Colunas

Arquitetura: substantivo feminino

De acordo com o Sistema de Inteligência Geográfica (Igeo) do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), as mulheres representam 65,2% dos profissionais com registro ativo no país. No Rio de Janeiro, o cenário não é diferente. O estado possui 10.866 arquitetas e urbanistas.

Infelizmente, o incrível trabalho laboral e intelectual das mulheres é relegado a segundo plano. A contribuição das mulheres na Arquitetura e Urbanismo deve ser devidamente valorizada, e o CAU tem papel importante na mudança desse paradigma.

Aproveitando o gancho do Dia Internacional da Mulher, o CAU/RJ produziu um perfil da arquiteta e urbanista fluminense. A idade média das profissionais é de 45 anos e a maioria atua na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Elas exercem, predominantemente, atividades de projeto. Dos 175 mil Registros de Responsabilidade Técnica (RRTs) emitidos por mulheres de 2012 a 2018, 49,7% eram de projetos, seguidos por atividades de execução (32,6%). Atividades especiais em arquitetura e urbanismo respondem por 11,9% dos registros. Apenas 3,3% dos RRTs são referentes a trabalhos em gestão.

Os dados demonstram que, embora tenham feito a maioria dos projetos, as mulheres tiveram contribuição pequena no gerenciamento e na direção de obras. Em março, realizamos a série de debates “Arquitetura: substantivo feminino”. O evento fomentou importantes discussões sobre representatividade das mulheres em instituições como o CAU, invisibilidade histórica da atuação profissional das arquitetas e urbanistas, contribuição das mulheres para uma cidade mais segura, entre outros temas. Dados apresentados pelas palestrantes provocam profunda reflexão sobre as políticas urbanas e habitacionais.

A pesquisadora Poliana Monteiro lembrou, por exemplo, as remoções ocorridas durante as obras para os Jogos Olímpicos, quando milhares de famílias foram reassentadas na zona oeste carioca. Esta área da cidade concentrou, de 2009 a 2016, 58% dos casos de estupro notificados na cidade. A doutora em urbanismo Rossana Tavares ressaltou o impacto da precariedade habitacional sobre a vida das mulheres. Já a arquiteta e urbanista Priscila Gama defendeu um desenho urbano que privilegie o pedestre.

A explicação é simples: com o aumento da circulação de pessoas, mais “olhos” estarão voltados para as ruas, inibindo ações violentas contra as mulheres. Para ampliar o debate, o CAU/RJ criou, recentemente, a Comissão de Equidade de Gênero. É urgente que a discussão se prolongue para além do Dia Internacional da Mulher. É preciso construir não só um Conselho para todas e todos, mas ter em mente que uma cidade pensada para as mulheres é também uma cidade mais inclusiva e justa.

 
Nadir Moreira é arquiteta e urbanista, vice-presidente do CAU/RJ.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 442
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora