AR Arquitetos: Edifício residencial Camburiú, São Paulo

Vila vertical

O primeiro empreendimento imobiliário tocado por Marina Acayaba e Juan Pablo Rosenberg, denominado edifício Camburiú, resulta de um bem‑sucedido quebra‑cabeça espacial. A escolha do terreno - localizado na mesma rua do edifício 360º, concebido por Isay Weinfeld, na zona oeste de São Paulo - se deu em função da área (750 metros quadrados, compatível com o que procuravam os arquitetos) e da topografia em acentuado declive, sempre atrativa à criatividade dos profissionais da área. A ideia foi sobrepor casas, como numa vila vertical.

Juntamente com uma sócia investidora, Marina Acayaba e Juan Pablo Rosenberg fizeram o dever de casa e se familiarizaram com todas as etapas do processo empresarial de formatação e gestão de um negócio imobiliário residencial. Contaram com a ajuda de arquitetos já iniciados no assunto, mas, sobretudo, centraram esforços na criação de um bom projeto. Leia-se: racional em meios materiais e, embora diferenciado tipologicamente, adequado à escala do entorno, onde o uso misto é ainda associado ao gabarito assobradado.

Na contabilidade preliminar, concluíram que com oito unidades pagariam o empreendimento e teriam lucro. Mas o fato é que, manejando um terreno de dimensão mediana e coeficiente 1 de aproveitamento - na época, não havia para a área a disponibilidade da outorga onerosa -, todo o cuidado era pouco. Por isso, metade do cronograma (quatro anos e meio no total) foi investido em planejamento, que culminou com a finalização do projeto executivo. Trata-se de um exemplo das vantagens de investir no projeto completo e ater-se à escala saudável. As obras, por exemplo, só começaram quando garantida a mínima porcentagem de vendas que pagaria os custos da construção global.

Diante da identidade do bairro e da topografia, a intenção dos arquitetos foi criar o que denominaram vila vertical, ou seja, casas sobrepostas mas suficientemente resguardadas entre si, de modo a terem a privacidade preservada. Certos de que o caminho era minimizar as movimentações de terra e aproveitar a ocupação precedente do lote em platôs descendentes, conceberam um edifício residencial cuja volumetria alterna espaços abertos, mas cobertos, com outros fechados. E é de tal composição espacial que deriva o ganho de área útil (maior) em relação à computável da edificação, tendo cada unidade conexão com terraços aberto e coberto.

Em termos construtivos, a arquitetura está inserida em malha estrutural regular (vãos de 4,5 x 4 metros e altura entre pisos de três metros), com pilares moldados no local e lajes industriais do tipo painel, dimensionadas também de modo a facilitar o transporte até os pontos mais remotos sem o auxílio de equipamentos mecânicos. 

O resultado é uma edificação com térreo mais três pavimentos superiores, quando vista da rua, ou com oito pavimentos voltados para a vista nascente, do fundo de vale. A essa modulação rígida, somada à economia de componentes construtivos - três tipologias de caixilhos apenas, para citar um exemplo -, corresponde uma interessante diversidade de configurações dos apartamentos, que, isoladamente, assemelham-se por vezes a casas térreas, inclusive com quintal, por outras a sobrados ou ainda a lofts. Era de se esperar, portanto, que fossem diversos os perfis dos compradores. 

Embora a intenção fosse caracterizar o empreendimento como uma vila vertical, legalmente trata-se de um prédio de apartamentos. Há, portanto, eixo coletivo de circulação vertical, mas as diferentes densidades de acesso criam entradas quase que independentes: apartamentos 7 e 8 (triplex) pelo primeiro andar; zelador e apartamentos 5 e 6 (este com garagem privativa) pelo térreo; apartamentos 3 e 4 (ambos com um pavimento), respectivamente pelo primeiro e segundo pisos inferiores; e apartamentos 1 e 2 pelo terceiro piso inferior.

Predomina a setorização longitudinal do programa, com terraços (fechado e aberto, conjugados) e salas alternando as orientações poente e nascente, e dormitórios prioritariamente voltados ao norte. É o escalonamento das áreas abertas e fechadas que garante a privacidade dos apartamentos, de modo que, sobretudo pela construção de jardineiras perimetrais, não haja acesso visual entre eles.

O aproveitamento minucioso do lote gerou ainda pátios ajardinados em pontos esparsos, qualificando o empreendimento tocado pela dupla de arquitetos, que já está iniciando sua segunda experiência com o mercado imobiliário. Desta vez, um retrofit no bairro de Pinheiros.

AR Arquitetos
Marina Acayaba e Juan Pablo Rosenberg (FAU/USP, 2005, e FAU/Mackenzie, 1999) associaram-se em 2008 no estúdio AR Arquitetos, que desenvolve projetos residenciais, comerciais e corporativos. Rosenberg atuou na Itália e no México, entre 2006 e 2008; Marina colaborou com os escritórios Aires Mateus Associados (Portugal) e Sanaa (Japão)



Ficha Técnica

Edifício Camburiú
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2015
Área do terreno 765,31 m2
Área construída 1.416,23 m2
Incorporação Onze Empreendimentos Imobiliários
Arquitetura AR Arquitetos - Marina Acayaba e Juan Pablo Rosenberg (autores); Pedro Saito, Guilherme Ortenblade e Renata Lovro (colaboradores)
Paisagismo Mariana Soares
Fundações MAG Projesolos
Cálculo estrutural Reyolando Brasil
Elétrica PKM
Hidráulica Usina
Construção Empresarial Paulista
Fotos Mario Daloia

Fornecedores

Deca (louças e metais sanitários)
Donosti Esquadrias Metálicas (beneficiamento das linhas Gold, da Alcoa, e Solara, da Udinese)
Otis (elevador)
Nossa Senhora de Fátima, Artplan, Will (serralheria)
Sincol, Marcenaria ALX (portas)
Casa Franceza (ladrilhos hidráulicos)
Portobello (porcelanatos)
Clodomar (tampos e peitoris de pedra)
Alcoa, Udinese (caixilhos)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 426
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