Coluna

Todo dia, a 12ª BIA

Todo dia é o tema que propusemos para a 12ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (BIA), a partir do fenômeno que observamos em nossas atividades pedagógicas: o novo protagonismo do cotidiano na prática e na teoria da arquitetura e do urbanismo em todo o mundo.

O impacto da cadeia alimentar ou da exploração de recursos básicos sobre o ambiente construído na era do antropoceno, o princípio de jamais demolir o existente e a revelação de histórias cotidianas são exemplos de indagações que incidem sobre temas como justiça social, racial e sexual, e invocam questões também relativas à divisão do trabalho que os campos da arquitetura e do urbanismo implicam, envolvendo os mais diversos trabalhadores da construção civil, bombeiros, limpadores e outros funcionários dedicados à conservação do espaço aos agentes não humanos como robôs e bactérias hoje inseridas no concreto para ativar propriedades autorregenerativas.

A manutenção é uma dimensão crucial do cotidiano da arquitetura e da cidade à qual bienais de arquitetura nacionais ou internacionais rara ou quase nunca deram destaque. Todo dia enfatiza esse assunto que vem aos poucos sendo considerado com a devida atenção por profissionais da arquitetura e disciplinas correlatas justamente diante de tragédias recentes que ocorreram mundo afora: do edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, e do Museu Nacional do Rio à ponte Morandi, em Gênova, e, mais recentemente, a catedral Notre-Dame de Paris.

O tema do cotidiano já permeou a arquitetura no passado, mas desde a última década parece ter se tornado cada vez mais abrangente e interdisciplinar para desencadear uma nova e multifacetada ética e estética de simplicidade que hoje ganha momentum. Todo dia apresentará uma rede de dispositivos espaciais “site-specific”, encomendados a diferentes equipes interdisciplinares para promover um diálogo com o cotidiano do Sesc 24 de Maio, de Paulo Mendes da Rocha e MMBB, e uma exposição realizada através de uma chamada aberta internacional no Centro Cultural São Paulo, de Eurico Prado Lopes e Luiz Telles.

São Paulo em si constitui, desse ponto de vista, o contexto ideal dado que, nessa cidade, o cotidiano é um agente capaz de impactar e fortalecer a arquitetura. A pura determinação de resistir a ambientes institucionais desafiadores, a estruturas de propriedade altamente concentradas e à descontinuidade de políticas públicas reforçou a necessidade de explorar a capacidade transformadora do cotidiano da arquitetura.

A obra hoje altamente reverenciada de Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha em todo o mundo é uma ilustração notável dessa tendência. O trabalho de ambos foi - e tem sido - concebido para promover, a partir de diferentes estratégias, progresso através do cotidiano, um modus operandi que persiste desenvolvido por sucessivas gerações de profissionais brasileiros, mas também internacionais. Um grande número de projetos expostos na 12ª edição da BIA presta homenagem aos dois arquitetos.


Ciro Miguel, Vanessa Grossman e Charlotte Malterre-Barthes são os curadores da 12ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 450
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