Biselli & Katchborian Arquitetos Associados: Complexo habitacional e cultural - PPP Júlio Prestes, SP

Regeneração com a mistura de funções

A primeira das oito torres residenciais - integrantes de uma intervenção urbana na Luz, bairro próximo da região central de São Paulo, que tomou como ponto de partida o princípio da mistura de usos - foi entregue em abril de 2018. Um dos elementos do projeto, do escritório Biselli & Katchborian Arquitetos Associados, é o prolongamento do eixo da rua Santa Ifigênia, estendendo-o para além da avenida Duque de Caxias

Situada na região central de São Paulo, a rua Santa Ifigênia tornou-se nacionalmente conhecida, sobretudo, por seu vibrante comércio de produtos eletrônicos e de informática. Com início junto a um histórico viaduto (também chamado Santa Ifigênia), ela finda na avenida Duque de Caxias, praticamente defronte ao terreno onde, até os primeiros anos da década de 1980, funcionou a principal rodoviária paulistana.

Depois de ter sido desativada e posteriormente ocupada por uma espécie de centro de comércio de moda popular, em 2010 a construção original foi demolida - em seu lugar o governo do estado planejava construir o Complexo Cultural da Luz, cujo projeto fora contratado junto ao escritório suíço Herzog & De Meuron.

Por uma série de situações, o projeto da dupla suíça não foi adiante e o terreno abriga agora edifícios residenciais – o primeiro ocupado pelos moradores em abril de 2018 –, viabilizados a partir do guarda-chuva de uma Parceria Público-Privada (PPP) contratada entre o Governo do Estado e a Canopus, empresa de origem mineira que, em 2016, venceu licitação para levar adiante o empreendimento.

Os prédios em alvenaria estrutural possuem uma arquitetura moderna, avalia o arquiteto Mário Biselli, sócio do escritório Biselli Katchborian Arquitetos, autor do projeto, mas sem maiores ousadias - e nem de longe comparável à exuberância do projeto que fora concebido para a área pela dupla de arquitetos europeus. Mais do que a forma arquitetônica dos edifícios, o trabalho é relevante no que se refere à estratégia para regenerar o entorno - e nesse sentido ele tende a ser melhor sucedido que o do complexo cultural - por ter tomado como elemento central a mistura das funções habitacional, comercial e cultural.

Nesse sentido, a proposta de “estender” o eixo da Santa Ifigênia para o interior da quadra seguinte é um dos elementos fundamentais da intervenção, criando ambiência urbana de qualidade em uma região que se tornou conhecida com Cracolândia em razão do tráfico e consumo de drogas nas suas proximidades. O prolongamento se dará por um boulevard defronte às instalações da sede da Escola de Música Tom Jobim, vértice cultural da intervenção, ainda não executada.

Ao boulevard - no qual está previsto o plantio de quase 200 árvores, uma praça de 5,5 mil metros quadrados e 3,9 mil metros quadrados de áreas verdes – soma-se a revitalização (em curso) da praça Júlio Prestes, esta em frente à Sala São Paulo. Quando todos os prédios estiverem prontos, serão 1.130 unidades de habitação de interesse social (902 de dois dormitórios, 216 com um quarto e 12 com três, além de 72 unidades de habitação para o mercado popular: famílias com renda entre seis e dez salários mínimos paulistas). O térreo dos edifícios será ocupado por comércio, com fachadas ativas.

Na época do anúncio da PPP, Biselli informou que a entrada dos prédios estaria voltada para as ruas (Barão de Piracicaba e Helvetia), que circundam o terreno, ponto importante para a vitória do escritório no concurso fechado realizado pela Canopus para a escolha do projeto. Recentemente Biselli avaliou o histórico do projeto como um círculo virtuoso, em que a criação do seu escritório foi o último passo.

A PPP que viabilizou a intervenção teve início em 2012, no contexto do Programa Casa Paulista, que se propunha a revitalizar seis setores do centro expandido da capital com foco em habitações social e de baixa renda. O edital da PPP previa a obrigatoriedade de se promover uso misto e fachadas ativas nos edifícios residenciais, assim como contrapartidas de desenho urbano e equipamentos públicos para que a empresa vencedora pudesse construir no local as torres de apartamentos.

Essas determinações, relata Biselli, constavam da modelagem econômica e urbana anteriormente definida na proposta do Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole/URBEM (elaborada de acordo com o Plano Diretor Paulistano de 2014), que venceu concorrência organizada no âmbito do Casa Paulista.

Os edifícios residenciais são feitos com alvenaria estrutural - a maior parte deles conta com 17 pavimentos, exceto os que estão próximos do edifício Miri (projetado por Franz Heep), que acompanham o seu gabarito. As cores das construções, bem como do painel previsto para a sede da Tom Jobim, foram inspirados no prédio da antiga rodoviária. Mais do que um projeto convencional de um complexo residencial, a proposta avança para uma concepção urbanística que engloba sugestões para vias de circulação e pretende integrar os vários edifícios de apartamentos e da sede da escola com a cidade.

É por isso que, praticamente, a totalidade das edificações apresenta relação direta com a rua, razão pela qual Biselli nota certa semelhança entre a sua proposta e a do Conjunto Nacional, icônico edifício localizado na Avenida Paulista – projeto do arquiteto David Libeskind. A construção da sede da Escola de Música Tom Jobim, próxima dos edifícios de habitação, mantém – ao menos em termos de programa – sepultada a proposta de construir naquele local o Complexo Cultural Luz.

 

Biselli & Katchborian Arquitetos Associados

Mario Biselli e Artur Katchborian formaram-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1985. Biselli é Professor doutor do Departamento de Projeto da Faculdade de Belas Artes de São Paulo e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Katchborian é Professor Pós-Graduado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do SENAC.



Ficha Técnica

Complexo habitacional e cultural - PPP Júlio Prestes
Local São Paulo (SP)
Início do projeto 2016
Conclusão da obra (parcial) 2018
Área do terreno 29.364,43 m²
Área construída 94.596,11 m²
Arquitetura, interiores, paisagismo e luminotécnica  Biselli & Katchborian Arquitetos - Mario Biselli e Artur Katchborian (autores); Ana Carolina Ferreira Mendes, Carla Gotardello (coordenadoras); Camila Stump, Hugo Rossini, Fiona Platt, Mayara Guarino, Mariana Costa, Caio Camillo, Alexandre R. Biselli, Victor Piza, André Biselli Sauaia, Camila Grecco, João Dualibi, Breno Quaioti, Camila Palmieri (equipe)
Projeto cromático e painel artístico Roberto Fialho, Valéria Cássia dos Santos Fialho
Fundações Solosfera Consultoria em Geotecnia e Fundações
Estrutura Arco Assessoria em Realização Construtiva
Elétrica e hidráulica Proscion Engenharia
Drenagem GBX Engenharia
Ar-condicionado L.S. Sistemas Térmicos
Consultoria para norma de desempenho Harmonia Davi Akkerman + Holtz (acústica); Centro de Tecnologia de Edificações, De Figueiredo e Risso Arquitetura e Engenharia (iluminação); Benite Engenharia e Consultoria (desempenho térmico)
Construção Canopus
Fotos Nelson Kon

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 4461
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