Atelier 77: Casa Firjan, Rio de Janeiro

Harmonia e ruptura

No bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, foi inaugurada no início de agosto a Casa Firjan da Indústria Criativa. Projeto vencedor de concurso público de arquitetura promovido em 2012 pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), de autoria da equipe do Atelier 77. trata-se de um edifício que abriga laboratórios, salas de aula, de trabalho, espaços expositivos e um auditório, que complementam o programa das duas construções existentes no lote. Uma delas, o Palacete Linneo de Paula Machado, assim como o jardim que o cerca, são tombados pelos órgãos municipal e estadual do patrimônio do Rio de Janeiro

Comparando a obra construída com as pranchas apresentadas no concurso pelos arquitetos do Atelier 77, que na etapa final da competição concorreram com as equipes do Mareines & Patalano e Insite Arquitetos, percebe-se que pouco mudou na arquitetura da edificação em termos de partido e linguagem.

Está lá executado o edifício em forma de L que contorna, preservando, as árvores de grande porte presentes no local, e cuja materialidade (fachadas envidraçadas e recobertas por brises verticais móveis) pretende torná‑lo uma presença discreta no lote. Desse modo são valorizados tanto as áreas livres externas, protagonizadas pela vegetação centenária, quanto o palacete que, construído na primeira década dos anos 1900, serviu de moradia para a família Guinle.

A interação visual entre interior e exterior da edificação é, assim, prioridade do projeto. Após a vitória no concurso, os arquitetos do Atelier 77, liderado atualmente por Nanda Eskes, Priscila Marinho e Thorsten Nolte, foram contratados para desenvolver todas as etapas posteriores do projeto até a obra, incluindo‑se no escopo os interiores do palacete.

De significativo, no entanto, a principal subtração ao programa foi a desistência do contratante de manter o teatro no projeto, reduzindo‑se de três para um os subsolos da construção. Em síntese, a Casa Firjan é um centro de empreendedorismo e inovação relacionado ao futuro do trabalho, ou seja, um misto de centro profissionalizante, laboratório de fabricação, centro cultural e de reflexão e debate sobre as profissões do futuro.

A nova edificação possui subsolo, térreo, primeiro e segundo pavimentos, havendo entre os dois últimos um mezanino técnico intermediado por vazios, que propiciam pé-direito duplo ao auditório e a parte da midiateca. O acesso se configura como um átrio aberto, delimitado pelas paredes angulosas da loja criada no local, de um lado, e do foyer, do outro, e é coberto pelo auditório do primeiro pavimento.

A entrada, assim, ocorre pela rua lateral, menos movimentada, desembocando no pátio ajardinado que intermedeia a nova edificação e o palacete. Boa parte dos ambientes do térreo são de acesso público, como a loja, o foyer, o salão de exposições e o restaurante, de modo a se valorizar a presença do centro cultural no bairro de Botafogo.

Intenção, aliás, presente também no trecho da fachada posterior que os arquitetos mantiveram aberto na cota da praça elevada, permitindo a visualização do entorno. A laje de cobertura é verde em quase toda a extensão e, de cima para baixo, estão distribuídos os ambientes mais compartimentados (salas de cursos, administrativas e laboratórios) e os de uso coletivo (auditório e midiateca, ambos no primeiro pavimento).

Todos, porém, vedados com vidro nas faces voltadas para o interior do terreno, recobertas externamente com brises verticais e móveis para favorecer o conforto térmico. O espaço entre vidro e brise é ocupado por passarela técnica, fixa na estrutura metálica e atirantada por cabo de aço.

O edifício possui estrutura metálica, com lajes de concreto do tipo steel deck, e, visando o conforto acústico, foi aplicada lã de PET (com fibras de poliéster) nos tetos, recoberta por forro metálico perfurado. Traço distintivo do projeto, porém, é o núcleo de circulação vertical e de ligação entre as duas alas da edificação que, aberto para o jardim, se destaca em meio à discreta arquitetura por causa da coloração de intenso amarelo. Um gesto de ruptura de linguagem que aponta para o caráter inovador pretendido pelo projeto.

  

Atelier 77

Nanda Eskes, Priscila Marinho e Thorsten Nolte são os sócios fundadores do Atelier 77, sediado no Rio de Janeiro. Seus projetos contemplam desde o universo íntimo residencial até a escala do urbano, elaborados a partir de uma organização horizontal de práticas colaborativas e multidisciplinares ligadas à arquitetura. Nanda Eskes é formada pela École Nationale Supérieure d’Architecture de Paris-Belleville (ENSAPB), na França, em 2000, com especialização em Economia e Gestão da Sustentabilidade pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2016. Priscila Marinho é formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ) em 2002. Thorsten Nolte se formou pela FH Lippe, na Alemanha, em 1998. Foi sócio do escritório Lompreta Nolte Arquitetos e desde 2012 é sócio do Atelier 77. 



Ficha Técnica

Casa Firjan da Indústria Criativa
Local
Rio de Janeiro (RJ)
Início do projeto 2012
Conclusão da obra 2018
Área do terreno 8.000 m2
Área construída 6.800 m2

Arquitetura e interiores Atelier 77 - Thorsten Nolte, Nanda Eskes e Priscila Marinho (sócios); Rodrigo Bocater, David Serrão, Gregor Fasching, San Jandrey, Fernando Bonini, Carmen Gottschall, Astrid Pudzhun (colaboradores)
Luminotécnica LD Studio
Estrutura Marcio Pompei
Fundações Paulo Frederico Monteiro
Elétrica e hidráulica Equiper Engenharia
Construção Lopes Marinho e MViana
Fotos Monique Cabral

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 446
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