Brasil Arquitetura: Museu Rodin

Relação entre edifícios de séculos diferentes dá mote ao desenho

Plantas, cortes e fachadas
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As duas edificações são interligadas, no primeiro piso, através de passarela
Relação entre edifícios de séculos diferentes dá mote ao desenho
No entanto, as obras do espaço cultural - dividido em dois volumes, um preexistente e outro novo - foram finalizadas em junho. Para a abertura ao público falta o acervo, que será cedido em comodato pelo Rodin de Paris, em acordo inédito, que transforma a instituição soteropolitana em uma espécie de primeira filial do museu.

Os principais articuladores dessa proeza foram Jacques Vilain, diretor do museu parisiense, e Emanoel Araújo, artista plástico e ex-diretor da Pinacoteca de São Paulo, que coordenou, na década de 1990, a vinda ao país de uma exposição com obras do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917). A mostra circulou por diversas capitais brasileiras, entre elas Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, atraindo, no total, mais de 1 milhão de visitantes.

O interesse demonstrado pelos brasileiros fez com que se articulasse a criação de uma espécie de satélite do Museu Rodin no país. E foi a capital baiana quem conseguiu viabilizar a idéia, através da participação do governo estadual, que cedeu o imóvel e pagou os projetos e a execução da sede. O gestor do espaço é uma associação cultural, entidade civil sem fins lucrativos. Para o comodato das 62 peças originais, celebrou-se um acordo entre os governos do Brasil e da França.

O sótão, antes não utilizado, será destinado a pequeno auditório

O imóvel escolhido - entre as opções apresentadas pelo governo estadual - foi aprovado por Araújo. Trata-se de uma casa do início do século 20, no bairro da Graça. Construído em 1912 pelo comendador Bernardo Martins Catharino, com desenho do arquiteto italiano Baptista Rossi, o palacete, protegido pelo tombo estadual desde a década de 1980, é um dos últimos exemplares do ecletismo na capital baiana. Com implantação e estilo tipicamente inspirados nos similares franceses que remontam ao final do século 18 (que, na época, influenciaram grande parte das residências do gênero no mundo ocidental), o imóvel possui, no total, quatro pavimentos.

Como os pouco mais de 1,5 mil metros quadrados da casa eram insuficientes para abrigar o programa do museu, foi proposto um novo volume, no fundo da gleba, com área edificada semelhante. É na relação entre os dois, e não na leitura isolada de cada um, que reside o interesse do desenho de Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci. Os autores, que também realizaram o projeto de restauração do palacete, implantaram o anexo de forma quase simétrica à construção existente, levando em conta um corte transversal no meio do lote. Assim, a projeção que ambos ocupam no terreno é quase a mesma.

Dessa forma, reforçou-se a fachada lateral leste como elemento principal de cada volume. Essa opção, além de potencializar a leitura da construção existente, criou espaço externo para a exposição de peças de bronze de Rodin (adquiridas pela iniciativa privada baiana) e conservou a massa arbórea.

Apesar das áreas equivalentes, a nova construção (que conta com um subsolo destinado ao acervo) tem menos da metade da altura da antiga. Esta foi elevada à condição de protagonista - mesmo porque abrigará a parte mais nobre do acervo, as peças de gesso originais do escultor. Por outro lado, o pavilhão, de contida expressão formal, tem flexibilidade para abrigar exposições temporárias, ficando com o papel de estimular a freqüência de visitantes. Esse caráter de co-protagonista que assume é um dos elementos a criar, entre as edificações, um diálogo revelado também pela forma e pelo método construtivo, que “expressam uma técnica e um modo de construir e de usufruir do espaço”, relatam os autores. Enquanto foram apaziguados os tons do ecletismo, com a pintura externa branca, o anexo é de concreto aparente.

Uma passarela, na cota do térreo elevado do palacete, liga as duas construções. Ela permite que se chegue ao mezanino do anexo através da circulação vertical, composta também por elevador, implantado no volume existente. Na face externa, a torre de circulação é o único elemento de intervenção no antigo imóvel. Ela está encaixada na porção posterior, no “centro geométrico do terreno”, formando quase um amálgama entre as edificações. Internamente, os arquitetos integraram diversos ambientes - após intensa negociação com os órgãos de tombo -, para adequação ao novo uso. O sótão, antes não utilizado, foi transformado para abrigar um pequeno auditório. Acima dele há uma plataforma, solicitada pelo comendador para que fosse possível ver o mar.

Elemento externo mais forte da intervenção, a passarela possui também outra função: permitirá diferentes vistas da Porta do inferno, uma das mais famosas obras de Rodin, para a qual foi reservado um espaço entre os dois edifícios, na lateral oposta ao pátio.

O interior do pavilhão é formado por um espaço expositivo divisível em três ou mais ambientes, conforme a necessidade do curador. A composição espacial, à maneira de Mies, é formada por planos de concreto, e o mezanino constitui uma extensão da passarela, formando uma promenade architecturale.

Com esse projeto, os autores retomam, mesmo que de forma simbólica, um contato com a cultura baiana iniciado por Lina Bo Bardi, com quem colaboraram. Mas a tônica agora não recai na relação entre a arte moderna e a cultura popular, e sim na ponte imaginária entre a França e a Bahia, por onde passaram, entre outros, Pierre Verger e suas fotos, o projeto do palacete parisiense do comendador, Jorge Amado e Zélia Gattai no exílio. Auguste Rodin, agora com endereço soteropolitano, passa a integrar essa via de mão dupla.


Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 319 Setembro de 2006
O recuo generoso induz à leitura de que, nas duas construções, a fachada principal é a lateral
O volume da circulação vertical é incrustado no palacete
No piso superior do palacete, os espaços foram interligados
Na nova caixa de circulação vertical, a escada circunda o elevador
Detalhe da escada original da residência
Passarela e varanda possuem a mesma cota
No jardim também estão expostas algumas peças de bronze de Rodin
A área diante do pavilhão pode ser utilizada como extensão ao ar livre dos espaços expositivos
Sobriedade apaixonada
Roberto Segre

O comendador Catharino nunca imaginaria que o seu sofisticado palacete eclético, hegemônico no bairro da Graça e construído com materiais preciosos importados de Portugal, albergaria o museu de um escultor francês contestatório e quase seu contemporâneo. Pelo refinamento das pinturas murais, dos vitrais e das decorações art nouveau nos salões e quartos, ele não teria se identificado com a paixão e a violência plástica de Rodin. Por que o museu em Salvador (o único dedicado ao artista, além do existente em Paris), cidade que não tem a forte influência francesa de, por exemplo, Buenos Aires, onde o parque de Palermo contém várias esculturas dele? Porque Salvador é uma cidade culta e de fortes e apaixonados antagonismos: a exuberância da fachada da Ordem Terceira de São Francisco contrasta com o ascetismo do convento do Carmo; o silêncio noturno do Pelourinho é a antítese do carnavalesco trio elétrico no bairro de Ondina; o socialismo utópico de Jorge Amado se contrapõe à política dos coronéis; a sóbria arquitetura de Francisco Assis Reis e de Lelé se opõe ao furor decorativo de Fernando Peixoto.

Então, não surpreende a presença das esculturas de Rodin nesse museu, onde Fanucci e Ferraz, discípulos de Lina Bo Bardi, continuaram a sua tradição museística baseada no respeito ao monumento, mas sem temor de inserir a linguagem da modernidade. Eles restauraram respeitosamente o palacete e deram nova expressão arquitetônica ao sótão - o interior da mansarda francesa -, ao revestir de madeira as paredes internas para ali colocar um auditório; e articularam o velho e o contemporâneo no bloco de escada e elevador, definido por um alto muro de concreto e de treliça de madeira que filtra a luz e cria um espaço em penumbra, estabelecendo suave transição. É um diálogo similar ao estabelecido por Lina entre o casarão colonial e a criativa escada helicoidal no solar do Unhão.

A sutil obra de restauro se complementa com o local para exposições transitórias, concebido como um volume horizontal de concreto neutro e semitransparente, cuja passarela de conexão com o palacete é protegida por uma sobrepele de treliça de madeira, elemento leve que se associa com a galeria clássica do velho prédio. A sobriedade da nova construção se manifesta na cuidadosa colocação no terreno, respeitosa com as centenárias árvores existentes no jardim. Esse delicado equilíbrio entre as duas linguagens - o moderno e o acadêmico - demonstra que a velha guerra dos estilos acabou, e que, contrariamente ao que acontece no mundo atual, a concórdia e a beleza ainda são possíveis na arquitetura baiana.


Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz são formados na FAU/USP em 1977 e 1978, respectivamente. Em 1979, fundaram o escritório Brasil Arquitetura, responsável, entre outros, por diversos projetos institucionais, tais como o centro KKKK, em Registro, e o Teatro Polytheama, em Jundiaí, ambos
A passarela pode ser atingida a partir da escada
O pé-direito duplo dá flexibilidade ao novo espaço
Croqui

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 319

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