PERFIL

O sertão ancora no porto

Brasil Arquitetura: Centro Cultural Cais do Sertão, Recife

Duas mil e cem peças de um cobogó branco, desenhado especialmente para o projeto, envolvem externamente o edifício de concreto que, abrigando auditório, salas de exposição temporária, administração e restaurante, é a segunda e derradeira etapa da implantação do Cais do Sertão, centro cultural que o Brasil Arquitetura projetou para terreno beira-mar na ilha do Recife Antigo – cercada pelo oceano Atlântico, de um lado, e pelo rio Capibaribe do outro.

O elemento vazado é constituído por concreto geopolimérico na cor branca e, medindo 1 por 1 metro de lado, teve desenho inspirado nas rendas produzidas pelas mulheres do sertão. A sombra gerada pelos cobogós, no entanto, sendo a peça larga 15 centímetros, protege os interiores do museu das insolações leste e oeste, para onde estão voltadas as fachadas alongadas da edificação, respectivamente na direção do mar e da cidade.

Dentro do museu, os cobogós são ladeados por galerias de circulação; a galeria a leste serve para o acesso do público ao núcleo expositivo, e a oeste, aos trabalhos de manutenção. No primeiro caso, os interiores ainda estão protegidos do sol e do vento por meio de uma fachada de vidro.

A interação das nuances da luz incidente - filtrada pelo rendilhado do elemento vazado - com a opacidade e textura irregular do concreto aparente, produz um efeito visual que comunica a temática do museu, ligada ao sertão e à vida e obra de Luiz Gonzaga.

As galerias são delimitadas no interior do edifício por duas vigas protendidas de concreto que, medindo 12 metros de altura (dois trechos de cinco metros de altura mais as espessuras das lajes), suportam o vão livre de 65 metros na praça seca do piso térreo. O eixo desse espaço público está alinhado com a Torre Malakoff, bem arquitetônico tombado nos arredores e que, embora aberto à visitação, é atualmente cercado por muros.

Para criar tal situação urbana, de interação da construção histórica com o centro cultural, e de ambos com o mar, os arquitetos pleitearam junto aos órgãos de aprovação a inversão da situação existente. Ou seja, trocaram de lado a posição do galpão destinado a abrigar a exposição permanente do Cais do Sertão no beira-mar - embora a orientação inicial fosse por sua manutenção, o espaço foi atestado como estruturalmente frágil durante a obra e, assim, reconstruído, porém com melhor aproveitamento por causa da inserção de um mezanino - com a da nova construção, que publicamos aqui, de modo a se criar o belvedere que, desde a torre e a praça do Arsenal, abre a vista para o mar.

“Rompemos a barreira dos galpões do cais do porto, que emparedavam a frente da água. No lugar, construímos uma praça”, comenta Ferraz a esse respeito. No mesmo sentido, o projeto arquitetônico contempla ainda a substituição do asfalto da avenida por piso tátil nas imediações do Cais do Sertão, de modo a favorecer o trânsito de pedestres na área. Embora seja uma zona comercial, com predomínio de empresas de tecnologia (o Porto Digital de Recife), sua vocação é simultaneamente turística e recreativa.

Nas imediações há o Terminal Marítimo de Passageiros do Recife, e a lateral sul do edifício é composta por varandas abertas. A outra extremidade se interliga com o galpão da exposição permanente e demais áreas museológicas do complexo, como salas de projeções, de som, biblioteca e discoteca, salas multiúso e de oficinas, inaugurado em 2014 (PROJETO edição 414, setembro 2014), perfazendo os cerca de 200 metros de comprimento total do centro cultural.

Uma rua interna - a galeria lateral - faz a interligação entre as duas metades, passando-se da ambiência mais escura do galpão para a luminosidade natural difusa da nova construção. Externamente, é abrupta a transição de uma para outra metade - a poética da arquitetura é a de “um edifício novo que se apoia no antigo” -, inclusive porque a edificação dos cobogós é maior em altura em relação ao galpão.

Nela, há dois andares expositivos mais o térreo livre e o jardim/ restaurante da cobertura, cujo paisagismo emprega espécies vegetais do sertão e uma pedra de tom amarelado no revestimento de piso que evoca um rio barrento. Já a pigmentação do concreto das fachadas é referência ao calor do sertão.



Ficha Técnica

Centro Cultural Cais do Sertão

Local Recife (PE)
Início do projeto 2009
Conclusão da obra 2014 (1ª fase), 2018 (2ª fase)
Área do terreno 7.000 m²
Área construída 5.000 m²
Arquitetura  Brasil Arquitetura - Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz (autores); Pedro Del Guerra, Cícero Ferraz Cruz, Luciana Dornellas (co-autores); Anne Dieterich, Beatriz Marques, Fabiana Paiva, Felipe Zene, Fred Meyer, Gabriel Mendonça, Gabriel Grinspum, Julio Tarragó, Victor Gurgel (colaboradores); Guilherme Tanaka, Laura Ferraz, Roberto Brotero, William Campos (estagiários)
Paisagismo André Paoliello
Estrutura Fabio T. Oyamada
Elétrica e hidráulica MBM Engenharia
Ar condicionado TR Thérmica
Luminotécnica LUX Projetos (Ricardo Heder)
Acústica Harmonia Acústica (Akkerman, Holtz)
Gerenciadora Colméia
Construção Consórcio Gusmão/Concrepoxi
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Penha Vidros (vidros)
Lanxess (pigmentos concreto)
Marcenaria Baraúna (mobiliário)
KJPL Arbyte (tecnologia museal)
Tecnopop (identidade visual)
Airsplit Center (climatização)
Duberton (piso de fulget e granilite)
JAJ Vidros (esquadrias e peças de vidro laminado)
JJ Moldes (formas)
JM Montagem (estrutura esquadrias metálicas)
J.O.V. Engenharia (assessoria e acompanhamento da fabricação do cobogó)
LCR Construtora (estrutura metálica da fachada e gazebo)
Moendo Comércio (forros e painéis acústicos do auditório)
Novva Eng. Cobogó (cobogós)
Pimentel Multidoor (portas acústicas)
Queiroz Filho (unidades evaporadores de piso)
Uniontech (juntas de dilatação)
Villa Garden (sky garden e paisagismo)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 446
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