Andrade Morettin Arquitetos e GOAA: Escola Beacon, São Paulo

Inovação com patrimônio

Promover o encontro entre os diversos ciclos escolares é um dos pilares do projeto pedagógico da Escola Beacon, em São Paulo, cuja nova unidade foi projetada pela dupla de escritórios Andrade Morettin Arquitetos e GOAA. Mantida a série de construções existente no lote, o resultado é uma surpreendente espacialidade interna, amparada pela inserção de elementos industriais leves

Na manhã do sábado, 1º de setembro de 2018, quase três dezenas de estudantes sentaram-se em meio ao bosque (assim são chamadas, por uma das fundadoras da escola, as árvores que se espalham pelo terreno e envolvem o acesso ao campus) da Beacon School, na Vila Leopoldina, bairro da zona oeste de São Paulo. Eram estudantes de arquitetura que acompanhavam o curso Arquitetura Paulistana, que desde 2013 é promovido pela Escola da Cidade e organizado pelo arquiteto Marco Artigas.

Não era a primeira vez que o campus acolhia futuros arquitetos interessados em “descobrir” como foi que Andrade Morettin Arquitetos e GOAA, escritórios responsáveis pelo projeto, reorganizaram antigos galpões industriais da rua Merghentaler (cuja ocupação anterior à Beacon era como estacionamento de automóveis) para receber a escola. O projeto revelou virtudes de construções aparentemente banais e ao mesmo tempo definiu as formas de uma escola contemporânea.

O bairro onde está localizada a Beacon é um local em transformação. Próxima da marginal do rio Pinheiros, a Vila Leopoldina deixou de ser uma região onde se misturavam indústrias, depósitos, a principal central de abastecimento da capital (Ceagesp, que continua a operar no bairro, embora sua transferência pareça ser cada vez mais factível) e moradias, desde que foi “descoberta” pelo mercado imobiliário. Parte dos seus antigos galpões foi ocupada pela indústria criativa (produtoras de filmes e agências de publicidade, entre elas) e a abertura de escolas e faculdades faz parte do processo.

Foi Luciana Nogueira de Almeida Leite, uma das fundadoras da Beacon ao lado de Maria Eduarda Sawaya e Vera Patrícia Giusti, quem relatou aos estudantes a trajetória da escola, que funcionava anteriormente em uma casa alugada no Alto de Pinheiros. Por estar próxima àquele bairro, a Vila Leopoldina era candidata a receber o novo campus quando a demanda por vagas na Beacon cresceu. E, na leitura das sócias, os terrenos e os galpões em que a instituição está agora implantada eram adequados a receber a nova unidade.

A experiência com reformas nas casas-sede anteriores levaram-nas a convidar alguns escritórios de arquitetura para participarem de um concurso fechado em 2016. O fato de a proposta do Andrade Morettin (que convidou o GOAA para participar da empreitada) aproveitar praticamente na íntegra os galpões foi decisivo para a sua escolha.

Voltar o acesso principal da escola para a Mergenthaler foi uma das principais providências do projeto. É partir dessa entrada que os estudantes chegam na Praça do Encontro, espaço coberto e recuado da rua, de onde se distribuem os fluxos.

A Beacon foi projetada para receber cerca de mil alunos - os cursos vão do ensino infantil ao ciclo médio. Embora ofereça estrutura física específica para cada ciclo, a direção da escola acredita na integração dos alunos de diversas idades. Por isso, a proposta arquitetônica reflete a abordagem pedagógica: o ambiente encoraja a aproximação entre alunos, professores, coordenadores e funcionários.

Corredores periféricos nas bordas das lajes e vazios internos propiciam a mútua visualização entre os setores, cuja distribuição tira partido da totalidade do espaço gerado pela interligação interna da série de edificações existentes.

Outra virtude do projeto é a forma serena com que os escritórios atuaram numa região em transformação. Nota-se que não houve preocupação em “exibir-se” ou em marcar presença - retiradas camadas externas da vedação original dos galpões eles receberam como fechamento uma discreta e elegante pele em chapa de policarbonato que deixa entrar, de forma controlada, a luz natural, harmonizando‑se com o bosque que antecede a construção.

Internamente, a grande dimensão dos galpões, em princípio desproporcional ao acolhimento dos alunos, foi “domesticada”, como citam os arquitetos, através da inserção de espaços - salas de aula, inclusive - que são como “grandes mobiliários”, definem os autores. Por um lado, a predominância do uso de chapas de madeira e vidro nos fechamentos cria uma aproximação tonal à materialidade dos galpões e, por outro, o desprendimento desses volumes da edificação - soltos dos tetos, assim como das fachadas - sinaliza a sua presença nos interiores.

   
Andrade Morettin Arquitetos

O escritório, fundado em 1997, surgiu da associação dos arquitetos Vinicius Andrade e Marcelo Morettin, ambos formados pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) em 1992 e 1991, respectivamente. Atuando na área de projetos de arquitetura e urbanismo, desenvolve projetos de diversas escalas e de naturezas variadas, tanto para o setor público como para o setor privado. Marcelo Maia Rosa (Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2005) e Renata Andrulis (FAU/USP, 2004) são arquitetos associados do escritório

 
GOAA

Fundado em 2014, o escritório Gusmão Otero Arquitetos Associados tem como sócios os arquitetos Ricardo Lopes Gusmão e Guido D´Elia Otero, ambos formados pela FAU/ USP em 2011 e 2012, respectivamente



Ficha Técnica

Beacon School 
Local
 São Paulo (SP) 
Início projeto 2016 
Conclusão da obra 2018 
Área do terreno 10.000 m² 
Área construída 10.600 m²

Autores Andrade Morettin Arquitetos - Marcelo Morettin, Vinicius Andrade, Marcelo Maia Rosa e Renata Andrulis (sócios); e GOAA - Guido Otero, Ricardo Gusmão (autores); Adriane De Luca, Carlos Eduardo Miller, Eduardo Miller, Fernanda Carlovich, Fernanda Mangini, Jaqueline Lessa, Melissa Kawahara, Raphael Souza, Guilherme Torres (equipe Andrade Morettin); Marina Novaes, Marina Pereira, Murilo Zidan (equipe GOAA)
Design de mobiliário Novidário 
Paisagismo e agronomia Ricardo Vianna 
Luminotécnica Godoy Luminotecnia 
Acústica Alexandre Sresnewsky Acústica e Tecnologia 
Estrutura Stec Engenharia 
Fundações Apoio Assessoria e Projeto de Fundações 
Drenagem Contag Engenharia 
Pavimentação LPE Engenharia 
Instalações Gera Engenharia 
Climatização Willem Scheepmaker 
Construção Barbara Engenharia e Construtora 
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Guido Contini (marcenaria);
ERG’S (caixilharia);
Panmetal (metálica);
Stock (iluminação)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 450
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora