PERFIL: Andrade Morettin Arquitetos

No alto, ao pé do chão

Para todos os seis participantes do concurso fechado para a concepção da nova sede paulista do Instituto Moreira Salles foi exigida a apresentação de fotomontagens e de uma maquete na escala 1:200, a ser encaixada no modelo do entorno, que foi produzido pelos organizadores da competição. Evidente, portanto, que era fundamental ao IMS entender como se daria a presença da edificação na avenida Paulista, de par com a orientação expressa para que se criasse um equipamento aberto e democrático, dotado da maior área expositiva possível, de espaços multimídia e de setor educativo

As apresentação das propostas ocorreram ao longo de dois dias no auditório do instituto em Poços de Caldas, Minas Gerais, projeto de Aurélio Martinez Flores inaugurado em 1992. Vinícius Andrade e Marcelo Morettin foram os últimos a defenderem seu projeto, iniciando a apresentação com a projeção de uma foto da Maison de Verre (Paris, 1932), de Pierre Chareau e Bernard Bijvoet. O tipo de luminosidade daquela edificação era a ambiência que pretendiam para o museu, embora tenham deixado claro que ainda não sabiam como obtê-la. Estavam ali para explicar a estratégia do partido arquitetônico. Seguiu-se, então, uma narrativa que já devem ter repetido dezenas de vezes em apresentações posteriores do projeto e que continua fiel ao que ele se tornou nesses seis anos e meio de desenvolvimento.

O projeto do centro cultural mudou pouco desde o concurso, sendo invisível a mais impactante das alterações - a eliminação de quatro subsolos para estacionamentos de veículos (incindindo as novas regras do Plano Diretor Estratégico de São Paulo) - e vital a criação de mais um pavimento expositivo por causa do remanejamento do programa. De resto, o longo caminho entre projeto e obra foi um processo mais ou menos linear, de efetivação da arquitetura.

Pressionado por enormes dificuldades logísticas relacionadas ao lugar de implantação e pela tensão entre a expectativa de se criar um museu de última geração, uma obra especial enfim, e a verba disponível para construí-lo. Em ambas as frentes esteve presente o engenheiro José Luis Canal, da Canal & Musse, gerenciador do empreendimento, que coordenou toda a interface da arquitetura com os consultores e complementares, com o cliente, com os órgãos de aprovação e com a equipe da obra [leia trechos do depoimento do profissional nas legendas das fotos e, na íntegra, na versão online da matéria em www.arcoweb.com.br].

O centro cultural está inserido em uma das extremidades da avenida Paulista, próxima à rua da Consolação, e tem partido definido por dois aspectos essenciais: a existência de dois térreos (um na cota do passeio público e o outro elevado 15 metros da rua) e a compartimentação do que os arquitetos denominam de núcleo duro do projeto (três salas de exposição e midiateca) em volumes autônomos nos interiores. Com estrutura metálica, esses módulos estão fixados na torre de concreto aparente que, na lateral esquerda da construção, concentra elevadores, sanitários e escadas. Um corte longitudinal basta para explicar a arquitetura que, no entanto, surpreende pela competência técnica, pela qualidade dos espaços e pelo tipo de relação que estabelece com o exterior.

É relativamente pequeno o terreno, inserido entre duas edificações residenciais junto ao túnel de ligação da avenida Paulista com as avenidas Rebouças e Doutor Arnaldo. Mas, sendo livre o térreo junto à calçada, é sutil a presença do museu no nível do pedestre que, assim, tende intuitivamente a entrar no pátio aberto e a subir pela escada rolante, atravessando quatro pavimentos até chegar à entrada de fato, no 5º pavimento. É rápido e atraente o trajeto, silencioso por conta do desempenho acústico dos fechamentos de vidro, com a arquitetura entretendo o visitante que ora é expectador do que acontece nos ambientes envidraçados - biblioteca, sala de leitura e um pequeno escritório -, ora é instigado por aquilo que não pode ver além: uma caixa vermelha que veda o volume da midiateca e pressiona o visitante durante a subida. Chega-se ao térreo elevado, em suma, quase sem se dar conta de ter saído da avenida Paulista.

Vivencia-se, portanto, o espaço intersticial idealizado pelos arquitetos como extensão da rua, ou seja, aquilo que está dentro do museu, mas que é de livre acesso - somado à fresta de largura decrescente em altura que separa a caixa das salas de exposição em relação à fachada. E a rua tem de fato presença onipresente no projeto, revelada em ângulo pouco usual através do rasgo na fachada frontal na altura do 5º andar e entrevista também pela fresta que há entre as edificações da divisa posterior. Para tanto, colabora a visualidade ligeira das fachadas, embora as quatro faces externas sejam constituídas por vidros extremamente grandes. Isso se dá por causa do tipo de vidro e do tipo de estrutura que o suporta [leia matéria sobre a fachada na seção Finestra].

De certo modo, assim, é igualmente uma arquitetura manifesto, tal qual a segunda obra dos arquitetos (a casa P.A, em Carapicuíba), sobretudo pela aparência despretensiosa no entorno que assume essa arquitetura sofisticada. Fazer um museu vertical requer grande dose de mecanização, as salas expositivas demandam climatização especial e o suporte de grandes cargas, o cinema e o auditório exigem isolamento acústico e deve-se mitigar o calor gerado pela insolação oeste da fachada frontal. Mas, em contrapartida, esteticamente todo o esforço para desenvolver a pele de vidro se deu no sentido de obter opacidade e uma controlada dose de translucidez. O envelope, assim, faz a inserção serena do edifício na cidade.



Ficha Técnica

Instituto Moreira Salles
Local São Paulo (SP)
Área construída 8.662 m2
Ano do concurso 2011  

Arquitetura Andrade Morettin Arquitetos - Vinícius Andrade, Marcelo Morettin, Renata Andrulis, Marcelo Maia Rosa; Adriane De Luca, Raphael Souza (coordenadores); Carlos Eduardo Miller, Felipe Fuchs, Fernanda Carlovich, Fernanda Mangini, Gabriel Sepe, Jaqueline Lessa, Melissa Kawahara (equipe); Eduardo Miller, Guilherme Torres (estagiários)
Estrutura Ycon Engenharia, GOP
Fachada Front Inc., Grupo Galtier
Acústica Harmonia Acústica, Akkerman, Holtz
Luminotécnica Peter Gasper & Associados,  Lux Projetos
Programação visual Quadradão Coordenação do empreendimento Canal & Musse
Construção All’e Engenharia
Fotos Nelson Kon

 

 

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 440
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