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Lendas Urbanas e Realidade

Participei em fevereiro da 9ª edição do Fórum Urbano Mundial (WUF), o mais importante espaço para discussão da política urbana depois das Conferências Habitat, estabelecido em 2001 pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos -  United Nations Human Settlements Programme (UN-Habitat) – e reconhecido pela ONU.

Diferentemente do Onu-Habitat, no WUF o objetivo é avaliar os avanços e coletar boas práticas no atendimento às diretrizes traçadas pelas Conferências Habitat, que têm um foco maior em termos de legislação e compromissos políticos. Uma das coisas que salta aos olhos quando se examinam as experiências que vêm sendo bem-sucedidas e as novas cidades que estão surgindo é o quanto as concepções românticas - no sentido de conceitos derivados de visões individuais e impressões sem maiores conexões com a realidade - e vitimistas contribuem para perpetuar nossas mazelas urbanas.

Dentre as experiências mais bem-sucedidas há cidades na Ásia e África, que são também regiões com um desenvolvimento dependente, similar ao nosso, com urbanização desenfreada e desorganizada durante a industrialização e as crises da desindustrialização.

Mas elas tornaram-se modelos de cidade para o mundo, enquanto nós insistimos no discurso terceiro-mundista para justificar a incapacidade de resolver nossos graves problemas. Os exemplos são muitos, mas foco em questões de espaço em apenas dois pontos: adensamento e locação social. Com relação ao adensamento, a própria Kuala Lumpur, assim como Cingapura, inseridas na faixa da floresta equatorial, é a prova do conceito daquilo que já foi demonstrado há mais de 40 anos pela Onu-Habitat, mas ainda é tabu nas nossas discussões de política urbana: a única forma de se obter sustentabilidade ambiental nas cidades é pelo adensamento, que dá viabilidade financeira à implantação de infraestrutura de alto nível e evita que a mancha urbana se espalhe, inclusive invadindo áreas que deveriam ser protegidas, como as de mananciais.

Com relação à locação social, a verdade é que o mundo, em especial os países em desenvolvimento que têm de lidar com a urbanização acelerada e precária, está resolvendo o problema da moradia nas regiões centrais, dotadas de infraestrutura, por meio da concessão de incentivos diversos à produção de unidades para locação a preço compatível com a renda dos residentes.

E entre as próprias populações há uma visão clara de que é melhor alugar. Podemos continuar dominados por nossos achismos, nossa visão reacionária de aldeia como ideal de cidade, nossa visão patrimonialista da “casa própria”, nossa total dependência de que o papai-Estado tudo deve prover. Ou podemos entender como concretamente países na mesma situação do Brasil estão de fato resolvendo os problemas.

  
Police Neto é vereador em São Paulo. 

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 442
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