André Jost Mafra, Natasha Mendes Gabriel e Thaís Polydoro Ribeiro: Escola/centro cultural Arte no Dique, Santos, SP

Respiro na paisagem carente

O tijolo aparente que distingue plasticamente a escola/centro cultural no Dique Vila Gilda, em Santos, cidade do litoral paulista, envolve componentes metálicos que estruturam a edificação, um alívio na rude paisagem predominante naquela comunidade

A apresentação da banda Querô em Paris, em meados de 2013, encheu de orgulho os moradores do Dique Vila Gilda, uma comunidade carente da zona noroeste de Santos onde, estima-se, vivem atualmente cerca de 6 mil famílias, boa parte delas em palafitas, na área de mangue à margem do rio Bugre. Não foi sem motivo a comemoração; afinal, o conjunto musical criado em 2003, a partir da oficina de percussão mantida pelo Instituto Arte no Dique, é, majoritariamente, integrado por jovens que nasceram e moram na região.

A banda é o primeiro produto cultural do instituto, conforme registra o site do Arte no Dique, organização não governamental (ONG) que desenvolve trabalhos socioculturais com moradores daquela área. A atual “moradia” da Querô - título de um romance do escritor e dramaturgo Plínio Marcos - e de outras dezenas de atividades realizadas pela entidade é a Escola Popular de Arte e Cultura Plínio Marcos, centro cultural inaugurado em 2012, na avenida Faria Lima.

Uma das iniciativas do Mais Cultura, programa do Ministério da Cultura criado em 2007 que reconhece a cultura como necessidade básica e direito dos brasileiros, a escola oferece formação cultural (e profissional) para crianças, adolescentes, jovens e adultos. Na publicação Elos no Canteiro Mais Cultura, o Instituto Elos, ONG que é um dos “pais” do Arte no Dique e intermediou a ação naquela comunidade, informa que foram investidos 1,9 milhão de reais na implantação do prédio, que dispõe de salas para oficinas de artes, estúdio de gravação, cabine de som e luz e ambientes administrativos, entre outros.

Os primeiros estudos da escola (que é também sede administrativa do Arte no Dique, responsável pela gestão do espaço) foram realizados pelas arquitetas Natasha Mendes Gabriel e Thaís Polydoro Ribeiro, atuando como membros do Instituto Elos. Fundado no início da década passada, em Santos, o Elos atua em comunidades marginalizadas em todo o país e, a convite do ministério, passou a somar sua experiência na operação chamada Canteiro Mais Cultura. Mais adiante, o arquiteto André Mafra incorporou-se à equipe responsável pela concepção da edificação.

Inicialmente, o projeto era mais ambicioso, prevendo também uma marquise e um barracão cultural, mas as circunstâncias adiaram a implantação desses elementos, diluindo parte do impacto do conjunto na comunidade. Ainda assim, a edificação, visualmente caracterizada pelo tijolo maciço aparente nas faces voltadas para a rua, é uma espécie de oásis em meio à rude paisagem da caótica ocupação configurada por vias, vielas e moradias precárias.

Chamado de Armazém Cultural, o prédio evoca na aparência tanto a literatura do santista Plínio Marcos como a cultura das palafitas e a imagem do porto, que conformam a identidade da região. O acesso a ele, por exemplo, feito por um deque no interior do lote, simula o trapiche que conduz os moradores a suas habitações. Baseada em estrutura metálica, a construção de três pavimentos exigiu especial atenção com as fundações em razão das peculiaridades do terreno, cujo lençol freático estava praticamente emergindo. Em razão disso, elas afloram no terreno, derivando dessa particularidade técnica a elevação da edificação em relação ao solo.

Adotada para reduzir o tempo de obra, a estrutura metálica fez a construção rapidamente ganhar forma, recorda Mafra - internamente, alguns desses componentes podem ser notados. Lajes maciças separam os pavimentos. Além da expressão plástica, o tijolo de barro ajuda no conforto térmico interno e impede que o som escape para o exterior com maior intensidade - ali são realizadas oficinas/aulas de percussão e nesses ambientes foram empregados painéis de tratamento acústico.

O espaço de maior destaque, com pé-direito duplo, é o destinado às oficinas de teatro, que se abre para o terreno. Na parte externa são realizadas festas comunitárias; ocasionalmente ela é ocupada pela plateia quando, no local, são realizados shows que atraem mais público.


André Jost Mafra, Natasha Mendes Gabriel e Thaís Polydoro Ribeiro
Natasha Mendes Gabriel e Thaís Polydoro Ribeiro são arquitetas formadas em 1999 e 2003, respectivamente, na Universidade Católica de Santos e atuam no Instituto Elos, além de serem sócias no Anima Arquitetura e Planejamento. André Jost Mafra, formado pela FA/UFRGS em 1999, é titular do escritório Mafra Arquitetos Associados e especialista em restauro do patrimônio histórico pela Universidade Católica de Santos



Ficha Técnica

Escola Popular de Arte e Cultura Plínio Marcos
Local Santos, SP
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2012
Área do terreno 1.600 m2
Área construída 687,63 m2
Arquitetura André Jost Mafra, Natasha Mendes Gabriel e Thaís Polydoro Ribeiro
Estrutura e fundações Pedro Marcão
Elétrica, hidráulica e ar condicionado Alex Sandro Correia
Construção Engeterpa
Fotos Joana França

Fornecedores

Puden Art (estrutura metálica)
Vedacit (impermeabilização)
Madeireira Portal Kit (esquadrias, deque, assoalhos e fachadas)
DS (vidros)
Cobmetal (porta do tipo guilhotina)
Atenuasom (porta antissom)
Elevatec (plataforma de elevação)
Termotec (ar-condicionado)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 409
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