Christian de Portzamparc: Cidade das Artes, Rio de Janeiro

Beleza e técnica

A abertura ao público, este ano, da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, nove anos depois do início das obras, encerra a complicada história da execução desse complexo cultural, marcada por paralisações, retomadas, inaugurações e muita polêmica.

Erguido no cruzamento dos dois grandes eixos traçados por Lucio Costa para a zona oeste carioca, na Barra da Tijuca, o projeto do francês Christian de Portzamparc homenageia o modernismo brasileiro, utilizando elementos consagrados por nossa arquitetura. Referência arquitetônica importante na cidade, e também na carreira do arquiteto, o edifício é considerado uma das obras públicas mais relevantes da engenharia brasileira nas últimas décadas.

Membro de uma geração de profissionais europeus formada durante os anos dourados da arquitetura brasileira, Christian de Portzamparc conhece e admira, desde muito jovem, as obras dos mestres Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Reidy e outras grandes figuras do modernismo no Brasil. Em seu primeiro projeto no país, incorpora elementos consagrados por nossos profissionais - grandes vãos livres, pilotis e rampas esculturais, uso extensivo e exuberante do concreto e valorização da cultura da sombra -, e os conjuga à beleza e à técnica do seu próprio trabalho.

Segundo Portzamparc, sua intenção era trabalhar a partir do lugar, da paisagem, do clima, da dinâmica do programa, da necessidade de isolamento acústico, da técnica estrutural adaptada ao Brasil. Ao contrário da situação encontrada em outros locais onde tem atuado, cujas áreas de implantação, sempre limitadas, fazem com que a arquitetura fique submetida a regulamentos muito restritivos, o projeto da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, pedia amplitude: o sítio, com 95,6 mil metros quadrados, está localizado em meio a uma planície urbana de 15 quilômetros de extensão. A arquitetura seria um objeto isolado e precisava se destacar como uma referência forte e audaciosa. E o tema da música daria inteira liberdade ao arquiteto para trabalhar acústica e desenho em formas livres.

No contexto da obra de Portzamparc, a Cidade das Artes surge como uma síntese de suas reflexões sobre a relação entre cheios e vazios e a sobrelevação de estruturas. Em alguns de seus trabalhos anteriores, o programa aparece separado e abrigado em diferentes blocos de formatos irregulares, permeados por átrios públicos que se interpenetram no interior de um grande volume regular. Com variações, o conceito foi utilizado na Cité de La Musique, em Paris, e também na Cidade das Artes. Enquanto nos climas frios o volume recebe fechamentos de vidro ou concreto, no Rio ele foi elevado, para se destacar ao longe, e aberto lateralmente, expondo o movimento dos blocos irregulares e permitindo vistas para o mar, lagos e montanhas ao longe.

O conceito que norteou o projeto foi, então, o de uma ampla varanda elevada - apartada do solo, dos carros, e aberta para a paisagem -, paradigma da arquitetura brasileira dos anos 1950. Contido entre dois planos horizontais (duas lajes de 90 x 200 metros, a do piso a dez metros do solo e a da cobertura a 30), o imenso belvedere abriga os vários itens do programa em cinco blocos de formatos irregulares, separados por vazios que propiciam sombras e passagem de ar e luz. Para o isolamento acústico deles, foram criadas grandes cascas de concreto protendido, as velas cilíndricas que sobem do solo, recoberto por jardim de manguezais e espelhos d’água projetados por Fernando Chacel.

A ENCOMENDA
Inicialmente batizado de Cidade da Música, o projeto foi encomendado a Portzamparc em 2002 pelo então prefeito do Rio, César Maia, para tornar-se a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Portzamparc é reconhecido internacionalmente como expert em salas de música, com mais de 30 propostas já executadas em cidades da Europa e da América do Norte.

O extenso programa resultou da lista de necessidades apresentada pelo maestro e por músicos da OSB, e também pelo prefeito, que queria uma sala para concertos sinfônicos transformável em teatro de ópera. Além do grande auditório, com capacidade para 1,8 mil pessoas (música) ou 1,4 mil (ópera), foram projetadas salas para outros gêneros musicais (música de câmara, com 500 lugares, e música popular/jazz/eletroacústica, com 800), todas com padrão de audição internacional. Camarins, 13 ambientes de ensaio, 13 salas de aulas de música e de dança, midiateca, depósito de instrumentos, escritórios da administração da orquestra, três cinemas de arte, restaurante, café, lojas, foyer musical, jardins, espelhos d’água e estacionamentos também foram demandados.

Em 2003, o prefeito aprovou o projeto apresentado, e a construção teve início em 2004. Com os trabalhos já avançados, a obra foi interrompida no ano seguinte, quando a prefeitura direcionou seus esforços para a infraestrutura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, de 2007. Ela só foi retomada no início de 2008, e já no final do ano, antes de encerrar seu mandato, Maia inaugurou o edifício ainda inacabado, com uma apresentação da OSB na grande sala, ocasião em que se comprovou a alta qualidade do som no ambiente.

O novo prefeito, Eduardo Paes, assumiu em 2009 e anunciou a paralisação das obras até que se auditassem os gastos feitos. Na época, a mídia carioca iniciou uma campanha contra o projeto, discutindo sua grandiosidade e os custos da execução, considerados exorbitantes para o município. Uma CPI ouviu representantes de empreiteiras, funcionários envolvidos na obra e até o arquiteto, mas não chegou a nenhuma conclusão. Em 2010, os trabalhos foram reiniciados e concluídos no final de 2012. Rebatizado de Cidade das Artes, o complexo foi então reinaugurado, mas seu funcionamento só ocorreu este ano. De acordo com a Fundação Cidade das Artes, na última etapa da obra alguns espaços foram readequados e o programa adaptado para contemplar outras expressões artísticas, como exposições de artes plásticas, palestras, lançamentos e eventos literários. A OSB, no entanto, não assumiu sua sede até o momento.

A TÉCNICA
A estrutura tem um papel fundamental na Cidade das Artes, pois são as duas grandes lajes e paredes de concreto aparente que definem suas formas esculturais, leves e ao mesmo tempo monumentais. A dimensão excepcional do projeto - 90 mil metros quadrados de área construída, sendo 68 mil do edifício - exigia grande número de pilares de sustentação. De início, as dezenas de apoios sugeridos pela equipe da França não agradaram Portzamparc, que desejava um número reduzido. Durante um voo para Berlim, refletindo sobre o trabalho estático das cascas de proteção acústica e suas ligações com os pilares abaixo, o arquiteto chegou à conclusão de que esses casulos portantes, encurvados e cilíndricos, poderiam partir do próprio solo e subir apoiando tudo, não apenas duas lajes. E para que estas resultassem esbeltas, utilizaria o concreto protendido. Definida a lógica estrutural, o escritório pôde preparar a maquete definitiva.

Para enfrentar o desafio apresentado por sua arquitetura, Portzamparc preferiu que o cálculo estrutural fosse feito no Brasil, cuja experiência com o concreto protendido é reconhecida e respeitada em todo o mundo. A equipe escolhida para esse trabalho, de Carlos Fragelli e Ulysses Cordeiro, da Beton Engenharia, com a consultoria de Bruno Contarini, foi fundamental para a viabilização da estrutura complexa da Cidade das Artes. Logo depois de aprovada a proposta, sem modificações importantes, os calculistas passaram a trabalhar diretamente com o arquiteto e sua equipe, analisando o projeto arquitetônico, pré-dimensionando a estrutura, negociando acréscimos de apoios, discutindo alternativas e verificando cargas em diversas posições até chegar à solução mais adequada.

“Os desafios eram monumentais, não só por conta dos vãos, de 30 a 35 metros, mas também por causa do peso e da robustez das lajes do belvedere [1,5 metro de espessura], a dez metros de altura, e da cobertura [1,7 metro de espessura], a 30 metros do solo, e ainda por alguns pilares inclinados. É um prédio de grande porte, sobre apoios leves e suaves - apesar da aparência de leveza conferida por sua forma, as paredes são muito pesadas por conta das necessidades acústicas. Sem a técnica da protensão e os recursos de projeto proporcionados pela informática, o edifício seria algo bem diferente, e dificilmente poderíamos materializar as ideias de leveza e monumentalidade que Portzamparc desejava”, testemunha Contarini.

O edifício é composto por estruturas principais, as quatro lajes que definem a obra (do subsolo, do teto do subsolo, da esplanada e da cobertura); elementos estruturais, englobando as paredes e pilares que suportam as lajes; e estruturas secundárias, que são lajes, vigas, escadas, paredes e pilares dos cinco blocos que abrigam o programa e trabalham no contraventamento e no enrijecimento da estrutura como um todo. As lajes do belvedere e da cobertura receberam estruturas em grelha; as do piso e da cobertura do subsolo são maciças, com 25 centímetros de espessura; e nos níveis intermediários foram lançadas lajes e vigas convencionais de concreto armado e concreto protendido.

O estudo preliminar e o anteprojeto de arquitetura foram concebidos em Paris pelo Atelier Christian de Portzamparc (ACDP), enquanto os projetos básico e executivo foram desenvolvidos no Rio de Janeiro, pelo escritório L. A. Rangel Arquitetos, sob a ativa supervisão dos arquitetos Nanda Eskes, Clóvis Cunha e Anna Paula Pontes, que tinham atuado no ateliê de Paris e formaram, no Rio, a filial ACDP do Brasil Projetos.

O gerenciamento da obra ficou a cargo da Engineering, e para a execução formou-se um consórcio com as construtoras Andrade Gutierrez, Carioca-Christian Nielsen, Consórcio Cidade da Música e Telem. Procurado para opinar sobre as mudanças efetuadas no programa e a qualidade do acabamento final, etapas das quais não participou, Portzamparc não pôde ser contatado. Segundo o escritório de Paris, ele estava em visita a projetos no Marrocos, nos Estados Unidos e na China. Em pronunciamentos anteriores, no entanto, ele se mostrara satisfeito com a finalização da obra e com o empenho da direção da Rioarte, responsável pela administração da Cidade das Artes.



Christian de Portzamparc
Christian de Portzamparc nasceu em Casablanca, Marrocos, em 1944, e estudou pintura e arquitetura na Escola de Belas-Artes de Paris, pela qual se diplomou em 1969. Recebeu o Prêmio Pritzker em 1994. É autor de projetos como a Embaixada da França em Berlim e a Torre LVMH, em Nova York



Ficha Técnica

Cidade das Artes
Local Rio de Janeiro, RJ
Cliente Secretaria Municipal das Culturas/Prefeitura do Rio de Janeiro
Data do início do projeto 2002
Data do início da obra 2004
Data da conclusão da obra 2012
Área do terreno 95.644 m2
Área construída 90.000 m2
Área útil 23.000 m2
Arquitetura Atelier Christian de Portzamparc - Christian de Portzamparc (autor); Bertand Beau, Christophe Eschapasse, Nanda Eskes, Anna Paula Pontes, Duccio Cardelli, Florence Clausel, Michael Kaplan e Clóvis Cunha (equipe)
Desenvolvimento da arquitetura L. A. Rangel Arquitetos
Gerenciamento Engineering
Estrutura (cálculo e desenvolvimento) Beton Engenharia - Carlos Fragelli e Ulysses
Cordeiro; Bruno Contarini (consultoria)
Cênica Changement à Vue (França); Solé Associados (Brasil)
Acústica XU Acoustique (França); Acústica & Sônica (Brasil)
Consultoria de sistema predial WRS - Alexander Weinberg
Instalações MHA
Paisagismo CAP - Fernando Chacel
Sistema viário CCY
Esquadrias Mário Newton
Luminotécnica LD Studio; Rio Branco & Faccini
Transporte vertical Alberto Cumplido
Impermeabilização GGR
Construção Andrade Gutierrez, Carioca-Christian Nielsen, Consórcio Cidade da Música e Telem
Fotos Nelson Kon

 

Texto de Éride Moura| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 404
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