Bernardes Arquitetura: Casa Bela Vista, Campinas, SP

Habitar a imensidão

Muitos dos terrenos das casas que publicamos nesta edição cabem sob a cobertura de apenas um dos blocos da residência a seguir, projetada pela equipe do Bernardes Arquitetura e localizada em Campinas. As dimensões superlativas desse projeto são reflexo da imensidão do local e do pleno domínio dos arquitetos em lidar com as especificidades também da grande escala

Nos projetos de residências do Bernardes Arquitetura que publicamos recentemente não raro há uma especial relação entre volumes sobrepostos, com recorrentes geometrias contrastantes que se cruzam de modo a configurarem saliências.

Quase sempre é a interação do edifício com o sol e com a vista favorável que dita a implantação, sendo a sensibilidade dos arquitetos para a leitura do local - tanto mais difícil quanto menos impositivas são as restrições de partida - um dos qualificadores do seu trabalho e a motivação para refinamentos técnicos sempre que demandados pelo projeto, gerando sombras e vãos que delimitam ambientes.

Nessa casa em Campinas, porém, o mote não é o entrecruzamento de volumes. Frente à plena liberdade advinda do local - uma fazenda da qual não se vêem os confins e uma implantação desprovida de vizinhos -, o projeto é uma reflexão sobre o inserir-se na imensidão da natureza, à qual a arquitetura pretende fazer frente, ora submetendo-se a ela, ora impondo-se sobre ela.

Por isso, são grandiosas as suas dimensões, tanto dos volumes construídos quanto dos espaços que os separam, e há tipologias construtivas diversas: o bloco envidraçado, a construção semienterrada e aquela suspensa do chão, em meio às árvores.

A casa está inserida em trecho de solo em declive, configurando um platô - no ponto médio do perfil topográfico - que é o nível social. Em resumo, é esse o chão que o projeto pretende evidenciar, ainda que a residência se desenvolva em dois pavimentos.

Para tanto, as tipologias construtivas correspondentes aos setores do programa são manipuladas de modo a darem destaque a uma construção quadrada e envidraçada, coberta com um telhado de quatro águas (branco, delgado e com bordas de cobre) que se inclina para dentro em direção ao vazio central.

Trata-se de uma casa-pátio, como denominam os arquitetos, posicionada - com grande distância - entre dois blocos retangulares rotacionados entre si que, por contarem com teto-jardim, auxiliam no protagonismo da casa. À esquerda da implantação, o bloco dos ambientes de lazer é um prolongamento da parte alta do terreno, enquanto que o anexo com dormitórios de hóspedes, à direita, é um volume suspenso e acessível através de ponte.

Os 25 metros de afastamento entre o primeiro bloco e o núcleo social envidraçado são ocupados pela piscina e pelo deque de pedra, delimitados de um lado pelo gramado plano e, do outro, pela borda de água transbordante que se projeta sobre o vazio. Abaixo deles, há o embasamento que abriga os ambientes íntimos e técnicos (a sala sob a piscina), um volume em L encaixado no terreno através do seu longo e reentrante muro posterior de arrimo, feito com concreto reforçado.

Todos os volumes, exceto o social, têm fachadas revestidas com placa cimentícia de aparência rugosa - acabamento de agregado exposto -, cuja tonalidade arenosa se assemelha à pedra do deque (granito branco siena). Também os paralelepípedos dos caminhos carroçáveis que conduzem, abaixo, às garagens e, acima, à entrada social da residência, fazem par com o tom avermelhado da terra local, mencionada ainda no cobre da cobertura.

Por contraste, enfim, é que se afirma a estética da arquitetura, ou seja, de uma presença confortável, livre e audaciosa em meio à natureza, evidenciada na casa-pátio. A sua cobertura, assim, tem poucos pontos de apoio (quatro em cada fachada e outros quatro no interior), os vidros de vedação são grandes e espessos, com 18 milímetros, desempenhando comportamento autoportante, os caixilhos são mínimos e é quase imperceptível na fachada a sustentação da tela de enrolar que, por fora do vidro, protege a casa contra o excesso de luminosidade e calor.

Detalhes que valorizam a grande escala da construção, reverberada na ambiência generosa e acolhedora dos interiores, a exemplo do belo teto de madeira dos ambientes de estar.

O projeto de iluminação (Estudio Carlos Fortes Luz + Design) preserva a pureza das suas faces, organizadas em forma de tronco de pirâmide invertido. "Uma iluminação indireta inserida com discrição na estrutura do caixilho, que ilumina uniformemente, de baixo para cima, os quatro lados da cobertura, fazendo com que o telhado pareça flutuar sobre os fechamentos de vidro", explica o arquiteto e lighting designer.

    
Bernardes Arquitetura

O escritório Bernardes Arquitetura foi fundado em 2012 por Thiago Bernardes, após seu desligamento do escritório Bernardes Jacobsen Arquitetura. São seus sócios o administrador Nuno Costa Nunes e os arquitetos Marcia Santoro, Camila Tariki e Dante Furlan



Ficha Técnica

Casa Bela Vista
Local
Campinas (SP)
Início do projeto 2014
Conclusão da obra 2018
Área construída 2.650 m2

Arquitetura Bernardes Arquitetura - Thiago Bernardes (diretor criativo), Marcia Santoro, Camila Tariki, Gabriel Falcade Forti, Marina Salles, Rodrigo Mathias, Diogo Esteves, José Miguel Ferreira, Marcelo Dondo, Helena Obino, Leemin Alves Tan, Mariana Cohen (equipe)
Ar condicionado Arconterma
Automação Oguri Tecnologia Integrada
Acústica Modal Acústica e Engenharia
Elétrica e hidráulica Powerluc Projetos e Montagens
Estrutura Leão & Associados Engenharia de Estruturas
Impermeabilizações Proassp Assessoria e Projetos
Paisagismo Cenário Paisagismo
Luminotécnica Estúdio Carlos Fortes
Construção CPA Engenharia e Construções
Fotos Fernando Guerra

Fornecedores

Eurocentro (esquadrias de alumínio);
N.Didini (peças de cobre);
Stone (painéis em concreto);
Mix Design (piso em concreto);
Neogran Mármores e Granitos (piso em pedra);
Gasômetro Müller (piso em madeira);
Alwitra (manta de impermeabilização da cobertura);
Vidros Queiroz (vidros guarda-corpos e clarabóias);
Edvaldo Donizetti Tuon (painéis e portas em madeira);
Uniflex (cortinas internas);
Archdesign (persianas externas);
Tora Brasil (peças em madeira);
Tuboar (exaustões);
Lareiras Bille (coifas externas)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 449
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