inspirado em uma carta escrita por Lina para seu Pietro M. Bardi, seu marido, revelando sua paixão por gemas e pedras brasileiras sem lapidação]. A pesquisa visual no trabalho dela e no meu é desenvolvida por um diálogo intercultural que tem de acontecer com rigor teórico e intuitivamente, com profundo respeito pela natureza e pela cultura. Em termos do legado de Lina Bo Bardi, eu acredito que suas preocupações humanas, sociais e artísticas no design e na arquitetura são definitivamente algo que terá um apelo único e duradouro, que se fortalecerá. Penso, por exemplo, nos cavaletes de vidro e concreto do MASP, que permanecem tão atuais ainda hoje, quase 50 anos depois, se não mais do que na época da sua criação como uma solução cenográfica para expor pinturas.

Arcoweb - O trabalho de Lina, que prezava a arquitetura vernacular e a cultura popular, dentro do ideário moderno, é bastante singular. Já o seu trabalho pertence ao contemporâneo. Onde um pensamento encontra o outro?
Isaac Julien - Realmente, ela tinha um interesse forte pela arquitetura vernacular e pela cultura popular e, apesar da combinação desses aspectos com uma visão pós Avant-Garde não ser algo exclusivo dela, havia algo de próprio em como Lina juntava esses universos. Apesar de se alimentar da sua origem no racionalismo italiano, Lina Bo Bardi projetou com uma intenção clara de romper com a arquitetura formalista - uma das maneiras pelas quais ela se opunha a Oscar Niemeyer, por exemplo. Mas suas criações carregam um senso claro e único de forma e uma abordagem crítica da concepção moderna da beleza. Vale lembrar que ela dizia querer fazer prédios feios! Agora, falando de outras distinções entre a modernidade e a cultura contemporânea, eu relutaria em apontar o que pertence estritamente a um ou ao outro, ambos comparecem no meu trabalho. Por exemplo, a fim de desenvolver uma linguagem audiovisual própria, meu trabalho tem um rigor formal no qual algumas pessoas vêem conexões tanto com a arte moderna quanto com algumas linhas da produção contemporânea queer. Mas meus trabalhos são minha expressão como artista, livre de escolas e filiações. Expectadores e teóricos analisam e concluem onde estamos, a qual movimento pertencemos, mas, no final das contas, até para artistas com
interesses específicos como eu ou Lina, ocorre uma amálgama de informações, influências, reinvenções - que nunca pode ser fixada em um só lugar ou sob uma identidade. Isso nos faz a todos meio modernistas, de um certo modo.

Arcoweb - Você já mencionou o aspecto não-linear do seu trabalho sobre Lina, explicitando que não interessava um caráter biográfico, mas sim criar uma "sensação" sobre o tema. Como pretende operar esse componente, aproximando emoção e razão de algum modo?

Isaac Julien - Talvez um bom modo de determinar o valor de uma obra de arte seja sua capacidade de equilibrar um lado positivo/afirmativo - a capacidade de transmitir um certo discurso - e outro interrogativo - a possibilidade de permanecer meio vago, aberto o suficiente para acolher interpretações e questões que, tomara, surjam no caminho do observador em busca de elaborações e respostas. É por isso que eu sempre descrevo meu trabalho como uma meditação. Meditação pode ser tanto um processo de esvaziamento da mente quanto o ato de refletir profundamente sobre algo. Minhas obras são meditações nesse sentido estrito de algo que descreve ou narra ao mesmo tempo em que evoca e alude. Sempre afirmando e interrogando. A narrativa não-linear é um procedimento que visa alcançar isso, dando um corpo visual e sonoro para o fluxo não-linear de impressões que a existência apresenta. Com sorte, isso cria uma sensação de conhecimento, mais do que de informação - como resultaria uma obra mais linear sobre Lina, acho.

Arcoweb - O seu trabalho conjuga várias telas ao mesmo tempo, numa narrativa fragmentada. E também há uma série de fotos. Como devemos entender a soma desses componentes?

Isaac Julien - É verdade que meu trabalho propõe uma experiência multi-facetada do tempo e um fluxo de imagens como meio para reinventar nossa relação com a duração na linguagem audio-visual. Claro, falando subjetivamente, existe uma dimensão fragmentária em qualquer experiência com imagem em movimento. Então o que as várias telas em A Marvellous Entanglement fazem é materializar esse processo, alargando as possibilidades de interpretação e reflexão sobre as narrativas, especialmente as não-lineares. Na medida em que nos acostumamos ao excesso e ficamos saturados pelos meios de comunicação e seus estímulos visuais - como ocorre hoje - , nos tornamos expectadores distraídos. Então cabem obras como a minha, que chamam a atenção por meio de várias telas, mas o
fazem num ritmo mais meditativo. Acredito numa maneira de reeducar nossos sentidos, embora esse não seja meu propósito como artista. Agora, quanto às fotos: elas foram clicadas durante as captações e performances (dentro e fora da cena), e valem não como instantâneos da captação, mas sim como etiquetas visuais - espaços intersticiais entre a filmagem e a instalação do filme. Uma lembrança desse tempo perdido, que assume seu
próprio valor como arte. É quase uma dimensão extra em cada uma das minhas séries, como janelas que nos permitem examinar as histórias ali apresentadas de modo contemplativo.

Arcoweb - a escada parece ser um elemento arquitetônico que se destaca para você, que já fez réplicas dos exemplares do MAM da Bahia e da Casa de Vidro. Como é isso?

Isaac Julien - Acho que tem uma dimensão funcional e outra simbólica nas escadas. Para o arquiteto, além de conectar pavimentos, elas ajudam a determinar nossa apreensão sensorial e psicológica do espaço. Em "A Marvellou Entanglement", fez sentido usar uma escada por várias razões: do ponto de vista factual, é um ícone do design; é também um símbolo sutil e forte do modo como Lina fez intervenções no Solar do Unhão. De uma perspectiva simbólica, ainda, pode representar a conexão entre níveis metafóricos, altos e baixos, como faz a Ladeira da Misericórdia, ou a conexão histórica entre os dois centros de Salvador... E mais: a forma espiralada da escada pode sugerir um caminho sem fim - um tempo não-linear, como aquele evocado nas palavras iniciais de Lina citadas na obra: "O tempo linear é uma invenção ocidental". A série traz referências a religiosidade afro-brasileira, na qual os orixás se valem de escadas conectando as aspirações mundanas e dominantes. Ou seja, sem querer estabelecer possíveis interpretações, a escada aparece na série tanto como um objeto concreto quanto como um emblema simbólico.

Arcoweb - Em Londres, você fez uma homenagem a Marielle Franco nessa obra, o que sugere uma intenção política. Quando escolheu Lina Bo Bardi como tema, o que pretendia afirmar nesse sentido?
Isaac Julien -I Minha ligação com o Brasil me leva a acompanhar o noticiário político local, há anos. E isso me interessa também porque o que ocorre no país parece estar em sintonia com o que estamos testemunhando no mundo em geral, com o fortalecimento do populismo de extrema-direita, a xenofrobia, o discurso de ódio contra as comunidades LGBTQIA+, a pseudo-ciência negando a necessidade de proteção ambiental, o Brexit, os ataques contra os direitos humanos... Lina Bo Bardi sofreu os efeitos diretos do fascismo, e isso a conduziu a um certo engajamento político - não apenas mergulhando efetivamente no ativismo político, mas também pela sua ênfase no coletivo, a preocupação social no seu trabalho como arquiteta e designer. Eu soube pela atriz Fernanda Torres das pressões que estão se abatendo sobre o sistema SESC e sobre um número de artistas, individualmente, nesse momento do Brasil. Acho que é o momento de falarmos disso, contar o que acontece. Durante as conversas realizadas em Milão sobre a reconstrução da Itália após a II Guerra Mundial, Lina advogou ardentemente pela voz do povo, como algo que precisava ser ouvido tanto quanto a opinião dos especialistas e dos agentes políticos. Atualmente, eu acredito que as nossas causas sejam bastante diversas, mas precisamos estabelecer uma plataforma para uma política humana, especialmente em tempos de um populismo que ameaça destruir valores progressistas. Ainda, acho que Lina Bo Bardi deixou uma contribuição que apenas almas muito sensíveis e numa posição muito particular são capazes: como uma "estrangeira", ela tinha uma visão de certo modo distante do Brasil, um ponto de vista que retrospectivamente poderíamos entender como mais objetivo, aberto. Por outro lado, ao se tornar uma brasileira - de maneira profunda e sincera -, Lina abraçou radicalmente a cultura brasileira. Ela foi absorvida e transformada por essa cultura. Como resultado dessa rara combinação, ela pôde dar ao Brasil um olhar sobre si mesmo, carregado de alguma crítica, mas também de um senso de modernidade que é ao mesmo tempo elegante e apreciador dos vários e singulares tesouros locais - tudo para que, ao fim, o país consiga dar sua melhor contribuição ao mundo. Portanto, considero que o amplo legado de Lina é algo que Brasileiros e todos nós devemos nutrir e valorizar. Em termos concretos, eu começaria por reavaliar a importância e a condição atual do restaurante Coaty, na Bahia, por exemplo.

Lina Bo Bardi - A Marvellous Entanglement, 2019
instalação de nove telas, imagens em super-high definition(4K), coloridas, com som
9.1 surround, dispostas em suporte de madeira
Duração: 39 minutos e 08 segundos



    Publicada originalmente em ARCOweb em 07 de Agosto de 2019
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