Arqbr Arquitetura e Urbanismo: Igreja, Brasília

Percepção da natureza e luz para evocar o sagrado

Novas instalações da paróquia Sagrada Família, em Brasília, ficam no Park Way, À margem da Estrada Parque Indústria e Abastecimento. Nave circular com pequena abertura junto ao chão deixa entrever a paisagem e, no alto, a luz natural penetra pelo anel circular da cobertura. O projeto identifica‑se com a arquitetura da capital federal

As mais de duas dezenas de rodovias inseridas dentro do Anel Viário de Brasília são também conhecidas como Estradas Parque - a denominação é uma herança do plano urbanístico da capital federal idealizado por Lúcio Costa. É em um terreno à margem de uma dessas vias - a Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), na região denominada Park Way, onde predominam os lotes de grandes dimensões – que está sendo construída a nova sede da Paróquia Sagrada Família. O projeto arquitetônico é de autoria do escritório Arqbr Arquitetura e Urbanismo, também da capital federal.

O arquiteto Eder Alencar, um dos sócios do Arqbr, conta que, originalmente, a Epia tinha como uma de suas características a exuberante alameda de eucaliptos que emoldurava a entrada da cidade. Em 2004, a estrada foi transferida para o governo federal e, mais recentemente, transformou-se em via expressa, que conta com pistas exclusivas para o transporte público. “Nessa reconfiguração houve a poda quase que da totalidade das árvores, o entorno esmaeceu perdendo seu caráter bucólico, e houve o parcelamento do solo, o que significou aumento de moradias na região”, informa o arquiteto.

É aos moradores dessa região – os quais, hoje, assistem às celebrações religiosas em uma construção quase improvisada e arquitetonicamente pouco relevante - que as novas edificações da Sagrada Família atenderão. Alencar explica que o projeto do Arqbr tomou como premissa estabelecer e enfatizar as relações entre espiritualidade, natureza e comunidade.

Na avaliação do autor do projeto, a arquitetura tem sido o espaço privilegiado de manifestação do sagrado. E este se expressa, para aquele que o ocupa, pela luz que penetra com delicadeza, ou pelo silêncio da pedra revelado no murmúrio das preces. No caso da igreja brasiliense, a nave circular traz como conceito esse gesto de acolhimento ao aproximar o altar dos fiéis, discorre Alencar. “A luz natural penetra pelo anel circular da cobertura, transformando a ambiência interna, onde a espacialidade configura a nave disposta meio nível abaixo do nível natural do terreno”, descreve. Uma pequena abertura, rente ao chão, deixa entrever a paisagem.

Para realizar essa visada, os autores elevaram o volume circular de concreto aparente, que é sustentado por seis pilares com parte da fundação encaixada na topografia. A implantação foi equacionada seguindo dois eixos. O principal interliga três volumes: a nave circular, um pavilhão e a edificação existente, que fica mais ao fundo do lote. “Leste-oeste, esse eixo articula as escalas urbana e paisagística do projeto marcado pelo volume vertical do campanário que sinaliza o percurso do visitante ou de quem passa à distância, em grande velocidade, na via expressa”, detalha Alencar. O segundo (norte‑sul) conduz a escala do cotidiano, onde fica a entrada da nave e em paralelo as atividades paroquianas dispostas nos dois anexos.

Ao fundo desse eixo secundário, em posição mais reservada, encontra-se a casa paroquial. O partido arquitetônico considerou três diretrizes fundamentais presentes naquela cidade, afirma Alencar: primeiro, a implantação que dialoga delicadamente com a topografia; segundo, a indissociabilidade entre o urbano e sua arquitetura, entre espaço interno e externo, e neste caso entre o sagrado e a comunidade; e, por último, a consideração da paisagem como elemento estruturante e fundamental da configuração arquitetônica, reconhecida no tombamento da cidade como capital brasileira e patrimônio mundial da humanidade. 

 
Arqbr Arquitetura e Urbanismo
Eder Alencar e André Velloso são formados em 2010 pela Universidade de Brasília. Alencar, que durante o curso trabalhou com Paulo Henrique Paranhos, é fundador do ArqBr Arquitetura e Urbanismo, escritório no qual Velloso se tornou sócio em 2013. Alencar participou como jurado da etapa mais recente do concurso Opera Prima. Velloso, que antes de cursar arquitetura foi aluno de Engenharia Elétrica, cursou mestrado em arquitetura no Politécnico de Turim



Ficha Técnica

Paróquia Sagrada Família Park Way
Início do projeto 2014
Área do terreno 24.060,42 m²
Área construída 3.915 m²

Arquitetura Arqbr Arquitetura e Urbanismo – Eder Alencar, André Velloso e Luciana Sabóia (autores); Paulo Victor Borges e Margarida Massimo (colaboradores); Rodrigo Rezende, Pedro Santos e Júlia Huff (estagiários)
Estrutura Comini Tuler (metálica); Breno Rodrigues (concreto)
Instalações Alencar Costa
Paisagismo Quinta Arquitetura, Design e Paisagismo
Iluminação Beth Leite Acústica Síntese
Acústica Arquitetônica
Conforto ambiental Quali-A Conforto Ambiental e Eficiência Energética
Construção Tecna Construtora

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 441
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